quinta-feira, 4 de março de 2021

De repente 31

Nunca comemorar aniversário foi tão literal. Mais um ano de vida. Numa pandemia com milhares de mortos todos os dias, completar mais 365 dias vivo realmente é uma conquista.

Agora em março estamos fazendo 1 ano de pandemia. 1 ano de isolamento social. 1 ano de álcool em gel na mão e sair só tomando todos os cuidados. 1 ano de homeoffice, videoconferência e "seu microfone tá no mudo". Temos vacina. Mas não temos. E eu já tô provisionando essa rotina até 2023.

Ironicamente, o último evento antes do "fim do mundo" foi o meu aniversário. E eu fico feliz de ter podido comemorar me divertindo a vera com meus amigos no karaokê. Já sabíamos que o negócio tava ruim e foi por pouco que o evento não foi cancelado, já que em poucos dias as coisas iam mudar pra sempre.

Mas, bom, pelo menos eu comemorei, né. Pior é a menina do De repente 30, que tá LITERALMENTE a vida inteira esperando pra fazer uma festa com esse tema, reunindo todo o elenco agora com 30 anos também, e tirar uma foto com a Jenifer Garner pra mostrar como elas tão iguaizinhas, e nem vai poder fazer a festa dela (ela faz 30 esse ano).

Mas, então, ter 30 anos. Não vou mentir, durante essa pandemia, doeu. Em alguns momentos chorei como poucas vezes chorei na vida. E finalmente tomei coragem (ou seria vergonha na cara?) e comecei a fazer terapia. E, ah, sim, a Sandy estava certíssima. Como as costas doeram, viu? Não ter uma cadeira decente realmente acabou com a coluna. E o sedentarismo acabou com o exame de sangue também. Tenho que literalmente correr atrás desse prejuízo agora. 

Mas não ter mais 20 anos tem suas vantagens. Fora os efeitos desse "momento histórico", e o lance da atenção à saúde, ter 30 anos é bem melhor que ter 20. Aquela pressão* sobre tudo aquilo que esperam de você e que você espera de você mesmo é bem mais diluída, seja pela concretização dos sonhos, seja pela consciência de que não dá pra ter tudo nessa vida. E daí que você ainda não é tudo aquilo que você queria ser? E daí que aquele fulano não concorda com a maneira como você toca sua própria vida? E daí que você não se encaixa no esteriótipo? Ele por acaso paga os meus boletos?

* Eu não vou linkar, mas é só você dar uma passada nos posts de 10 anos atrás pra você ver como elas estavam todas lá.

Aos 20 anos, o jovem, inconscientemente, fica encantado com o ritual que envolve se organizar para pagar os seus boletos. E realmente, ele é um marco da vida adulta. Porque pagar boletos é o sinal de empoderamento que te faz ligar o f*da-se pra toda essa necessidade de aceitação externa.

Mas como ia dizendo, os dias que precederam os aniversários de 30 anos, e agora de 31, foram bem menos ansiosos do que os da última década. E ao invés da sensação de anos anteriores de que o tempo estava passando rápido demais, ou de que o planos não estavam dando certo, entre outras epifanias que começam a aparecer, o sentimento é de...paz.

Paz por entender que não dá pra brigar contra o tempo e que a única saída é viver um dia de cada vez. Paz por perceber que nada é pra sempre e tudo bem. Por ver as novas gerações repetindo os mesmos erros e cometendo os próprios, e perceber que eles VÃO apagar os nossos passos, quer a gente queira ou não. Porque agora que essa nossa galera começa a ocupar os espaços de ação e tomada de decisão, a gente vê como também cometeu os erros de outras gerações e apagou os passos de outras antes antes de nós. E tudo bem. Não existe esse negócio de "deixar a sua marca no mundo", como a gente fica tão preocupado às vezes quando mais novo. Mas existe sim fazer a sua parte e deixar a sua marca em algumas pessoas. E isso é suficiente.

Talvez um pouco dessa paz nesse ano, inclusive, venha da própria sensação de que, durante essa pandemia, não há muito mais o que fazer e que ter chegado vivo até aqui já é coisa à beça.

Ah, sim, apesar de pagar os boletos e liderar uma equipe e tal, ainda assim tem um monte de coisas que eu não sei resolver e preciso pedir ajuda pro meu pai, e meu passatempo favorito ultimamente é reler minha série de livros adolescente favorita pra acompanhar um podcast gringo. No final das contas, nossos pais também eram só pessoas tentando descobrir como resolver as coisas igualzinho a nós agora. E tudo bem. (Tá vendo como é reconfortante ter essa visão de uma geração completa? Isso e fazer terapia. Realmente ajuda, amigos.) 

Eu pensei em terminar o texto com uns versos de The Schyler Sisters de Hamilton, que falam sobre "History is happening" e principalmente "Look around, look around at how/Lucky we are to be alive right now!", mas agora no final percebo que não tem outra música senão essa daqui que toca em De repente 30 (13 Going to 30), que acaba comigo TODA A VEZ.

<iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/oawdFJofaeQ" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>

E eu sei que eu tô fazendo 31, mas será mesmo que um ano que não se viveu, apenas se sobreviveu deve ser contado como inteiro? Além do mais, mas o que é 31 senão 13 ao contrário? 

PS. Bom, acho que vou deixar vocês com Stop this Train também porque acabei de brincar com os números pra parecer que a vida acabou de começar igualzinho o John Mayer.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A cena do celeiro

Em tempos de Netflix e maratona de uma temporada inteira, já é um fato que a linguagem televisiva das séries mudou. 

Saem os procedurais com uma leve premissa e casos da semana que aguentam 25 episódios por ano, entram as séries mais curtinhas, feitas para se consumir de uma só vez em que os episódios são “capítulos” de uma obra maior (e cada vez menos “episódicos”, como o antigo formato parecia sugerir). Se antes era possível perceber como os roteiros adequavam seus atos à realidade das paradas para os comerciais, com ganchos que deixavam o espectador “pendurado” até a volta das propagandas, agora os ganchos ficam reservados principalmente para o final dos episódios de forma que sigamos grudados na tela até o final da temporada. Aquele breve resumo de “nos episódios anteriores”, também deixam de fazer sentido nesse “novo jeito de assistir TV”.

Particularmente acho a maneira de acompanhar as séries introduzidas pela Netflix um tiro no pé. Os seriados quando têm seus episódios liberados todos de uma vez só tem relevância cultural de no máximo uma semana, ao passo que, ao liberar os episódios semanalmente, a presença nas redes sociais, na mente e na vida das pessoas se estende por meses. É o sentimento de comunidade, de todo mundo assistir junto (mesmo que não exatamente ao mesmo tempo), de marcar seu nome naquele pedaço de tempo que torna uma série inesquecível. E esse tipo de engajamento foi o que tornou Lost e Game of Thrones verdadeiros fenômenos culturais. Acredito que seja muito difícil que isso se repita daqui pra frente.

