sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um Dia - O filme

ATENÇÃO: Esse post contém spoilers do livro e do filme Um Dia. Se você ainda não o leu, SAIA deste blog imediatamente, tome vergonha na cara e só volte aqui quando tiver lido, estamos entendidos??? Se só não viu o filme, continue por sua conta e risco e... CORRA PARA OS CINEMAS antes que ele saia de cartaz!!!!!

Quando escrevi sobre Um Dia (o livro), comentei o fato de ele ser, na verdade, uma história sobre o tempo. E, ironicamente, aquilo que atrapalhou Um Dia (o filme) foi justamente a FALTA de tempo. Porque enxugar 20 anos de duas pessoas em 1h40 de filme era uma tarefa ingrata, quase impossível de cumprir. No entanto, até que a película se vira razoavelmente bem e consegue captar a essência do livro, mesmo que não completamente.

O que faltou ser

Muita coisa ficou na mesa de edição e passagens importantes (principalmente da Emma) ficaram de fora, o que no final tira um pouco do paralelismo proposto na obra original e daquela cola narrativa que unia elementos de um ano ao outro. Algumas piadas ficaram sem final (como a aposta do celular), outras sem início (como a da colega de quarto da Emma), e principalmente, o desenvolvimento dos personagens ficou prejudicado.

Se o livro conseguia equilibrar bem a discussão sobre as mudanças que o tempo faz na gente, sem se esquecer da outra sobre o que a gente faz com o tempo, o filme foca muito mais na segunda e dá a impressão de que faltou “uma perna”. Perna essa que pode interferir na sua interpretação sobre o filme até (ou não) e determinar sua opinião sobre o final (ou não), depende de quem vê.

Engraçado que antes de entrar no cinema, fiquei namorando a capa nova (e linda) na livraria, mas depois de vê-lo, ela já não me parece tão atraente, porque o filme é bom, mas parece uma versão incompleta da obra original. A capa nova parece errada agora. Para mim, a antiga é que corresponde à história verdadeira.

Câmera, close; microfone, please

Das pernas do Dexter, uma das que mais senti falta foi aquela da carta em que ele escreve para Emma, se declarando e dizendo para ela seguir logo o seu sonho, o que serviria para ratificar a influência do destino na história, assim como a correspondência (sem trocadilhos) de seus sentimentos. Cena que, infelizmente, deve ter ficado de fora puramente pelo limitado tempo de fita.

Mas quem sofreu com a mutilação foi mesmo Emma. Quando ela começa a se encontrar e Dexter a se desencontrar, o filme praticamente se esquece da parte feminina do casal, e esta tem sua participação limitada aos anos em que os dois aparecem juntos, mesmo que a personagem ainda tivesse alguns dramas individuais a desenvolver (tem anos que ela só nada e anda de bicicleta!!!!), dando a impressão de que só a vida do Dexter é que não andava como o esperado. As pernas “amputadas” da Emma são as que fazem mais falta e as que eu acho que seriam as mais difíceis de serem mantidas também.

Crepúsculo

Seu perfil revolucionário não nos é apresentado, porém penso que permanece implícito durante todo o longa, só fazendo falta realmente na cena da briga de sua última manhã, que remetia àquela discussão sobre o tempo que tanto gosto de ressaltar.

Outra parte que acrescentaria muito à trama seria o deslocamento de Emma em meio aos casais com filhos e sua ironia quanto aos papos de bebê. Este não só faria contraponto à recém-paternidade de Dexter, como justificaria ela não atender o telefone (ela não atende de propósito mesmo?) quando este liga pedindo ajuda com a criança e sua ida para Paris no ano seguinte. No entanto, além do óbvio problema do tempo, a dificuldade encontrada em encaixá-la pode ter sido a deselegância em utilizar o recurso da narração em off, sem contar a possível falta de coerência na película com as cenas seguintes em que Emma demonstra seu terno instinto maternal com a filha de Dexter e revela o desejo de ela própria ser mãe. (Alguma coisa do tipo: Se ela odeia tanto essas crianças, por que diabos quer ter filho?)

