segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O que eu faço da vida #02: Odiados por muitos, temidos por todos.

Quando se fala em auditoria, muitos tipos podem vir à cabeça, alguns deles não necessariamente ligados à contabilidade, por exemplo:

- Auditoria fiscal: Trabalha para o governo, verificando se a empresa (ou a pessoa física) está recolhendo os impostos corretamente e fazendo autuações se necessárias (Esse geralmente são ricos, mesmo, pra quem quiser saber. Mas por incrível que pareça, não necessariamente são contadores)
- Auditoria de Sistemas / Segurança da Informação: Avalia se os sistemas utilizados na empresa são confiáveis, se o ambiente de TI não está sujeito a invasões, etc.
- Auditoria interna: Verifica se os controles internos da própria empresa estão funcionando, propõe melhorias nos processos, atenta para a existência de fraudes.
-Auditoria externa/independente/contábil: É isso aí o que eu faço. 

Então, como a gente viu no post anterior, a empresa é dessas que precisam publicar o balanço no jornal. Aí beleza, nele ela diz que deu lucro de, por exemplo, R$ 500 milhões no ano. Como é que você, que está lendo o jornal, vai saber que esse número é verdadeiro? Como é que um banco quando vai analisar a situação de uma empresa para conceder um empréstimo sabe se aqueles números não estão maquiados?

É aí que o meu trabalho entra. A gente, auditoria independente, é contratada pelas empresas para verificar se aquilo que elas registraram na contabilidade condiz pelo menos razoavelmente com a realidade da empresa. 

Razoavelmente porque não podemos garantir que aqueles números estão 100% corretos (imagina só ter que testar TODAS contas do balanço e sugerir ajustes de 10 reais num patrimônio de 10 milhões? Por favor! 10 reais você tira do seu bolso e resolve o problema!), mas nosso método de trabalho garante 95% de segurança sobre aqueles números, que é um percentual bem relevante.

E aí a gente executa uma série de testes que incluem recálculos, verificação de documentos e da existência física dos bens, envio de cartas de confirmação de saldos por terceiros – sim, cartas físicas, nossa empresa sustenta os Correios -, indagação, etc, para que nosso sócio responsável pelo cliente (a empresa) possa emitir sua opinião sobre aquelas demonstrações contábeis, que virá junto com aquelas letrinhas miúdas cheias de números lá no jornal.


Ah, mas se eles pagam vocês, vocês são obrigados a dizer que está tudo certo!

Não é bem assim. Nós somos pagos para passar credibilidade às demonstrações financeiras. É isso o que a gente vende: credibilidade, não opiniões positivas. Inclusive, nossos funcionários têm de assinar um termo de independência, dizendo que não possuem interesses pessoais nas empresas auditadas e se possuem investimentos em alguma companhia. 

E se estiver tudo errado mesmo, fazer o quê, infelizmente temos de dizer que “está tudo errado”! Ou que parte do balanço está errado, ou que não deu pra testar por algum motivo...

Mas por que os clientes odeiam vocês?

Porque eles acham que somos da fiscalização, que estamos lá para mostrar os erros de todo mundo e causar demissões em massa. 

Algumas pessoas acham isso mesmo (talvez por confundirem com outro tipo de auditoria). Mas é mentira.

O que não quer dizer que as pessoas não tenham motivos para nos odiar de verdade. Elas têm.


Porque a gente pede um monte de documentação, e explicação e atrapalha muitas vezes o trabalho da pessoa, que já está totalmente atarefada. Às vezes eu penso que se estivesse do outro lado, também ficaria com raiva, mas, paciência, se ele não me ajudar, a empresa dele também vai se prejudicar, porque eu não vou ter como testar e não vou ter como dizer que todos os testes deram OK. E aí não tem relatório do sócio dizendo “Pode confiar!” (não com essas palavras, óbvio) no jornalzinho. (Já passei da fase de ficar com pena do cliente, porque quem fica trabalhando até tarde, nos fins de semana e feriado depois sou eu, enquanto ele está curtindo um soninho na cama ou um solzinho na praia).

No fim das contas, o trabalho na verdade é de parceria. Se todo mundo se ajudar, no final todo mundo sai ganhando.

Auditor não fica feliz quando encontra erro. Na verdade a nossa maior alegria é quando encontramos tudo certinho, não precisamos sugerir ajuste nenhum. Porque quando a contabilidade está errada ou muito mais duvidosa, é nossa obrigação entender o que está acontecendo (muitas vezes nem tem nada de errado, mas para entender se não tem mesmo, é preciso sentar com os caras para esclarecer as coisas) e levantar qual seria o registro certo, o que dá muito mais dor de cabeça e dobra nossa quantidade de trabalho.

Só confiamos em Deus

Muitas vezes a gente encontra cliente que está explicando alguma coisa pra gente, e então, pra corroborar o que ele está falando, pedimos alguma documentação extra (não sei se expliquei no outro post, mas só pode estar registrado na contabilidade aquilo que está documentado de alguma forma), e o cliente vira pra gente e fala: 

-Mas eu estou falando que é assim! Você não acredita em mim?
Ao passo que temos que responder:
- Assim, não é nada pessoal, mas eu sou paga para NÃO acreditar em você. Somos treinados para desconfiar de tudo e todos. Pessoalmente, até acho que você está falando a verdade, mas, profissionalmente, não posso ficar sem o documento, senão me colocam na rua.

