terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A História sem Fim

Era uma vez uma menina que não gostava de livros de fantasia. Mas essa mesma menina era apaixonada por metalinguagem. Certo dia, ela assistiu um filme chamado Coração de Tinta e adorou aquela história de ver os personagens invadindo o mundo real e o escritor abobalhado encontrando suas criaturas.

Mas ela também achou muita inverosimilhança todo aquele estardalhaço atrás de um exemplar de livro lançado em 2003, quando o Brandan Fraser podia muito bem tê-lo encontrado digitalizado na Internet. Além do mais, a história parecia um pouco A História Sem Fim, o qual ela havia visto o filme há muito tempo e só se lembrava vagamente que tinha um dragão da sorte (mais conhecido como um cachorrão voador muito simpático), e que o terceiro filme da franquia tinha o menino de Free Willy com o cabelo arrepiado – ela adorava o garoto de Free Willy, e Free Willy também, obviamente. Mas essa é uma outra história e terá que ser contada em outra ocasião.

Trocando em miúdos, a menina não se lembrava da História Sem Fim, mas lembrava que tinha marcado a sua infância e que uma profª do colégio uma vez havia comentado que esse livro era uma aula de literatura. Naquele dia, a menina encontrou-o no Estante Virtual por apenas 16 pratas, não pensou duas vezes e o comprou.

Muitas vezes tem-se a impressão de que quem manda nas histórias são os autores. Não é. Quem realmente tem o poder sobre elas é o leitor. É ele quem escolhe largar o livro ou levá-lo até o final. É ele quem o imagina do jeito que quiser. E, principalmente, é ele quem o interpreta da maneira que lhe convir e dá o veredicto final se a tal história é boa ou ruim.

Em A História Sem Fim, o leitor (também conhecido como VOCÊ) é representado por um BBB: Bastian Baltasar Bux*. Bastian é um menino gordinho e imaginativo que sofre com o bullying no colégio. Certo dia, Bastian rouba um livro de capa de cobre com duas cobras em forma de círculo, cujo título é A História sem Fim - Pois é, A História sem Fim é livro que VOCÊ está lendo, que contém Bastian, que também o está lendo. Ficou confuso? É isso mesmo. Calma que a gente chega lá. – e como qualquer leitor viciado não consegue largá-lo.
* Atenção para o trocadilho, Bux, Books (livros), sacou?

E assim VOCÊ vai acompanhando as emoções que o livro causou em Bastian (em vermelho) e a história propriamente dita que Bastian está lendo (em verde) até mais ou menos metade do livro.

Em verde: O reino de Fantasia (Calor... Céu azul, verde mar! Vem comigo nesse dia lindo! – Hehe, Brincadeirinha) está sob ameaça. Uma vez que o mundo dos homens passa a não mais praticar a arte de inventar histórias, a cada dia que passa, o reino é tomado pelo Nada. E quem pode salvá-lo é ninguém menos que VOCÊ – o leitor – no caso Bastian – o BBB – que tem de adentrá-lo e impedir que ele o Nada invada toda Fantasia.

E tanto em vermelho quanto em verde, o destaque mesmo é a metalinguagem. É metáfora atrás de metáfora. E cada uma delas desperta um sorriso de canto de boca no leitor esperto. Há as brincadeiras mais simples como a tristeza de Bastian (em vermelho) quando os personagens ficavam tristes (em verde), as discussões que Bastian tinha com o próprio livro, a fome que ele enfrentava porque não conseguia largá-lo... E outras mais ocultas como quando leitor e personagem veem-se através de um espelho. Afinal, quando ocorre a identificação entre os dois não é como se VOCÊ se enxergasse dentro da história?

Apesar de a menina estar gostando do fator metalinguagem do livro, ela não conseguia avançar muito com a leitura (aquelas descrições dos livros de fantasia e a alternância de cores não estavam facilitando). Os dias para ela estavam difíceis e a menina sabia que, se continuasse com o livro, iria descontar seu desgosto nele. Logo chegou um outro livro mais divertido e menos reflexivo e ela largou A História Sem Fim por um tempo.

Acontece que o mundo não iria permitir que a menina desistisse da História Sem Fim assim tão fácil e começou a mandar indiretas para que ela retomasse a leitura. A última frase do livro divertido era justamente uma citação da História Sem Fim. Num outro dia, ela entrou no Twitter, e havia uma recomendação para que se assistisse A História Sem Fim. Ela decidiu obedecer o destino e voltar para o livro.

Como dito anteriormente, até que Bastian entre de vez na História Sem Fim, passam-se quase 200 páginas! E quando Atreiú, o personagem responsável por encontrar o Salvador de Fantasia, volta de mãos abanando encontrar com a Imperatriz Criança e esta diz que ele já o encontrou, e fica com o sentimento de “Mas que palhaçada é essa?”, posso dizer que a sensação foi mútua. A explicação para tal é de que “o leitor precisava de uma história cheia de aventuras para conduzi-lo até ali” e é aceitável. Mas se a Imperatriz Criança dependesse de mim, com essa estratégia aí, o reino de Fantasia teria o mesmo destino do Programa Fantasia do SBT – o limbo.