"Até que é bonitinho esse seu cafofo"

Mas, engraçada mesmo foi a sensação causada pela ausência do caso de Emma com o diretor da escola, pois, no livro, achei a parte esquisita, errada, não gostei de vê-la cometendo adultério, principalmente, porque era o tipo de coisa que a personagem, romântica e idealista, não faria!!!! Principalmente com aquele diretor nojento. Pensei que não fosse querer vê-la na tela, mas acabou que me peguei perguntando: “Cadê aquele diretor safado?”...

Tal trama revelou-se extremamente importante porque através dela é que se completava a aposta do celular, dava-se o estopim para o começo do seu próprio livro e percebíamos que a Emma também era mais complicada e menos perfeitinha, também capaz de fazer besteira, como o Dexter. Entretanto, entendo que ela foi retirada para proteger a personagem, uma vez que talvez pudesse sofrer com maus julgamentos dos espectadores, a exemplo da cena dos bebês.

Muito provavelmente esse era o diretor e a gente vai vê-lo só no DVD

Outras pequenas alterações são feitas e não fazem a menor diferença, como o local da viagem dos dois logo no início (gostei da inserção da praia de nudismo, haha!), ou o casamento da colega de quarto (que o tema era Maria Antonieta e tinha um labirinto no meio, mas que ganhou uma sequência ótima com a música do Robbie Williams), ou ainda o esperado acerto dos dois, que no livro era na casa dela (jurava que tinha visto essa cena no trailer!!!) e foi transferido para o meio da rua.

Dos meus preciosismos, gostava da cena do trailer que NÃO tinha no livro em que a mãe do Dexter mostrava simpatia pela Emma (que também ficou de fora no filme) e da cena da caixa de lembranças e da foto já no final. Mas sei que isso não fez a menor falta.

O final
E já que estamos falando do final, bom, sou defensora dele até a morte (a minha, quero dizer). Todas as outras conclusões imagináveis não fariam jus à densidade da história. Podia ter tido um final feliz com eles juntos ali em Paris, mas seria simplista demais. Podia terminar com eles morrendo velhinhos, mas ia ser Nicholas Sparks demais. E podia terminar com eles descobrindo que afinal de contas não davam certo juntos, mas seria injusto demais depois de tanto tempo. Ela podia até ter engravido e morrido no parto, mas seria brega demais.

O que aconteceu foi uma fatalidade. Todo mundo está sujeito a elas. Num dia, tudo pode acontecer. Da mesma forma que o relacionamento deles começou meio por acaso, ele terminou. Se a história era um pouco sobre a vida em geral, nada mais justo do que retratar a morte também. Sem contar que, como já dizia aquela frase famosa do Clube dos Cinco, "quando você cresce, o seu coração morre", o acidente só terminou o serviço. Gosto daquele sentimento de o que faltou ser do final e, principalmente, adoro a pegadinha que o autor prega na gente quando volta no tempo e entrega um final feliz através de flashback (se ferrou quem foi ler a última frase do livro achando que ia descobrir o final antes. Conheço uma pessoa que fez isso, mas não vou contar quem fui...)
* E se você quiser discutir porque gostou, ou porque desgostou, coloque a boca nos comentários que a gente abre um debate bem bacana por aqui (o importante não é provar quem está certo ou errado, é colocar seus argumentos e fazer o outro refletir por uma segunda vez, tirar o colega da zona de conforto... Por isso que eu sou forumzeira de carteirinha)

Ninguém pode reclamar que não teve beijo no final...

O filme assim, sem a segunda perna, pode dar margem a algumas interpretações maliciosas. Mas só se você estiver muito de mau humor e não tiver amor no seu coração. Ele emociona. Não como no livro. Mas emociona. A tomada da Emma deitada no chão foi mais A Hora da Estrela do que nunca e quando o caminhão bateu, doeu até em mim.

Roteiros à parte
Mas, se dramática e narrativamente, o filme tem seus percalços (culpa do próprio Nicholls, já que ele mesmo assina o roteiro*), em termos de caracterização o pessoal caprichou.
* Me pergunto se ele não fez de propósito só pra ficar ganhando elogios sozinho sobre como o livro é melhor que o filme...

Peraí, a diretora está usando saia E calça ao mesmo tempo???