E já que estamos falando tanto em registro e documento, também vale acrescentar que tudo o que A GENTE faz também tem que estar documentado (“Se não está documentado, não está feito!”) em nossos “Papéis de Trabalho” – que não necessariamente são de papel hoje em dia. Como já expliquei, Excel existe e eu o adoro de paixão.


O trabalho de vocês é descobrir fraudes?

Não. O escopo principal do nosso trabalho é verificar se a contabilidade da empresa está razoavelmente certa.

Mas devemos estar atentos para esse tipo de coisa, e é possível descobrir operações mal intencionadas em alguns casos, porque pega muito mal pra auditoria emitir um parecer “limpo” de uma empresa que depois é acusada de fraude. As pessoas logo se perguntam: “Mas cadê a auditoria que não viu isso?”.

Acontece que nem sempre dá pra pegar a fraude. Seja porque aquela operação em específico não estava na nossa amostragem ou dentro do escopo de seleção relevante, seja porque o cliente age de má fé com a própria auditoria.

Mas tem coisas que se estiverem dentro da nossa amostra de testes determinada pela metodologia, são muito fáceis de ver, tipo emissão de nota para serviço que não existiu, despesas pessoais de diretores pagas pela empresa, caixa dois...

Já houve casos de empresas de auditoria que FALIRAM porque seus clientes foram descobertos em fraudes e eles não desconfiaram de nada. Mais tarde descobriram que a auditoria nem tinha culpa, mas aí já era tarde demais. Também por isso não podemos acreditar em qualquer história que o cliente conta pra gente.

Agora a pergunta mais difícil de todas:

Onde você trabalha?

Então, isso depende. Porque eu quase nunca fico no escritório da minha empresa, porque já que meu trabalho é entender, perguntar, verificar a contabilidade do cliente, nada mais justo do que fazer tudo isso lá da casa dele mesmo. Só que a gente não fica o ano inteiro auditando um cliente só, porque cada um tem um prazo diferente. 

Então, divide-se o tempo e as pessoas entre eles. De modo que eu não tenho casa, nada é certo, e hoje eu posso estar aqui perto, na outra semana no outro lado do Brasil. É claro que existe uma programação mais ou menos definida e não necessariamente a vida será essa loucura de viagens e ligações inesperadas o tempo todo. Eu, por exemplo, só faço clientes no Centro do Rio, nunca tive que viajar e trabalho mais ou menos com as mesmas equipes. Mas essa instabilidade existe e é uma das coisas que eu menos gosto na profissão.

Porque além de tornar uma pergunta como “Onde você trabalha?” extremamente complexa (olha só quantas linhas eu já gastei tentando explicar!), dificulta muito a sua capacidade de planejamento, transformando a marcação de idas ao cinema ou consultas médicas em atividades não tão simples assim. 

Sem contar que uma coisa é você trabalhar e lidar com as mesmas pessoas todos os dias. Outra é ter que se provar constantemente para pessoas que não te conhecem ou ter que aprender a lidar com a personalidade de cada uma delas (seja da equipe, seja do cliente) quase que sempre. E ao mesmo tempo que existe gente muito legal, também existe gente muito babaca. Só que nesse último caso, pelo menos a falta de rotina ajuda, porque não necessariamente você vai ter que olhar na cara dela durante todos os dias do ano. (Só para deixar claro, até que tenho muita sorte porque adoro as pessoas com quem trabalho. A gente ri o dia inteiro, fala besteira, faz musiquinha...)

No próximo post eu termino a série com algumas observações e histórias engraçadas e outras curiosidades da profissão (tanto da contabilidade, quanto da auditoria).
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O que eu faço da vida #01: Os mitos


2012 foi meu primeiro ano sem estudar (assim certinho de segunda a sexta, pra pegar um diploma no final). E eu não senti a mínima falta.

Mesmo antes disso, já tem um tempinho que "trabalho" pra mim deixou de ser sinônimo de ir pra casa do colega brincar depois de terminar a tarefa especial para casa da professora. Dizem que você deve escolher um trabalho que ame e assim você nunca terá que trabalhar. O que é a maior mentira, porque AMO meu trabalho (graças a Deus!), mas ele ainda é trabalho, com toda a gratificação de fazê-lo e todo o estresse em épocas de pique (ah, sim, ao contrário da infância, pique por lá não é muito divertido).

E como nos últimos tempos tenho me deparado muito com a simples pergunta, porém com resposta complexa, que diz: “O que você faz lá no seu trabalho?”.

Pra quem ainda não sabe, apesar do meu passado informático, sou formada em contabilidade e trabalho com auditoria. E se já é difícil explicar o que faz um contador, mais difícil ainda é tentar situar alguém de fora no que consiste o meu trabalho de auditoria. Então, achei legal perder um tempinho para dar uma ideia do que eu faço da vida.