Mas nada faz mais falta nesses tempos de streaming do que “a cena do celeiro”. Calma, eu explico.

A estrutura de um episódio clássico de Smallville (e de outras séries pré-Netflix) consistia em:

1) Clark acorda de manhã, vai para o colégio, encontra Chloe e discutem no Mural do Esquisito a aparição de alguma criatura ou comportamento estranhos na cidade (o “Freak of the Week”)

2) Paralelamente tem uma outra trama envolvendo um personagem secundário que vai se cruzar com a história do “freak of the week”, e que possivelmente constituirá um dilema ético para Clark ou para o outro personagem. Nessa parte do episódio, eles tomam alguma decisão equivocada, os personagens brigam. Geralmente temos um discurso filosófico do Lex ou do pai do Lex.

3) Clark está discutindo alguma coisa com a Chole, e, durante a conversa, eles chegam à conclusão de que o vilão está para concluir seu plano maligno naquele segundo. Clark desaparece com sua supervelocidade, deixando a Chloe falando sozinha. Clark usa seus poderes e salva o dia.

Nesse ponto você já sabe que o episódio basicamente acabou, e falta só mais um bloco para o desfecho. Na época do Celso Portiolli no SBT, depois te ter aguentado comerciais de mais de 10 minutos, você sabe até que, se quiser pode mudar de canal, mas não troca porque logo em seguida vem, sim, ela mesma: “a cena do celeiro”.

Nesse bloco, Clark e seu pai, ou Clark e algum amigo com quem tenha tido uma conversa filosófica ou uma briga no meio, fazem o encerramento daquele episódio. Eles refletem, geralmente no celeiro, sobre como estavam sendo estúpidos ou como suas ansiedades não faziam sentido, pedem desculpas (os dois envolvidos!) e fazem as pazes. Os personagens tiram suas lições, sobe a música (geralmente de alguma banda pop-rock americana obscura, que você provavelmente nunca ouviu falar. Mas a música é boa e você depois vai baixa-la no eMule, após o final do episódio. Isso depois de descobrir quem tá cantando em algum portal especializado na série, claro), a câmera pega distância e pronto. Todos estão felizes de novo. O espectador está pronto para seguir com a sua vida, e semana que vem tem outro episódio pra gente assistir.

Vale ressaltar que a “cena do celeiro” é uma cena não só presente em Smallville, mas em diversas outras séries dos anos 2000, como The OC, House, Greys Anatomy, etc.

Pois bem, falei isso tudo porque gostaria de deixar registrado aqui como “a cena do celeiro” está fazendo falta, não só na TV, como nas nossas vidas.

Nessa loucura de redes sociais, a gente parece que perdeu a capacidade de CONVERSAR. De escutar o outro e ter EMPATIA para entender o outro lado. No meio desse caos que se transformou a internet, com gente do mal jogando iscas o tempo todo para que a gente brigue sem parar, a gente tá se esquecendo que as pessoas são HUMANAS e fatalmente VÃO COMETER ERROS! A gente tá precisando de mais “cenas do celeiro” em que a gente reflete um pouquinho sobre o que está acontecendo, e aprende com os erros e PEDE DESCULPAS e PERDOA os outros também. Tem muito dedo apontado. Muita militância, muito cancelamento. Pouca VONTADE de entender o que o outro de fato tá querendo dizer.

Esse extremismo sem conversa, em que tudo a gente quer “ganhar no grito” pra mostrar que TÁ ERRADO, às vezes se esquece de que tem situações em que realmente não são tão simples ou “preto no branco” quanto parecem. Tem alguns graus de cinza no meio que precisam ser considerados, sob pena de cairmos no mesmo discurso de censura que a gente tanto reclama.

Eu sei que é difícil, principalmente porque a nossa tolerância no passado recente parece ter dado brecha ao empoderamento de uma galera realmente do mal, que utiliza do argumento da liberdade de expressão pra espalhar discurso de ódio. Mas A GENTE TÁ PERDENDO O BOM SENSO!!!!!

A gente tá precisando RESPIRAR, e DESLIGAR um pouco, para REFLETIR de fato sobre o que está sendo dito. Essa era outra função essencial da “cena do celeiro”. Fala a verdade, tem umas séries hoje em dia que nem são boas, só são viciantes. Só que a gente não tem TEMPO de perceber isso, porque viu tudo de uma vez. A gente tá precisando de “menos timeline infinita”, e mais artigo de jornal e revista, mais livro, mais blog.

A gente tá precisando escutar uma música de uma banda pop-rock obscura e descobrir quem canta num portal especializado. A gente tá precisando gastar mais nossa energia em criar e acompanhar portais especializados e conhecer gente diferente que goste das mesmas coisas.

Até o Netflix sabe que deixar o streaming rolando o tempo todo direto é ruim, e depois de um tempo, ele dá uma parada e pergunta se você tá vivo, se não quer fazer outra coisa, ir comer, respirar um pouquinho.

A gente tá precisando do Celso Portiolli trazendo toda a sua simpatia e leveza para o meio das séries e das nossas vidas. Não, brincadeira, do Celso Portiolli a gente não tá precisando não.

Não dá pra acreditar que a Chloe hoje tá presa acusada por causa de uma seita em que rolava tráfico sexual.

Continue lendo...

sábado, 24 de outubro de 2020

Erro de roteiro

Outro dia no Twitter, uma pergunta sobre características inusitadas viralizou no Twitter e por um ou dois dias só se falava em outra coisa.

A Juliana falou que apesar de amar samba, escolas de samba e ter um pagode inteirinho dedicado a fazê-la sambar, não sabe muito como fazer isso.

E eu queria muito entrar nessa corrente e compartilhar uma coisa que fosse extremamente curiosa sobre mim, algo que fosse realmente absurdo, que se o roteiro da minha vida parasse na mão de um revisor, ele com certeza iria mandar voltar e reescrever porque não fazia o menor sentido, mas a real é que não consegui achar nada que caracterizasse um erro de roteiro como a pergunta sugeria.

Não que eu não tenha lá minhas contradições. Tenho muitas, um montão.