A fotografia está sensacional, locações de encher os olhos, trilha sonora* bacana (com direito a música nova do Elvis Costello – é aquele de She, em Notting Hill), figurinos, maquiagem e penteados que remetem aos anos retratados em cena... Dá pra ver que o filme foi feito com muito esmero e carinho. Repare, por exemplo, na passagem de tempo, já quase no fim, enquanto Dex e Emma tentam ter um filho, como a máquina de escrever está posicionada bem ao lado do laptop de última geração, ilustrando o avanço tecnológico nos anos que se passaram.
* Decepção de não ouvir a bacanuda Good Life, que eu acabei viciando no trailer só.

E, claro, como não podia deixar de ser, a Anne super-arrebenta na atuação. O filme todo. Como não sou inglesa, nem americana, achei o sotaque lindo (hahaha!). Sério, gente, isso é que atriz! Ela não precisa fazer careta. A menina passa a emoção só com o olhar. Anne traz a inteligência e simpatia (e as botas do Diário, hehe) que a personagem precisa. Só ela já valia o ingresso (aliás, só ela valia esse ingresso caríssimo mesmo). Uma pena o roteiro não dar mais espaço à personagem.

Anne, sua linda, vai atuar bem assim lá em casa, vai!

Jim Sturgess não fica atrás e faz um Dexter perfeito, sendo detestavelmente adorável na medida certa. E o resto dos coadjuvantes também entrega boas atuações, embora não tenha muito tempo em tela.

Se o livro é melhor que o filme, isso já estava sacramentado desde antes da produção. Mas não ligue para o que dizem os críticos, o filme não deixa de ser ótimo e consegue captar, sim, a alma do livro. Ou pelo menos, parte dela. Se ao menos ele tivesse mais uns 20 minutinhos...

2 comentários:

  1. Acabei de ver o filme que, infelizmente, não estreou aqui em Porto Alegre (acho absurdo, me sinto no interior do interior do mundo quando um ~filme~ não chega nas salas de cinema), então tive que dar um jeito - que não queria dar, mas ok. Não podia fazer mais nada.
    Acho que podia ter pelo menos chegado nos 120 minutos. Aqueles anos que tinham, sei lá, um minuto de duração... Acabou ficando muito dividido entre dias gloriosos e dias horríveis e achei que ficou faltando um pouco dos dias nublados e sem graça. Mas entendo, porque o filme já foi corrido sem eles.
    Fiquei meio frustrada com a cena em que o Dexter cuida da Jas. Foi um momento tragicômico no livro, e tão intenso importante na caracterização do personagem. Penso aqui que são as desvantagens de fazer do filme um PG13. O filme ficou com uma pegada bem mais leve do que o livro, mas deu pra ver o quanto o Dexter estava perdido na vida, então tudo bem.
    Mas gostei bastante do filme. Acho que tem muito a ver com o momento. Porque, sério, de algum jeito ele conseguiu me emocionar mais do que durante a leitura da maior parte do livro. Ainda quero reler e ver qual vai ser minha opinião.
    Frustrante passar a amar o Dexter mesmo quando ele estava sendo um completo idiota só por causa da simpatia enorme que eu tenho pelo Jim Sturgess.
    E como você, achei o sotaque da Anne ótimo, mas provavelmente é porque não tenho intimidade com ele. O pessoal que o escuta diariamente não ia reclamar loucamente por nada, né?

    Terminei o comentário e não vou reler porque tenho certeza de que ele está longo e cheio de coisas desnecessárias. E não quero sair sem comentar haha

    Beijo!

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  2. Ai... Acabei de ver o filme.
    É lindo! Agora estou super curiosa pra ler o livro, né? Porque na verdade quase sempre o livro é melhor mesmo rs.
    Na cena do acidente, tomei um susto, de verdade. Meu coração disparou, fiquei triste...
    Mas gostei muito disso que você escreveu
    "O que aconteceu foi uma fatalidade. Todo mundo está sujeito a elas. Num dia, tudo pode acontecer."
    É verdade mesmo, por isso, não podemos perder tempo das nossas vida escondendo os nossos sentimentos. Temos que viver, né?

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