Vamos começar com a primeira pergunta, então:

O que é a contabilidade?
Segundo a Wikipédia: Contabilidade é a ciência que tem como objeto de estudo o patrimônio das entidades, seus fenômenos e variações, tanto no aspecto quantitativo quanto no qualitativo, registrando os fatos e atos de natureza econômico-financeira que o afetam e estudando suas consequências na dinâmica financeira.

Agora for dummies: Contabilidade é a ciência que se preocupa com o registro das operações de uma empresa. Ela tem como objetivo, através dos lançamentos feitos em partidas dobradas, transparecer a situação patrimonial da entidade da melhor forma possível. Ao final do exercício, as “grandes empresas”, grosseiramente falando, devem divulgar as demonstrações financeiras (no popular, “o balanço”) para os interessados a fim de que estes possam tomar as melhores decisões possíveis.

O que faz o contador?

Ao contrário do que o Felipe achou uma vez, o contador não fica contando coisas. Mas o Felipe não é parâmetro pra ninguém, né, gente!

Mas antes, vamos quebrar alguns mitos disseminados pela mídia ou pelo senso comum sobre meus colegas de profissão.

#01: Contadores são frustrados

Nos filmes, o contador é sempre o mané, o otário, o tímido, o frustrado que sonhava em ser importante mas acabou fazendo contabilidade por terem lhe negado um papel principal na peça da escola. 

Não acredite nisso. A maioria dos contadores que eu conheço vive muito feliz na sua profissão. E o que eu mais escuto nessas minhas andanças por aí é gente se lamentando porque devia ter feito contabilidade ao invés de administração, economia, engenharia, enfermagem, etc.

Porque, ao contrário dessas outras profissões que têm escopos muito vagos, a contabilidade é certeira, prática, e só o contabilista pode assinar o balanço. 

Nos primeiros episódios de Glee, o Mr. Schue ficava na dúvida se continuava como professor ou teria de fazer o imenso esforço de trabalhar com contabilidade, como se qualquer um fosse qualificado para o serviço. (E até hoje eu não sei se ele era formado em contabilidade mesmo, porque, naquele episódio do Ricky Martin, eles deixam bem claro que o mentor do Glee Club também não tinha nenhuma formação acadêmica para dar aula, então vai entender o que se passa na cabeça do Ryan Murphy).

#02: Contadores vivem rodeados de papel

É muito comum o contador ser associado à figura do cidadão arcaico e infeliz que vive rodeado de papéis, fica com uma calculadora daquelas que sai uma fitinha e usa uma viseira na testa. 


Não vou dizer pra você que ainda não exista gente trabalhando desse jeito. Mas posso te garantir que essas pessoas já têm mais de 50 anos de idade. Quer dizer, não sei se vocês sabem, mas existe uma coisa chamada “Computador”, que revolucionou o armazenamento das informações. É bem verdade que ainda tem muita coisa em papel (até porque só pode ser registrado aquilo que está documentado), mas o modo de trabalhar está totalmente informatizado. Não tem mais aquela de ficar escrevendo à mão nos livros. É tudo feito nos sistemas. Às vezes até integrados com os utilizados para o gerenciamento da empresa.

#03: Contadores sabem tudo de matemática e fazem todos os cálculos de conta de cabeça

Outro mito muito comum que assusta quem não faz ideia do que seja contabilidade é a lenda de o curso tem muita matemática e que seus alunos resolvem todos os cálculos de cabeça.

Pra falar a verdade, contabilidade envolve basicamente as quatro operações (no máximo uma potência e uma raiz). Você vai ver um pouquinho de cálculo (que não vai lhe servir para nada), estatística (que pelo menos serve pra fazer prova de concurso) e matemática financeira. De resto são matérias específicas do curso que utilizam sim muita matemática. Mas é tudo muito concreto e nada que um aluno que aprendeu bem a matéria do ensino fundamental não consiga tirar de letra.

Agora sobre a calculadora com a fitinha, ela realmente existiu, porque contador não é bom de conta de cabeça. Mas também já ficou pra trás porque, hello, existe Excel, gente!

Um detalhe: Mexo com planilha Excel o dia inteiro. E descobri que nasci pra isso. Copia os dados pra cá, transpõe tabela pra lá, separa as colunas, sumariza do outro lado, seleciona os maiores, aplica um monte de fórmulas, usa formatação condicional, muito PROCV, tabela dinâmica... Recebo arquivos de tudo quanto é formato, e tenho que dar um jeito pra transformar tudo em uma planilha agradável de manipular. Estou sempre tentando descobrir uma maneira de otimizar o processo, porque ninguém merece trabalho manual! O dia que eu aprender a fazer macro ninguém me segura!

 #04: Contadores são ricos
Então, não é porque contadores são profissionais que lidam com finanças que eles necessariamente são ricos. Mas não vou mentir pra vocês. Existem contadores ricos, sim. Mas geralmente são os caras que já ocupam um cargo de diretoria, gerência, chefia dentro do departamento, que realmente assina o balanço e tal. E enquanto você tem o chefe ganhando uma quantia, hmmm, interessante, também tem o estagiário ou assistente ganhando muito, muito menos. Tem bem mais a ver com a posição do seu cargo do que com área em que atua. Mesmo assim, isso varia MUITO de onde você vai trabalhar. E dependendo de onde você trabalhe pode ser que continue ganhando mal a vida toda (mesmo ocupando um cargo interessante).