Por trás da pessoa séria que constrói argumentos bem fundamentados, tem uma menina que ri dos memes mais idiotas. Por trás da pessoa que sabe todos os normativos da profissão de cor, tem uma menina que também possui um conhecimento interminável de futilidades e ama discutir as tretas dos famosos (o nível de comprometimento pra pesquisar e arquivar essas coisas na memória é o mesmo). Apesar da aparência quietinha e da rotina provinciana talvez, a pessoa que vos fala é capaz de comprar ingresso pra ver seu artista favorito em outro estado (quiçá outro país) e se transforma loucamente quando as luzes se apagam e o show começa. E apesar da paciência praticamente nula para rituais de beleza, gosto mesmo é de uma romcom bem gostosinha pra esquentar o coração e de um pop bem chiclete (geralmente as pessoas se surpreendem quando descobrem que não sou roqueira). Na época da escola, apesar das notas altas, mal podia esperar para a aula de Ed. Física e jogava handebol do time do colégio. Embora seja um pouco tímida, não tenho medo de fazer piada em público e rir de mim mesma. Embora seja um pouco mais fechada, amo abraçar as pessoas e estar em comunidade.

Mas acho que nada disso seria suficiente para caracterizar um erro de roteiro, ou um problema na construção do personagem. Na verdade, os bons personagens são justamente esses que não são 100% estereótipo o tempo todo. Ou, na verdade, tem muita coisa aí na lista que a própria contradição já virou um estereótipo em si. Quando paro pra pensar, acho até que eu daria uma excelente mocinha de romcom. Acho que ia gostar muito do meu personagem se estivesse lendo/assistindo.

Pra você que acompanha esse blog há um tempo, ou me segue nas redes sociais, nada disso que contei agora soará como surpresa. Talvez o que os surpreenda é que no trabalho eu me fantasio (ou me fantasiava, antes da pandemia) de executiva pra parecer mais séria, sou capaz de falar grosso com gente preguiçosa, e não tenho medo de brigar com quem está abaixo da performance esperada.

E isso também faz parte do personagem. Ou pelo menos faz parte dessa outra faceta do personagem. Na vida, a gente interpreta diversos papéis, diversas versões de nós mesmos, dependendo da situação. E nada disso se caracterizaria como erro de roteiro. Essas aparentes contradições é o que nos torna criaturas extremamente complexas, na verdade. Errado estaria se fosse ao contrário. Porque os roteiros com personagens sem nuances geralmente são roteiros que são ruins pra caramba.

Continue lendo...

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

O anacronismo de Emily in Paris

No início de outubro a Netflix soltou em seu catálogo mais um título de qualidade duvidosa do qual não conseguimos parar de comentar. De cada 10 tweets sobre Emily in Paris, 10 comentam como a série é ruim, mas de alguma forma adorável a ponto de causar anseio pela 2ª temporada.

As críticas vão desde a polêmica dos franceses, que ficaram extremamente ofendidos com a maneira como foram retratados na série (em minha opinião, uma reação exagerada, mas compreensível. A gente também não gosta de ver os estereótipos e as peculiaridades do brasileiro jogadas na nossa cara quando abordadas por um olhar estrangeiro.), até o estilo de vida completamente irreal dos personagens.

Criada pelo mesmo produtor de Sex in the City e com a mesma figurinista que além da icônica série da HBO, também montou o guarda-roupas de O Diabo Veste Prada e Delírios de Consumo de Becky Bloom, Emily in Paris é puro escapismo clichê. O figurino, aliás, é um deleite à parte, comunicando através de cortes e cores exatamente a personalidade de cada personagem. Não importa se os parisienses se vestem assim de verdade, como muita gente se questionou, mas que as roupas mostrem como Emily é exagerada e desajustada naquele ambiente. E isso Patricia Field faz com maestria.

Poor Emily 

Mas, a série é boa? A resposta é...não.

A título de comparação, esse ano a HBO Max lançou uma minissérie com a Anna Kendrick, com foco na vida amorosa e profissional de uma jovem de vinte e poucos anos em NY, infinitamente melhor. Mais bem filmada, atuada, atual. Love Life, #ficaadica. Também não é uma obra prima não, mas, pelo menos mais ambiciosa do que essa daqui.

Os personagens de Emily in Paris todos têm a profundidade de um pires, e em tempos de convulsão social Emily in Paris ignora totalmente a atmosfera tóxica em que vivemos. A protagonista, por si só, é bobinha demais e parece viver num mundo paralelo em que tudo se resolve com um sorriso e um papo honesto. (Ainda estou bem confusa como uma menina tão novinha e tão ingênua tem um cargo de gerente sênior em qualquer lugar) Todos, eu disse TODOS, os caras gatos de Paris se interessam por ela. Seu instagram dá uma bombada da noite pro dia por causa de umas fotos que nem são tão legais. Seu estilo de vida e roupas que veste claramente não combinam com o seu poder financeiro. Problemas psicológicos ou traumas do passado? Também não. Nem sua chefe em Paris, que a gente ficou esperando sair do clichê da megera que a odeia acrescentou algo a mais do que isso.

O elenco também não é lá essas coisas. Tirando a amiga chinesa (que eu sei que é maravilhosa pois Mean Girls na Broadway), os atores não têm aqueeeela extensão dramática que faça você admirá-los. E os diálogos também não são muito inspirados, apesar de arrancar algumas risadas por episódio.

Falta substância que justifique uma série como Emily in Paris em pleno 2020. Quer dizer, onde estão as discussões sobre feminismo e diversidade? Onde estão as bandeiras das minorias? Uma série que fala tanto sobre moda vai mesmo nos apresentar só personagens magérrimas todo episódio assim sem falar nada? Não fosse pelas redes sociais, Emily in Paris poderia se passar facilmente nos anos 80 ou 90. Existe um certo anacronismo que às vezes incomoda. Quer dizer, se as pessoas enchem tanto o saco com Friends, um produto até bem progressista para o seu tempo, por que Emily in Paris faz tanto sucesso?

Mas ao mesmo tempo, é EXATAMENTE por todas essas coisas que não dá pra não gostar de Emily in Paris. Quer dizer, sim, a Emily é um pouco bobinha demais e vive num mundo particular e não tem problemas de verdade. Mas será mesmo que a gente precisa de mais problemas?

Falem a verdade, eu sei que vocês curtem Girls e Crazy Ex-Girlfriend, e que elas são super a frente do seu tempo e tal, mas quando vocês estão assistindo essas séries, vocês também não ficam cansados de tanta militância e ausência de pessoas (muito) bonitas?

A gente precisa normalizar novamente o galã samambaia na TV

E por mais que Lily Collins seja canastrona e caretuda, há algo de admirável em sua Emily. A personagem não é a protagonista-feminina-forte que estamos acostumadas, mas é extremamente resiliente e não se deixa abalar mesmo quando tudo dá errado. A garota toma esporro toda semana, e nem quando perde o emprego ela desmorona. Existe algo de Polyana em Emily, de olhar as coisas pelo lado bom. Ela está em Paris, vivendo o sonho de toda garota, curtindo a vida, pegando vários caras gatos, pelamordeDeus! Realmente não dá pra reclamar muito não!