E mesmo com todas as pistas do que Bastian devia fazer e que era ele mesmo quem devia fazê-lo, o garoto ainda demorou mais um capítulo para tomar vergonha e dar um jeito naquela história. Mas isso aí, eu tenho que dar o braço a torcer, foi legal à beça de se ver. Porque foi justamente nessa parte em que fomos apresentadas ao Velho Sábio que escreve A História Sem Fim (a parte em vermelho e a em verde) e aí o negócio ficou tipo A Origem – a história dentro da história dentro da história... Num looping infinito que faria qualquer programador perder o emprego (ainda bem que era A História Sem Fim, e não Matrix).


E ali onde eu achei que a história ia começar a ficar boa, foi onde ela ficou menos interessante. Narrativamente, ela se tornou mais fácil de acompanhar, embora não tenha sido tão empolgante assim. E metaforicamente, o livro perdeu muito do seu brilho (ou continuou com ele, mas de um jeito diferente e mais sombrio, sem despertar mais o riso de canto de boca do início).

Sim, ainda há a parte em que o leitor, ao entrar na história, pode ser tudo o que quiser e imaginar tudo o que quiser e esquece do mundo real. Mas também fiquei com a impressão de que a metade final da História Sem Fim era mais uma caminhada errante, como muitos livros de fantasia (e eu não gosto dessas coisas de caminhadas errantes).

Aqui ainda pode-se até interpretar esse caminho sem rumo como uma metáfora para mostrar que o leitor não sabe o que fazer quando adquire tanto poder, mas também fica a sensação de que foi muita luta e muita caminhada quando tudo poderia ter sido resolvido umas 100 páginas antes. Faltou clímax e a lição final de que o amor é a chave de tudo, com direito a laguinho mágico passou do limite do piegas (foi mal, depois de Lost eu fiquei traumatizada).

Não é um livro sobre os personagens. É um livro sobre o poder de transformação da leitura, e o destaque, realmente é a metalinguagem. Mas, bom, metalinguagem por metalinguagem, prefiro Mais Estranho que a Ficção. E não é que eu não tenha gostado da leitura. Foi uma experiência interessante. Eu diria até mais, foi uma experiência MUITO interessante. Mas essa é uma outra história e terá de ser contada em outra ocasião...

Epílogo

Uma das coisas que a menina mais gostou na História sem Fim foi que, ironicamente, ela tem fim. Apesar de existirem 3 filmes (mais sobre isso depois), a História sem Fim, de 1979, é um livro só. E se ele fosse mais atual, ela tem CERTEZA de que ia ser uma série, porque ao final do livro não faltaram pontas soltas. E isso NÃO é um defeito. Foi de propósito. Quer dizer, o nome do negócio A História Sem Fim, não é? Ela só está comentando que dava pra virar série MOLE!

Sobre os filmes, não se baseiem nos mesmos, pois apenas o primeiro respeita o livro. E mesmo assim, só uma parte. De resto é tudo invenção hollywoodiana. (Hollywood não é boba e não ia deixar uma história promissora dessas ficar em um filme só. O chato foi descobrir que aquele filme com o menino de Free Willy não tem nada a ver...). Mas a menina acabou de saber que o Leonardo Di Caprio está pensando em fazer um remake nos próximos anos (ele gostou mesmo desse negócio da história dentro da história dentro da história, hein!). Vamos ver no dá.

3 comentários:

  1. Lembro quando eu li A História Sem Fim, eu era muito novinha, tinha uns 13 ou 14 anos e não peguei nada disso de metalinguagem que você falou. Talvez eu precise lê-lo novamente agora, adulta, para entender.

    De qualquer maneira, me diverti com o seu post. A troca de cores era o que mais me encantava no livro (ah, os adolescentes.. adoram um "barato" colorido)e ficou lindo aqui!

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  2. Oie, adorei o seu blog e por causa disso ele esta na lista dos melhores blogs que eu conheço, veja lá no meu blog: www.diariodajuliam.blogspot.com

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  3. Sério que o livro é colorido? o.O
    Isso é inovador (e olha que esse livro é velho). Não deve ter dado muito certo.
    Eu pensei que você tinha ficado doida postando os textos em verde e vermelho rs

    Eu também amo pitadas de metalinguagem mas quando fica aquela coisa de a história dentro da história dentro da verdadeira história me deixa louco. Tanto quanto, mas não exatamente, igual a viagens no tempo e esse tipo de coisa.
    Aliás eu poderia jurar que nesse livro/filme tinha viagem no tempo.

    Mas como você disse, só me lembro mesmo do cachorro-dragão branco então o resto da história pode ser qq coisa.

    Muito difícil eu encarar um livro desses, me parece cheio de descrições e sem muitas piadas. Só você e o BBB pra encarar um livro desses rs

    PS: Alias, essa do BBB foi ótima kkkkk

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