As áreas da contabilidade

A Contabilidade permite que o graduado atue em diversas áreas da profissão como:
  •  Contabilidade gerencial - Menos preocupada com o registro e sim com a relação entre os custos dos produtos e serviços ofertados.
  • Contabilidade Tributária/Fiscal – Relacionada ao estudo e ao cálculo dos tributos devidos.
  • Contabilidade Pública – Área que estuda o registro das operações das entidades públicas.
  • Perícia Contábil – Contratada para emitir parecer acerca do patrimônio da empresa quando dentro de um processo de litígio.
  • Auditoria – Depois eu falo.

Passado e futuro

Contador não é vidente. E isso é uma das coisas que eu mais gosto na profissão. A contabilidade é ao mesmo tempo um meio (para as tomadas de decisão) e um fim (que mostra o que resultou de tudo o que aconteceu na empresa, desde seu nascimento). Não vou dizer que seja uma ciência totalmente exata, porque nos últimos tempos, com a aprovação das normas internacionais, ela adquiriu um teor subjetivo maior. Porém, na maioria dos casos, existe sim uma resposta correta pra tudo e a gente não fica muito na base do “Depende”. E outra: uma hora ou outra, mesmo sem querer, você vai estudar nem que seja um pouquinho de contabilidade na sua vida.

Alguns podem alegar que o contador só se importa em registrar o passado, sendo sua função meramente ilustrativa para fins de cumprir a obrigatoriedade com o fisco e em alguns casos de empresas pequenas, familiares, isso pode até ser verdade. 

O contador dificilmente terá uma visão gerencial, de tomada de decisão, preocupado se as vendas vão aumentar, se vão diminuir, de as despesas devem ser cortadas ou não. Ainda mais em microempresas. Mas o seu trabalho deve servir de base para que aqueles que vão tomar as decisões possam ter uma visão clara de que as vendas aumentaram, diminuíram, se as despesas estão muito altas, se a empresa está dando lucro ou prejuízo, e então possam traçar sua estratégia.

E se a contabilidade estiver uma bagunça ou estiver refletindo uma situação preocupante (por exemplo, muitas dívidas e poucas garantias de pagamento), e a empresa quiser pegar um empréstimo, participar de uma licitação, vender a companhia ou até abrir o capital, eu duvido muito que ela consiga.

Nas empresas maiores, como elas têm a necessidade de divulgar periodicamente suas demonstrações financeiras, o setor da contabilidade é um pouco mais respeitado. Afinal, todo mundo vai ver um retrato da situação patrimonial da empresa saindo no jornal! E pra sair no jornal tem que estar bem bonito na foto, afinal todo mundo vai ver, e aqueles poucos doidos investidores, fornecedores, clientes que leem aquelas letras miúdas tem que ter uma visão muito clara de como a empresa está.

E é aí que entra a auditoria! Mas isso é melhor eu explicar na semana que vem! 

No final de tudo, nosso trabalho acaba resultando numa DF tipo assim:
E quando tem que sair no jornal mesmo, dá vontade de falar: “Manhê, fui eu que fiz!”

PS Se tiver alguma pergunta, a caixa de comentários está aberta às dúvidas. :)
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domingo, 30 de dezembro de 2012

Identidades e Amigos Secretos


Alguns de vocês já estão acostumados a minha habitual paranóia na internet. Não acho que me prive de muita coisa, caso contrário não teria um blog em que ocasionalmente posto fotos pessoais e praticamente sempre deixo escapar muito do que eu penso mas não teria coragem para falar na vida real. Contudo, ao mesmo tempo em que desfruto de certa liberdade na internet, morro de medo de ser “desmascarada”.

Sou do tempo em que internet era sinônimo de anonimato. Em que a gente podia ser quem a gente quisesse, sem mostrar a cara, sem esbarrar em pessoas que não temos a menor intenção de encontrar nos momentos de lazer na vida real. É claro que com o advento das redes sociais isso tudo mudou e ao invés de a internet ser o lugar onde as pessoas se escondiam para se mostrar, agora ela é o lugar onde elas se mostram para se esconder (se é que faz algum sentido). E isso bagunçou tudo. 

Porque com a Lei dos Seis Graus de Separação, bastam alguns cliques para ter acesso a todo um arsenal de informações sobre gente que você conhece ou pode vir a conhecer.

Pois então. Tenho blog, conta no Twitter, Orkut e recentemente abri um perfil no Facebook, mas faço o possível para uma coisa não interferir na outra e dificulto a vida de quem queira traçar as conexões entre elas e estabelecer mais contatos do que o nível de privilégios de sua conta permite. Tremo na espinha toda vez que alguém de um determinado nicho invade o habitat do outro (principalmente no blog), cheia de medo do que elas vão pensar.