Às vezes tudo o que a gente precisa é de uma seriezinha de 30 min pra desligar o cérebro, e babar nos figurinos e ficar se questionando como aquelas situações são irreais, e admirar uns carinhas gatos, e sonhar com o dia em que finalmente poderemos ir a Paris de novo (vou te falar que de todas as cidades do exterior que já visitei, Paris é uma das que tenho menos vontade de ir de novo, mas assistindo a série, já estou aqui me questionando se não deveria dar mais uma chance à cidade luz, porque não é possível que eu não tenha conseguido enxergar essa cidade idealizada que a série faz propaganda).

Andy também mandou lembranças nesse vestido aqui

E é por isso que em pleno 2020 a gente não se cansa de assistir Friends, e as pessoas param tudo o que estão fazendo para assistir de novo as novelas do Maneco e de vez em quando eu me pego com vontade de mergulhar dentro dos livros que gosto e gostava quando adolescente. Porque no meio dessa turbulência que está sendo 2020, a gente precisa de um conforto e quer fugir para esses lugares em que as coisas dão certo. A gente está precisando sonhar.

E Emily in Paris pode não ser a série que a gente merece, mas, dadas as circunstâncias, certamente é a série que a gente precisa.

Continue lendo...

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Teto para Dois e o bingo das romcoms

As pessoas costumam dizer que comédia romântica é um gênero previsível, porque basta seguir uma fórmula, e, voila, temos uma romcom de sucesso. Mas a verdade é que não é bem assim. Às vezes falta aquela...faísca que faz você verdadeiramente se apaixonar por aqueles personagens. E é difícil dizer às vezes o que separa as comédias românticas que fazem você realmente suspirar daquelas que são apenas agradáveis para um sábado chuvoso. Isso porque romcom é um negócio extremamente subjetivo.

Dito isso tudo, é preciso pontuar que, se fosse um Bingo, Teto para Dois marcaria todos os quadrados da cartela e ainda ganharia pontos extras trazer assuntos relevantes do seu tempo. Estão lá a mocinha comunicativa cheia de peculiaridades, o mocinho introvertido, a melhor amiga maluca, o casal de amigos sensatos, o melhor amigo divertido do mocinho, "figurantes" excêntricos que ganham nosso carinho no final e um grande gesto de declaração que parece tirado diretamente de Uma Linda Mulher*... Mas o mais importante é que tanto Tiffy quanto Leon têm tramas paralelas e algum conflito interno para resolver, e cujo o relacionamento dos dois vai ajudá-los a, ao longo do caminho, se tornar pessoas melhores.
** achei essa cena um pouco demais para o mocinho inclusive, mas, entendi o seu propósito.

Apesar disso, Teto para Dois subverte o meetcute (a cena só acontece beeeem pra frente e só ali temos uma descrição física dos protagonistas, o que achei bem esperto da escritora), e a cena clássica do "Só tem uma cama" (parece que todo o romance foi escrito a partir da ideia de subverter este clichê, aliás) e traz elementos que justificam uma das resenhas da contracapa do livro, que o classificou como “uma comédia romântica do século XXI". Um dos assuntos principais é a superação de um relacionamento abusivo (uma clara consequência do recente movimento do Me Too) e bem lá no fundo é possível inferir uma discussão sobre diversidade e racismo na trama do irmão preso, embora a autora nunca deixe isso explícito. Também interessante notar as escolhas feitas sobre o protagonista, que realmente parece refletir uma tendência para os romances modernos. Leon é um mocinho sensível e não idealizado. Bonito de um jeito casual, sem grandes posses, mas que também chora e sabe respeitar o espaço da protagonista.

Bingo, certo? Errado. Por alguma razão, Teto pra Dois não ganhou meu coração, e eu realmente não sei exatamente por quê.

Em determinado momento, lá pela metade do livro, senti que não havia conflitos suficientes, e as tramas paralelas soavam mais interessantes do que a do casal principal. Muitas vezes me perguntei qual a dificuldade dessas pessoas em utilizar o celular. Lá pela página 300, quando acontece a reviravolta que vai separar o casal principal (outro ponto clássico das romcoms), a impressão que fica é que a resolução era menos uma questão de "quando" eles vão se acertar, do que de "se", afinal, os dois moram juntos, têm amigos em comum, e a verdade certamente apareceria em algumas horas (nessas horas faz falta uma "cena do avião" pra dar uma emoção). Mas nenhum desses incômodos me irritou de maneira profunda, ou representam exatamente um defeito na história. Só que... sabe a faísca? Não rolou.

Talvez eu estivesse com expectativas demais. Talvez eu já tenha lido/visto comédias românticas demais. Talvez a escrita não tenha me conquistado por alguma razão... O que não quer dizer que não seja um livro agradável para um sábado chuvoso, ou que não vá funcionar com outra pessoa. Afinal, comédia romântica é um negócio extremamente subjetivo.

Ao me despedir do livro, terminamos nossa relação no melhor dos clichês do “Não é você, sou eu”, e apesar de tudo, desejo tudo de bom pra ele e pra autora e pra todo mundo envolvido. Espero que ganhe um filme, inclusive. Com os atores certos e um diretor bacana, pode elevar o material de uma comédia romântica B para alguma coisa bastante interessante. Durante a leitura, aliás, fiquei com a impressão de que essa história do casal que ocupa a mesma casa sem se ver, na verdade, de alguma forma, já filmada. Chama “A Casa do Lago” 😉 
Continue lendo...

domingo, 16 de fevereiro de 2020

NY, I love you

Desde criança sempre tive o sonho de conhecer Nova York. É a cidade que nunca dorme, onde tudo o que há de interessante acontece. Os outdoors iluminados da Times Square, os teatros da Broadway, os prédios com a escada de incêndio do lado de fora. Meus livros e séries e filmes preferidos possuem Nova York como pano de fundo. E não à toa, pois nessas obras, geralmente Nova York é quase um personagem.

Tive a chance de realizar esse sonho em 2016, quando visitei a cidade no verão. O calor estava de matar. 40 graus. Mesmo. O bom de visitar cidade grande é que você pode se refrescar no ar condicionado das lojas. Foi uma viagem incrível. Fiquei com vontade de voltar. Ainda queria ver a cidade enfeitada de Natal. Porque Nova York é especial de qualquer jeito, mas ainda mais icônica no Natal. E fiz isso ano passado.

Não estava nem a fim de viajar no fim do ano, mas trabalhei muito e decidi que merecia esse presente para mim mesma. E eu adoro viajar, mas odeio planejar viagem, então, Nova York, que eu já conhecia, só que em preparação para as festas era a pedida perfeita.

E foi incrível novamente. A cidade realmente respira Natal e eu me senti o Macaulay Culkin em Esqueceram de Mim 2. Os rinques de patinação, o pessoal do Salvation Army, as lojas com suas vitrines decoradas, o desfile da Macys... Dessa vez estava bem frio. O bom de visitar cidade grande é que você pode se esquentar no aquecedor das lojas. Fiquei novamente com vontade de voltar.

Quando falei que ia a Nova York de novo, no ano passado, meu pai estranhou a repetição do destino. “Mas por que vocês gostam tanto de Nova York? O que vocês veem tanto nesse lugar?”, ele perguntava. Na cabeça dele, a cidade tem pouco a oferecer em termos de história e cultura, comparada com outros lugares da Europa, ou da América Latina, por exemplo.

Mas a resposta para essa pergunta tem muito mais a ver com o modo com a cidade de organiza do que com os pontos turísticos em si.

Pra começar as ruas são todas numeradas, e é quase impossível se perder. Acho muito prático.

Mas acho que o motivo principal para Nova York despertar um pulinho no meu coração toda vez que vejo uma foto é justamente o fato de que quando estou em Nova York, por incrível que pareça, eu me sinto em casa.

Acho que a grande virtude da cidade é que, como toda metrópole, ela consegue ser várias cidades em uma só. Em determinado ponto, é a cidade das luzes ofuscantes com todo mundo tirando fotos e carregando sacolas. Em outro logo atrás, tem um parque em que as pessoas relaxam e jogam pingue-pongue no meio da selva de pedra. E no meio de tudo um baita trabalho de urbanismo que oferece quadras de tênis e campos de quadribol. É uma cidade onde as pessoas vivem. E eu adoro ver as pessoas viverem. Na verdade, eu adoro VIVER como aquelas pessoas quando estou lá.

A multietnicidade é o que torna a cidade tão especial. Em Nova York, é impossível apontar que é turista e quem não é. E aí não tem aquela cultura arraigada de tentar enganar o turista, como em Roma. E quando você anda pelas ruas, você é só mais um na multidão querendo chegar em algum lugar. É uma cidade que não só está acostumada com estrangeiros, mas foi construída por estrangeiros. Realmente é o ápice da cultura globalizada.

Come-se muito bem em Nova York. De todos os lugares que já visitei, Nova York é onde saio mais satisfeita no quesito gastronomia. E de novo, o caldeirão de culturas é a chave do sucesso. Em Nova York, como o melhor da comida italiana (melhor que na Itália) e da francesa. Tem barraquinhas com representantes da comida árabe e só procurar no Google para encontrar restaurantes gregos, turcos ou japoneses. Em Nova York, eu como salada e fast-food mexicano. E se quiser muito ainda descolo uma churrascaria brasileira. Os mercados são cheios de opções saudáveis e dá pra ver que o nova-iorquino que diz que só come besteira, o faz porque quer.

Não é uma cidade perfeita. Muito pelo contrário. A maior cidade do planeta convive com muitos problemas enfrentados aqui no Brasil. O metrô tem ratos, às vezes vem ser ar e obriga os passageiros a descerem por causa da avaria. E a desigualdade dentro da própria cidade se manifesta se você começar a percorrê-la de norte a sul. Você vê claramente os bairros ricos, os bairros pobres, a classe média pegando o lotadão para atravessar a ponte. Mas funciona. Na minha opinião, acho que até bem demais, se você considerar o tamanho da cidade. E talvez esse seja mais um motivo para que eu me sinta tão bem lá. Quer dizer, caramba, é a cidade mais incrível do planeta e sofre com muitas das mazelas que rolam aqui na esquina na minha casa, sabe? Em Nova York, não rola complexo de vira-lata, embora às vezes dê vontade de fazer um estudo de caso. Cidade grande, grandes problemas, grandes soluções.

Fico em dúvida quando alguém me pergunta se teria vontade de morar lá. Por um lado, tem todas as coisas legais dos filmes e séries e livros, e os teatros e inúmeros eventos acontecendo na cidade (eu adoro morar onde as coisas acontecem). Por outro tem todos os problemas daqui potencializados por uma população ainda maior. Não sei depois de um tempo ainda ia achar tão legal assim. Mas que dá vontade de voltar todo ano pra passar uns dias, desligar a cabeça e curtir NY como um nova-iorquino, ah isso dá!
Continue lendo...

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Nossa História

Como disse em outro post anterior, Sandy e Junior acertaram em cheio ao perceberem que esse projeto de revival, não se trata apenas de alguns shows com músicas antigas, mas que grande parte do sucesso deste evento está em valorizar o significado que eles têm como parte integrante da história das pessoas. Mais do que isso, eles dão um tiro ainda mais certeiro quando dizem querer construir novas lembranças junto com o público.

O que muita gente não sacou é que a maior parte das lembranças não são construídas ali, nas 2h de música ao vivo (ali é um turbilhão de emoções muito doido que depois você não consegue nem explicar), mas principalmente em tudo aquilo que antecede o grande dia.

E como teve história essa Nossa História!

Quando o Extra anunciou a turnê em janeiro (aliás parabéns ao Extra que vem fazendo uma cobertura impecável sobre a turnê, com uma matéria por dia, pelo menos. Merecia o Pulitzer! Minha preferida é essa aqui), Sandy estava na Disney. Demorou uma semana pra eles finalmente se pronunciarem sobre o assunto, com o já icônico: “Vamos conversar em março?”. (Fico imaginando Sandy muito plena de férias recebendo várias ligações da produção com os cabelos em pé com a notícia que tinha vazado – fica aqui o meu “parabéns” pra todo mundo que conseguiu esconder a separação até o dia oficial mesmo lá em 2007 – respondendo apenas com uma mensagem: “Volto na segunda. Depois a gente resolve”.)

Desde então, 2019 tem sido uma loucura! E por isso mesmo, tão legal! Como comentei em um post anterior, Sandy e Junior salvaram um ano que seria só derrota nas redes sociais.

Fiz contagem regressiva para a coletiva, e me arrepiei toda no vídeo de abertura da coletiva (tanto que estava numa sala de reunião, e tive que sair pro banheiro porque vi que ir dar ruim). Não dava pra acreditar que aquilo tudo estava acontecendo. Fiz enquete no trabalho para descobrir quem tinha cartão Elo. Vivi a adrenalina pra comprar o ingresso e a decepção da pré-venda. No outro dia, comprei o que tinha pra BH, porque mesmo com os boatos de show extra, eu não era nem besta de arriscar perder esse trem! Na abertura do show extra, consegui não sei como um ingresso Pista Premium. Faltava um ainda pra minha irmã ir comigo, e começou a caça no Facebook. A garimpagem era diária, e foi preciso uma dose de contorcionismo para desviar dos golpistas, e uma ainda maior de sorte pra encontrar uma menina aparentemente honesta vendendo num comentário de outro post de venda que nem era dela. Pra pegar o ingresso, pedi ajuda de um cdt para fazer serviço de guarda-costas para evitar um possível sequestro. Que emoção tocar naquele tão sonhado ingresso! Agora era só aguardar o dia do show.