Sei que devia deixar esse tipo de paranóia de lado, porque na maioria das vezes o resultado dessa interferência é bem legal, e ao contrário do que eu sempre imagino, elas não vêm falar comigo cheios de pedras na mão, mas com um punhado de palavras elogiosas que inflam bastante o ego.

Mas faço isso porque eu sou boa nesse negócio de detetive virtual e quando tenho tempo para fazer esse tipo de coisa, descubro outras bem nonsense. Para você ter uma ideia, na época do colégio, quando não tínhamos mais nada para fazer, digitávamos o nome de professores no Google só pra ver o que aparecia. E traçávamos um bom perfil dos caras, mesmo com pouca coisa disponível. 

Então, para você que se pergunta por que eu não coloco widgets do Twitter no blog ou link do blog no perfil do Twitter, ou uma foto de rosto nas redes sociais, a razão da minha paranóia já começa por eu não confiar em mim mesma. Que dirá confiar em qualquer um que apareça pelo meu caminho e decida procurar meu nome por aí para ver o que acha.

Não quero ficar dando satisfações da minha vida real e virtual para quem não merece. Não quero que elas tenham acesso a partes da minha vida que não lhes dizem respeito. E não quero que algumas pessoas que apenas fizeram participação como coadjuvantes dela em algum momento continuem tendo acesso a minha pessoa (ou à determinada parte da minha pessoa), depois já terem saído dela completamente.

(Você que lê esse blog e nunca dá as caras nos comentários, e por acaso me conhece de verdade, não se sinta acanhado ou expulso desse humilde espaço cibernético. Pode continuar vindo, tenho maturidade suficiente para postar somente aquilo com o que eu posso lidar no futuro. Se quiser, pode até dar um “ Oi” nos comments ali embaixo. E você que lê esse blog e gostaria que mais pessoas o conhecessem, tudo bem, também. Não me importo com a divulgação. Até gosto. Já passei DESSE nível de paranóia, sei que não tenho controle sobre a internet, apenas faço a minha parte para ter essa falsa ilusão de que tenho algum poder sobre ela.)

Recentemente encontrei com uma pessoa assim, que ficava procurando o nome dos outros nos sites, rastreando a vida virtual de qualquer um que conhecia e agradeci muito a Deus por ainda não ter colocado a foto no perfil do Facebook, por usar um pseudo-pseudônimo no blog, e por não ter página de apresentação sobre a blogueira. Acho até que a pessoa chegou muito perto de me descobrir, mas acho que a falta de integração entre as contas não permitiu que ela fizesse o trabalho completo.

Mas o problema maior não é se mostrar para pessoas que você não conhece. É se mostrar para pessoas que acham que te conhece. Pessoas que você fez um esforço hercúleo para esconder aquela parte de si que sabe que será alvo das infinitas brincadeiras sem graça. Ou pessoas que você fez questão de não mostrar outros lados mais sombrios, mais alegres, diferentes de você mesmo, por pura preguiça de ficar se explicando demais.

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Certo dia, em pleno feriado ensolarado, eu estava no escritório trabalhando por causa do prazo apertado de um projeto. Nas baias ao lado, estava uma outra equipe também trabalhando pelos mesmos motivos. O tal dia era o dia da estréia de Amanhecer – Parte 2 e uma menina da outra equipe caiu na desgraça de contar que era fã da saga. Pronto. Foi o suficiente para virar motivo de chacota entre todos os colegas durante toda a tarde. O gerente metia o malho na série, e a menina ainda tentava defender Edward, Bella e Cia, inutilmente, claro, já que não existe argumento no mundo capaz de fazer qualquer um com um mínimo de consciência mudar de opinião.

É claro que no dia eu não me agüentei e ri demais das zoações do pessoal com Crepúsculo (porque eu não me agüento e tenho que rir com essas trollagens de Crepúsculo, pelo simples motivo de a série já ter nascido zoada pela própria autora que não teve a capacidade de parar um segundo e pensar: “Peraí, o meu vampiro BRILHA, isso não tem nada a ver!” ou “Será que não vai ficar esquisito esse negócio do imprinting do Jacob num bebê?”), mas secretamente tentei mandar mensagens telepáticas para ver se melhorava a situação dela: “Mas, menina, você não tem noção, não? Ficar falando esse tipo de coisa pros seus colegas de trabalho? Para de tentar defender! Ria de você mesma, vai ficar menos constrangedor!”.

Pra piorar, a menina ainda contou que gostava de Harry Potter e tinha ido a uma premiere fantasiada uma vez. Ok, as mensagens telepáticas não funcionaram e ela cavou a própria tumba agora, enfim.

Mas enquanto ria e morria de vergonha por ela, lá no fundo, a verdade é que eu invejei a tal garota. Achei-a muito corajosa, de fato. Porque é preciso uma boa dose de coragem para admitir em alto e bom som, num ambiente completamente hostil: “Gosto de Crepúsculo mesmo. E daí?”. Por um momento quis ser completamente honesta como ela e não ter medo de me esconder debaixo de uma “identidade secreta”. Porque eu não gosto de Crepúsculo, mas é claro que também tenho um monte de esqueletos no armário que acho (e às vezes sei) que não seriam muito bem vistos por pessoas do mundo adulto e por isso os escondo.