Teve gente noticiando Maracanã pro encerramento da turnê, e fiquei chateada que SP ficou com a data de 12/10 (a data do show de 2002). Na véspera do show, anunciaram encerramento no Parque Olímpico. Se eles não conseguiram data pro Maracanã, agora eles iam fazer o próprio Rock in Rio. Esses dois quando tão a fim não tem pra ninguém! Que delícia vê-los com vontade assim de novo! Que maravilhoso poder estender esse sentimento de empolgação até novembro! Definitivamente 2019 é deles!

Passei os dias que antecederam o show muito bem, obrigada. Mandei fazer minhas camisetas, e prometi usar a faixinha pro pessoal do trabalho, apesar de sempre achar um mico danado quando era menor. Decidi assumir mesmo meu lado fã hardcore, deixar a vergonha de lado, e viver a experiência por completo (só não fui ao hotel porque a vida é feita de escolhas, e eu escolhi ir ao show).

Acompanhei as imagens de preparação do show, e o sentimento de que a dupla realmente estava planejando algo histórico só aumentava. Assisti a pedaços da estreia de Recife por alguma live de alguém e me emocionei de casa mesmo. O setlist estava perfeito! Não faltava nada (só Power Rangers, no fundo alimentava a fantasia de um MegaZord gigantesco no meio do palco, mas tudo bem, hehe). Os telões, o balé, a empolgação dos dois, os figurinos que faziam referência a roupas que eles vestiram em turnês anteriores (por isso que eu gosto de Sandy e Junior, gente, porque eles não fazem as coisas pela metade)... Mal podia esperar pela minha vez.

Mas no dia do show mesmo eu não tava legal não. Acordei muiiiiiito ansiosa, e nem consegui comer direito. O refluxo atacou com vontade. No caminho para a arena era possível identificar os fãs definitivamente uniformizados com suas camisetas personalizadas (uma das minhas preferidas era a “Não vou pular hoje, porque com 30 anos NÃO DÁ!!!!”­). Comprei minha faixinha na entrada e tirei as fotos, avisando aos amigos que tinha chegado. Na empolgação da entrada, quase perco o ingresso do show (sim, aquele mesmo que eu tinha garimpado no Facebook!). Minha irmã jura que tinha me dado pra poder tirar as fotos, eu não lembro mesmo disso! A sorte é que os fãs de Sandy e Junior são muito maravilhosos, e logo uma menina apareceu perguntando se o ingresso que ela tinha achado era nosso. Minha irmã me dá um tapa e uma bronca pra eu prestar atenção nas coisas, e um cara da produção ameaça falar no megafone: “Não à violência”. Ufa! Vamos entrar.

Mas não antes de encarar a fila. E você sabe que eu curto demais esse momento da fila. É onde os fãs se conectam, a gente troca experiências, todo mundo conta um pouquinho da sua história, e a gente descobre que tem mais coisa em comum do que parece. Fora pequenos barracos de gente querendo passar a frente para encontrar com amigos que chegaram antes (teve um que encarou a gente falando que o ingresso estava no celular dele e que as pessoas não tinham O DIREITO de impedirem a amiga dele de passar. Ora, bolas! Se o ingresso estava no seu celular, envia pra era por email! Que esperteza!!!), a energia era muito boa. Um menino distribui bolas brancas e orienta as pessoas para a homenagem em Super Herói, ele também combina de cantarmos “A estrela que mais brilhar” no momento acústico. (Deu pra ver que grande parte das pessoas já até sabia desses preparativos. Eu AMO os fãs!!!!) O pessoal da produção passa para gravar as pessoas da fila e entoamos em uníssono “Não dá pra não pensar”, com todos os “ooooh” e “yeehs” que temos direito. É uma cena bonita demais de ver. Logo começa a ventar, e alguém puxa “Cai a Chuva”. Ali fica claro que nada vai atrapalhar aquele momento, e a galera está determinada a curtir cada segundo.

Um cara passa vendendo o copo oficial da turnê, e várias pessoas compram (inclusive eu) pra guardar de recordação. Um outro passa vendendo batata frita, e um menino atrás pergunta se é a batata oficial da turnê também, porque se for ele vai comprar. Rimos.

Quando abrem-se os portões, e as pessoas passam pela revista, elas saem correndo em direção à Arena para garantir o melhor lugar possível. Por dentro acho ridículo e sem necessidade, mas corro também, pois o importante é a experiência. Um parêntese: no hall de entrada da Arena, fotos de shows importantes que aconteceram ali. Dentre elas, o show do Maroon 5 em 2008 e... epa, eu tava aqui nesse dia!!!! “Vamos fazer história de novo hoje”, eu penso comigo mesma.

Ao chegar na Arena, colocamos nossa pulseirinha de “Pista Premium” e somos bombardeados de brindes dos patrocinadores para usar durante as músicas. Quando coloco os pés na pista e olho em volta, cai a ficha. EU CONSEGUIIIIII!!! EU VOU VER SANDY E JUNIOR DE NOVO AQUI NO RIO!!! E DE MUITO PERTO!!!!!!!  Eu estava MUITO perto!!!! Abro os braços, ainda sem acreditar. Finalmente sento pra descansar. Depois de 2h de viagem, 1h na fila e um sprint pra chegar na Arena, estou cansada e ofegante. Realmente não tinha a menor necessidade de correr, nem de brigar na fila. Qualquer lugar ali na Pista Premium ia ser muito bom. (Escuto uma menina atrás de mim, falando exatamente a mesma coisa. Fã é tudo igual!). Fico feliz de não ter dado aquela grana preta no Open Bar de Água. Ali, finalmente consigo comer alguma coisa e me recomponho.

Quando vou ao banheiro, encontro uma ex-cdt que sabia que vinha ao show. Ela comenta que estava bem na frente da fila, que arrumou barraco com gente que queria passar na frente, e que pagou o maior mico correndo para arena quando abriu (ela está visivelmente suada da corrida, assim como eu). Digo que corri também, pela experiência de correr, e concordamos que não havia a menor necessidade, mas acrescento que não tenho vergonha nenhuma dessas coisas. Vergonha é não ser feliz, e hoje era o dia de extravasar tudo o que a gente tinha direito. A amiga dela diz que chegou a comprar um ingresso falso com os infames dizeres: “Livre Nation”, mas que depois arrumou um outro. Gostei de fã assim: determinado!