Mas desisti porque ser corajoso e honesto dá muito trabalho (mais trabalho do que dificultar a conexão entre os perfis das redes sociais), e perto de gente que não te entende traz mais dor de cabeça do que alívio.

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Num outro dia, estávamos conversando eu e a Ju no Twitter sobre o que comprar de amigo oculto para um amigo contador. Como sou contadora, dei várias ideias e me diverti num site com camisetas personalizadas que acabei descobrindo. O tempo passou e por causa de um outro amigo oculto (esse só com pessoas da blogosfera), acabei adicionando a Ju também no Facebook. Num belo dia, eis que estava passando as atualizações do Facebook e apareceu uma foto de um cdt (colega de trabalho) nas fotos da Ju!!!!! E depois que eu fui falar com ela, ela me disse que o tal cdt era o contador que ela tinha tirado no Amigo Oculto!!!!!!!!

:O
:O
:O

Eita, mundo pequeno!!!!!

(Se você parar pra pensar, até que não seria tão pequeno, já que, eu e a Ju moramos relativamente perto, mas mesmo assim, né!)

É claro que naquele momento, todo o meu plano de separação das IDs na internet estava prestes a ruir já que a Teoria dos 6 Graus de Separação tinha precisado de apenas 1 Grau para se cumprir e o cdt obviamente iria me adicionar no Feisse (agora eu já tinha foto!), abrindo as portas para os “Adicionar” de todos os outros CDTs, então pedi encarecidamente pra Ju não contar do blog, por causa da história das Identidades Secretas e da minha paranóia sempre alerta, ao passo que ela, professora, entendeu completamente a minha preocupação (Obrigada, Ju!).

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E eis que depois daquele casamento de que comentei outro dia, a galera lembrou como era bom estar todo mundo junto novamente e num dia desses travamos uma conversa que foi até a madrugada.

Como sempre acontece quando a gente resolve conversar, tenho uma sensação boa, de pertencimento mútuo que é muito difícil de acontecer. Entre piadas absurdas e babados fortíssimos, em certo momento do papo, chegamos à conclusão de como é bom se esquecer que crescemos de vez em quando. E como era bom como isso acontecia quando estávamos juntos.

Gosto de estar com eles porque eu não preciso lembrar que cresci. Gosto de estar com eles porque não recebo olhares tortos cheios de julgamentos sobre tudo. Gosto de não ser a novata, a responsável, a quietinha. Gosto de ser um pouco maluca de vez em quando e como eles me entendem sem precisar dizer uma palavra. Gosto de como não preciso pensar muito antes de falar, nem escolher ou esconder qual identidade mostrar, com medo das interpretações erradas e das piadinhas de mau gosto que durarão para sempre.

Nesse dia outra coisa legal aconteceu e a gente quase marcou uma viagem junto. Em outra situação, não vou mentir pra você, a tal viagem também me daria um frio na espinha, porque esse tipo de coisa com gente que você não tem intimidade suficiente só poderia acabar em roubada. Mas naquele contexto, estranhamente, eu achei que seria uma boa ideia. O motivo do passeio era ainda mais nobre. E eu percebi o quanto eu tinha sorte de ter encontrado amigos tão leais.

E eu percebi que também que gosto deles porque com eles eu tenho vontade de ser uma pessoa melhor. Gosto deles porque com eles eu sou uma pessoa melhor. Gosto deles porque com eles eu posso ser quem eu quiser. Porque eu posso ser simplesmente eu.

PS A propósito, eu gosto de vocês, leitores do blog por todos esses motivos que eu listei agora também.
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Treinamento para o Fim do Mundo

Queridos leitores do Inútil Nostalgia, começo escrevendo esse post exatamente às 20:00 do dia 21/12/2012, mais conhecido como o Dia do Fim do Mundo.

Pelo menos o Fim do Mundo dessa década. Em 1999 também tinha uma dessas e estamos aqui até hoje.

Eu sei que o blog anda meio parado nesse último mês e a verdade é que não tenho nenhuma razão boa o bastante para que isso tenha acontecido. É claro que existem motivos para tal ocorrido (ou não ocorrido, no caso), mas, por ora, posso garantir que desistir do Inútil nem sequer passa pela minha cabeça e que esse hiato mais demorado do que o normal talvez esteja relacionado com o próprio fato de dezembro ter começado. Queria ter escrito um texto sobre isso também. Prometo que escreverei. Não sei porque estou me alongando tanto me explicando, já que parece que quase ninguém passa por aqui mesmo, mas enfim. (Sim, estou fazendo chantagem por comentários se você ainda não se ligou)

Mas a questão é que são oito da noite e o mundo não acabou. E a questão é que já são 21/12 e faz quase um mês que o blog não recebe uma nova postagem. E a questão é que até meia-noite ainda é dia 21/12/12 e só me restam umas poucas horas para aproveitar essa desculpa para atualizar isso aqui.

A ideia inicial era fazer uma Playlista para o Fim do Mundo (e ela ainda será executada), mas antes queria contar que ontem, dia 20/12, teve treinamento de incêndio no prédio em que estou trabalhando essa semana e que, depois que descobri que também teve o tal treinamento no mesmo prédio em que um amigo meu trabalha, na mesma hora, ficou muito claro que na verdade era tudo um treinamento para caso o mundo realmente acabasse no dia de hoje.