Volto pro meu lugar, e ouço uma gritaria atrás, e todo mundo olha para ver o que estava rolando. Era Fernanda Gentil, causando e gravando stories dos fãs cantando. Amo Fernanda Gentil, acho que ela representa demais o amor verdadeiro do fã de Sandy e Junior, mas não levanto do meu lugarzinho cativo de jeito NENHUM!!!!

Depois que começam as propagandas nos telões, os fãs se levantam e a gente começa a interagir mais. A emoção domina e a gente conversa coisas sobre a turnê, os ingressos, o aplicativo (mas são muito chiques esses irmãos), a falta de sinal do celular e como algumas músicas marcaram a nossa vida. De repente começa um vídeo dois bem pequeninhos dançando numa filmagem caseira, antes de tudo isso acontecer, e um cronômetro surge no telão marcando 30 minutos pro início do show. A galera fica ainda mais inquieta e o DJ coloca pra tocar I Want it That Way dos BSB pra delírio do restante da arena. O resto da playlist segue a linha sucessos teen do início dos anos 2000, mas o que a gente queria mesmo era fazer um esquenta pro show. Cantamos nossas preferidas, como Não Dá pra Não Pensar, Quando você Passa e Cai a Chuva, com direito ao saxofone no meio. Rimos aos montes.

É esse tipo de conexão que as pessoas têm dificuldade de entender dentro dos fandoms. Não é sobre os artistas. É sobre encontrar pessoas que são tão apaixonadas quanto você e são capazes de olhar com empatia, ao invés de desprezo, quando você comenta aqueles detalhes que só os fãs muito nerds sabem, ou aquelas loucuras que só os fãs muito loucos fazem. Essa semana fui chamada de nerd por saber as normas da profissão de cor. Encarei como um elogio, mas mal sabem essas pessoas que a minha nerdice em determinados assuntos não profissionais é bem maior. E sinceramente, se não for pra ser nerd e me jogar de cabeça nessas coisas, não tem a menor graça. Assim como Sandy e Junior, eu também não faço as coisas pela metade. Se for pra ser fã, vamos ser fãs direito. Senão devolve a carteirinha!

Durante a contagem regressiva, também aparecem palavras-chaves do cancioneiro da dupla com seu respectivo significado do dicionário, tal qual muitas camisetas da moda e que viraram camisetas específicas pro show também como: inesquecível, enroscar, imortal, etc. A cada 10 minutos, um ciclo de filmagem caseira, dicionário e contagem aparecem. (Os fãs com memória melhor disseram que essa brincadeira da contagem vinha da turnê do Identidade. Achei top!).

No último vídeo, uma montagem com os principais momentos da carreira que culmina nos dois pedaços de gente dando “Oi” para a plateia. Nem precisa dizer que a essa altura já tá todo mundo alucinado gritando a toda. O triângulo se parte, abrindo dois portões por onde os dois passam e dão as mãos numa silhueta linda pra qualquer fotografia. Se isso te lembrou do show do Maracanã, era pra lembrar mesmo. Sandy, inclusive, fez questão de usar o mesmo penteado aqui no Rio. Nada é por acaso (que graças a Deus também está no setlist!!!!) nessa turnê.


Sandy entoa o primeiro verso de “Não Dá pra Não Pensar em Você”. A plateia continua a letra ansiosa, mas só depois de alguns segundos Junior continua: “Tá cada vez mais difícil não poder te ver”, seguido de mais uma pausa, como se os dois fizessem questão de transmitir aquela mensagem. Assim como na última turnê, lá em 2007, cada verso aqui tem um significado especial, e eles sabem disso.

A lista continua com uma sequência matadora que tem Nada Vai me Sufocar, No fundo do coração e Estranho Jeito de Amar. O fã que esperou 12 anos por esse momento se descabela nos versos de “Então, volta pra mim, deixa o tempo curar esse Estranho Jeito de Amar”, na esperança de que eles mudem de ideia e voltem pra sempre, porque, veja só, o tempo NÃO CUROU NADA e continuamos aqui sem desistir, e sem superar Esse estranho jeito de amar...

Sem tempo de respirar continuamos com Olha o que o amor me faz e Nada é por acaso com Miltinho Neves no saxofone (que saudade do Miltinho!) e Sandy mandando aquele agudo no final. Amo muito Nada é Por Acaso, e acho que os versos de “Mas o sentimento quando é pra valer, cedo ou tarde faz o que era sonho acontecer”, nunca fizeram tanto sentido. O telão nessas primeiras músicas é uma coisa de louco e enche o palco com imagens dos dois bem coloridas feitas especialmente para essa turnê. Coisa que só se vê em show gringo. Aí está justificado o preço o ingresso.

A plateia continua muito louca em Love Never Fails, pulando descontroladamente, enquanto os dois dão um show naquela coreografia MA-RA-VI-LHO-SA! É um desperdício Juninho não dançar mais. É uma pena a pista premium ser tão apertadinha que não dê pra gente tentar acompanhar.

Em As quatro estações, o palco é tomado por projeções dos versos na letra de Sandy, tal qual no clipe, e a plateia levanta suas mandalas da Elo. A iluminação também ajuda a marcar as estações do ano.

Na primeira música solo de Junior, Aprender a Amar, a plateia manda aquela clássica: “Junior, eu te amo”, e ele fica todo envergonhado e diz que a gente “quebrou as pernas dele”. Ele fica tentando ajustar a jaqueta que trocou em algum momento antes dessa música, eu não me aguento e grito pra ele tirar logo essa jaqueta, Senhor! Totalmente desnecessária, meu Deus!

Em seguida, Sandy deixa todo mundo de queixo caído ao entoar AQUELA nota final de Imortal. Deu vontade de puxar aquele coro “PQP, é a melhor cantora do Brasil”.

Em seguida, os dizeres de Libertar enchem o telão. A gente tenta sincronizar o app, mas o sinal de internet estava muito ruim e não dá pra entender o que eles queriam ali naquela música. Sandy fica mais pra trás, só no backvocal e chega mais pra frente só no final pra cantar a sua parte. Sandy roda no seu próprio eixo, sem medo de ser feliz, simplesmente sentindo a liberdade pedida pela música. Amo vê-la assim, se jogando com tudo!

Eles saem pra trocar o figurino e os telões são preenchidos por uma sequência que mostra o grupo de Whatsapp da “Galerinha + ou –“, com uma troca de mensagens divertida do pessoal do seriado. No meio da animação, eles compartilham fotos antigas da galera junta na época, e a gente lembra exatamente os episódios em que foram tiradas. Começam a tocar os primeiros acordes de Eu Acho que Pirei, e a galera pira junto com imagens dos atores ao fundo. Que delícia ver a amizade desse pessoal celebrada na turnê! Na sequência um medley com direito a todas as coreografias clássicas de "Beijo é bom / Etc... e tal / Vai ter que rebolar / Dig-dig-joy / Eu quero mais". Apesar de serem poucos versos de cada, a gente se diverte a vera.