Ah, sim, teve esse treinamento ontem e eu morri.

Veja bem, obviamente, não estou escrevendo esse texto do além (estilo Brás Cubas). E se vocês estão lendo esse texto, o mundo não acabou (ainda) e estamos todos vivos (acho).

Mas o negócio é que se realmente estivesse ocorrendo um incêndio no prédio (ou o mundo estivesse acabando), eu teria morrido sem ter a chance de tentar me salvar (se bem que se fosse o fim do mundo não ia ter muita saída mesmo, mas enfim).

Ok, vamos começar do começo agora.

E pra começar eu queria dizer que nunca participei de um treinamento de incêndio.

Por isso, quando o cliente veio lá na nossa salinha pra dizer que ia ter um negócio desses no prédio e que aí a sirene ia tocar e que todo mundo ia fazer filinha para descer as escadas (mesmo sendo 11 andares) eu achei que ia ser muito legal.

Estava realmente animada para o “evento” também porque sempre que falam em treinamento de incêndio em lembro de Um Tira no Jardim de Infância e da cena em que o Arnold Swasjcbnjkbjgkjkbhjs consegue salvar as criancinhas do seqüestrador porque tinha ensinado a não entrar em pânico em treinamentos de incêndios antes.

Já estava contando os minutos para quando a sirene tocasse e eu fingir pânico ou fingir para as pessoas não entrarem em pânico, e me sentir como uma criancinha de Um Tira no Jardim de Infância.

Só que deu 16h e a sirene não tocou. Deu 16h05, 16h10, 16h15 e nada. A gente olhou para fora da nossa salinha e achou muito estranho porque não tinha quase ninguém dos funcionários nas estações de trabalho. Mas por outro lado, nem era tão anormal assim, visto que pelo que eu percebi essa semana eles passam a maior parte do tempo comendo na copa ou conversando no banheiro mesmo. E de qualquer forma, a sirene ia tocar.

Dali a pouco entra uma mulher na sala zoando a gente: “Caramba, a Joana* [minha chefe] é carrasca, não deixou os meninos nem descerem pro treinamento de incêndio!”.
*nome fictício

A gente ficou com cara de tacho e perguntou: “Mas as pessoas já estão descendo?”, ao passo que a mulher respondeu: “O pessoal já está até voltando!”.

Nós: Mas como assim? Disseram pra gente que a sirene ia tocar! E a gente não ouviu!

Mulher: Ah, mas é que ela toca baixo na empresa do lado porque é uma empresa maior, blablablá

Que mané importa se a outra empresa é maior? As pessoas de lá valem mais do que as daqui?

Nós: Mas se tivesse pegando fogo de verdade ninguém vem aqui avisar pra salvar a gente? Iam deixar a gente morrer queimado? A gente só ia ficar sabendo quando a fumaça acionasse o sprinkler do teto?

Mulher: É!

Ela saiu da sala meio que ignorando tudo o que a gente tinha dito sobre a segurança do prédio e continuou a sacanear minha chefe de carrasca para todos os seus colegas de trabalho durante toda a tarde.

Tentamos alertá-los sobre o perigo da sirene não ter tocado inutilmente o resto do dia de ontem e de hoje. O prédio, por mais treinamentos que faça, não está preparado para o dia que ocorrer um incêndio de verdade. Eu sei porque nesse de mentira, eu morri queimada.

(Hoje chegamos à conclusão também de que o dia em que morrermos queimados, ninguém nem vai lá buscar nossos corpos, porque às vezes o pessoal da portaria deixa a gente entrar SEM CRACHÁ NENHUM, pela portinha do deficiente físico, então vai ser como se nunca tivéssimos entrado!)

Então, é isso. Pra quem tava enferrujada, até que deu pra tirar as teias de aranha disso aqui um pouquinho. Fiquem com a minha Playlist do Fim do Mundo. Acho de verdade que tinham que fazer um especial de fim de ano do mundo com gravação em DVD de todas essas músicas.

Lado A
Natasha (Capital Inicial)- Imagino muito a galera se acabando hoje no show do Capital aos versos de “O mundo vai acabar, ela só quer dançaaaar”.
Dançando (Agridoce) – “O mundo acaba hoje e eu estarei dançando...” – Alguém duvida que o eu-lírico dessa música é a própria Ana Paula que virou Natasha?
Um Minuto para o Fim do Mundo (CPM 22) – “Um minuto para o fim do mundo, toda a sua vida em sessenta segundos, uma volta no ponteiro do relógio pra dizer”. Porque tocava direto na Rádio Cidade, antes dela acabar (e voltar agora). Porque me lembra que 2006 foi um ano muito legal. De acordo com a observação da minha irmã, o 2º verso do refrão não acrescenta em nada, mas eu acho que discordo. Acho que e ainda ensinam quantos segundos tem num minuto inteiro.