As luzes se apagam e Junior volta todo galã, sem a jaqueta, e sem o colete de antes (colete aliás que remete a essa outra turnê aqui), olhando diretamente para a câmera nos primeiros versos de Enrosca. É um belo número, tal qual todos nós nos lembrávamos, com menções à turnê de 2002 e ao clipe que dominou as paradas no ClipeMania. Não satisfeito em dar um show de dança, ele ainda emenda um solo de bateria animal bem na frente do palco. Nunca fui muito a favor dos solos de batera do Junior, por achar que eram por demais introspectivos e tiravam a energia do show, mas dessa vez... Uau! Como os projetos solo desse hiato fizeram bem a ele! O solo reverbera e conversa com a plateia. Confirmando sua veia de showman, Junior ainda faz a introdução para A gente Dá Certo, outro ponto alto do show, com muita coreografia e eu pulo demais nessa daí. Juninho fez até o dental floss dancing aqui. AMO!!!! Ao final, claro que estou mortinha da Silva. Poucas pessoas dão valor, mas acho A gente Dá Certo uma música que... dá muito certo em show! Fiquei feliz quando soube que estava no setlist.

Eles, que não são bobos nem nada, a essa altura também já estão mortos, e emendam uma parte acústica sentadinhos na frente do palco. A plateia fica com muita inveja disso, pois estamos todos em pé há muito mais tempo. As pernas já estão sentindo.

Essa parte do show tem sido uma válvula de escape para antigos sucessos que há muito tempo eles não cantavam, e onde eles têm encaixado os pedidos especiais que têm surgido durante a turnê. Realmente não dá pra reclamar de setlist. Eles tão cantando tudo, nem que seja um pedacinho. Dentre as inesperadas, eles já tocaram “Ilusão”, “Vamos Construir” e “Dias e Noites” em outras cidades. E aqui fica muito explícito que o discurso deles de que essa turnê é um presente para os fãs é de verdade. Eles realmente querem agradar, e estão fazendo todas as nossas vontades. Eles chegam a comentar isso, e eu mando sem vergonha nenhuma: “VOLTA A DUPLA ENTÃO!!!!”. Não custa nada pedir, né? Aqui no Rio, ficamos com Inveja, Ilusão, Era uma Vez, Não ter e Replay (sinceramente não sei o que os fãs veem tanto em Replay, por mim essa ficava esquecida no churrasco, não me traz boas lembranças). Assim, como combinado, o público puxa A Estrela que Mais Brilhar, e a Sandy faz essa cara:




Com certeza tá stalkeando os fãs pra atender os pedidos, e deve ter sugerido pro Junior colocar no setlist do Rio e ele não escutou. Ela até acompanha um pouco, mas o Junior fica inseguro de continuar, pois não tinha ensaiado. Ele pede desculpas, pois não se lembra mais como toca e Sandy confirma que essa daí eles NUNCA tocaram em nenhuma turnê. Mas prometem que talvez no show do dia seguinte eles toquem. (E eles tocaram MESMO!!!!!).

A galera que acompanhou os outros setlists já está sentido falta de Inesquecível, e Sandy diz alguma coisa pra introduzir o momento mais emocionante do show. Eu tava de boa, mas aquela introdução, com as imagens de vários momentos da carreira, dispararam um gatilho dentro de mim, porque comecei a lembrar de um monte de coisa que aconteceu e confesso que deu uma balançada. Eles cantam essa música todinha com essa montagem ao fundo, e a canção ganha ares de um pedido quase desesperado dos fãs em “Não, não me deixe mais”. Vi muita gente em prantos nessa daqui. Foi de arrepiar. Mesmo. (A galera errou até a letra. Taí a explicação de por que colocaram partes do Pacaembu no DVD do Maracanã, hehe).

Entramos então na sequência final com Super-Herói (com aquela demonstração de carinho dos irmãos ao final e a homenagem das bolinhas - eu não aguento ficar com a minha até o final, e jogo pro alto no meio da música, eu preciso cantar essa música com todos os músculos do meu ser!), A Lenda (que coral, como gritei!) e Cai a Chuva (danço muito em Cai a Chuva, essa é outra que tem uma energia fenomenal!). Esta última com tudo o que tem direito: Miltinho no saxofone, balé, pirotecnia no palco e uma chuva de papel picado linda de morrer. Dá gosto de ver quando o show foi pensado pra você, né?

Eles saem do palco, e a plateia entoa um coro lindíssimo de Quando você passa. É lindo, lindo, lindo demais.

Começa um vídeo com um depoimento dos dois, contando por que eles resolveram fazer a turnê, como eles são gratos pelos fãs fiéis que eles têm, que nunca se desligaram de Sandy e Junior. Os dois muito emocionados levam o restante dos fãs às lágrimas.

Na volta pro Bis, eles voltam com Turu Turu, todos trabalhados na emoção, com imagens da dupla que compartilham o telão com a letra da música, e é possível ver todo mundo cantando com os olhinhos fechados e a mão no coração. É a declaração de amor final de uma dupla que sabe o tamanho da paixão de seus fãs. Emendam Desperdiçou, se divertindo à vera, e terminam com Vamo Pulá. E como eu pulei, meus amigos. Pulei muito alto! Pulei como se ainda tivesse 10 anos. Pulei sem nem querer saber como ia ser a aterrissagem. Uma nova chuva de confetes e papel picado é lançada para a plateia. Os dois se abraçam e Junior vira de costas, destacando o símbolo dos triângulos brilhantes. Irmãos, acima de tudo. A plateia grita: “In-se-pa-rá-veis!!!! In-se-pa-rá-veis!!!! In-se-pa-rá-veis!!!!” Os dois vão em direção ao lugar onde começaram o show, dão as mãos e se abraçam deixando só silhueta para mais uma foto perfeita, remetendo agora aos últimos shows da turnê de 2007.

Foi lindo. Foi massa. E eu fui.

Olho em volta ainda sem entender o que acabou de acontecer. Fico tentando processar o poder que esses dois têm de entregar um show desse porte, com essa energia, com tamanha entrega. Que falta eles fazem na música pop! Que delícia poder viver isso de novo!

Na saída do show, o público se recusa a parar de cantar, e continuamos entoando Quando Você Passa em uníssono. Quando essa termina, emendamos com A Lenda e Desperdiçou. E quando finalmente alcançamos o pátio externo, percebemos que está chovendo. E qual o problema disso? Os ambulantes vendem capas de chuva, mas ninguém nem faz questão. Nada melhor do que Cai a Chuva, na chuva de verdade, pra encerrar esse dia histórico. Estamos de alma lavada. Literalmente. Que venha o Parque Olímpico (e o resfriado agora!).


Continue lendo...