Lado B 
It's the End of The World as We Know it (REM) – Narrando o fim do mundo. E nenhum pouco deprimido com isso.
Closing Time (Somesonic) – Porque a letra lembra Fim do Mundo e tem aquela cena bacana do flashmob de Amizade Colorida.
4 Minutes (Madonna ft. Justin Timberlake) – Porque Madonna nos lembra que por mais que o tempo passe, ela ainda consegue fazer como poucos uma música dançante legal dessas em 4 minutos.
O último dia (Paulinho Moska) – “Meu amor/O que você faria se só te restasse um dia?/Se o mundo fosse acabar/Me diz o que você faria?”
E pra encerrar...
E o mundo não se acabou – Aí a pessoa fez tudo o que o Paulinho Moska falou que ia fazer mesmo. Só que o mundo não acabou e aí, né...

Agora se liga. A música foi originalmente gravada pela Carmen Miranda. Pra você ver como esse papo de fim do mundo é antigo.

Não vou desejar Feliz Natal porque amanhã só vão ter sobrado as baratas mesmo pretendo fazer um outro post até lá, pra compensar o tempo perdido.
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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Resposta mais ou menos Certa


Pergunta: Qual o nome do programa apresentado por Silvio Santos no final da década de 90 em que os candidatos respondiam a perguntas dos mais diversos assuntos e podiam chegar ao prêmio final de 1 milhão de reais em barras de ouro (que valem mais do que dinheiro)?
Resposta: Show do Milhão.

Embora Um Dia seja o mais famoso, Resposta Certa é que é o primeiro romance de David Nicholls. E com esse nome é impossível não associá-lo ao icônico programa de Silvio Santos (acho até que a editora devia se assumir e colocar o bordão do Silvio de uma vez, ao invés de tentar trocar a ordem das palavras como fez). A diferença é que no Desafio Universitário do livro, os alunos não são meros coadjuvantes e são eles que devem responder às perguntas, de modo que não podem ficar se esquivando: “Estou em dúvida, Silvio. Prefiro não opinar”, como no Show do Milhão, em que 3 estudantes universitários prestavam um verdadeiro deserviço ao participante quando este lhe pedia ajuda.

Na época, ainda no primário, achava um absurdo estudantes do curso superior, a nata da nossa sociedade, não saberem assuntos tão básicos que até um aluno da quinta série seria capaz de responder (mas esse aí já é outro programa do Silvio!). Hoje em dia, já egressa do ensino superior, até tenho um pouco de pena dos caras que iam no Show do Milhão, afinal, coitados, ninguém é obrigado a saber tudo, nem da própria área, que dirá de conhecimentos gerais. O que não exime alguns “universiotários” da vergonha que rendiam à classe no programa.

Pergunta: Na Rede Globo, a faixa da programação dedicada aos filmes no período vespertino se chama Sessão da Tarde. O SBT possuía uma programação parecida, sempre com filmes que passavam “pela primeira vez na televisão”. Ela se chamava...
Resposta: Cinema em Casa.

Mas, como ia dizendo, no tal Desafio Universitário os participantes são os próprios alunos. E o formato com todos aqueles nerds com espinhas, óculos fundo de garrafa, gel no cabelo e suéteres por dentro das calças lembra muito mais o desafio dos matletas de Meninas Malvadas, um dos episódios de Pimentinha e principalmente, um clássico do Cinema em Casa que eu só vi uma vez, mas nunca mais esqueci: O Computador de Tênis. Se liga na crocância da sinopse do filme:

Quando vai consertar o computador, o estudante universitário abaixo da média Dexter Riley toma um choque e todo o conteúdo da memória da máquina é transferido para seu cérebro. Por causa de seu novo conhecimento adquirido, ele compete num game show com várias faculdades, onde rouba todos os pontos. O geniozinho da outra universidade descobre sobre a fraude e faz de tudo para desacreditar Dexter.

Se o filme já era legal (e absurdo!) há 15 anos, imagina agora que aquela tecnologia já está completamente obsoleta! E eu sei que eu não devia contar o final (até porque eu nem lembro direito se o time do garoto ganha ou não), mas o menino perde os "poderes” quando lhe passam vírus via telefone público, com direito aquele barulhinho de internet discada!!!!! Como não amar???? Sério, assistam o filme! (O original é de 1969, mas o que eu vi era o remake de 1995)

Pergunta: Como se chama o rearranjo das letras de uma palavra ou frase para produzir outras palavras, utilizando todas as letras originais exatamente uma vez?
Resposta: Anagrama.

Brian (talvez um anagrama de brain – cérebro in ingrish) Jackson é um garoto de origem humilde. A primeira geração de sua família que consegue chegar à faculdade. Seus melhores amigos trabalham respectivamente num posto de gasolina e numa loja de eletrônicos e não parecem ter maiores perspectivas de vida. Perdeu seu pai ainda menino, mas quando este ainda era vivo, assistia o tal game show com seu velho, mais errando do que acertando as perguntas. Ele sempre sonhou com o dia em que sairia de casa rumo à universidade, o lugar onde finalmente encontraria gente culta e inteligente, capaz de entender todo o seu “refinamento cultural”.

Acontece que Brian Jackson é um mané. É inteligente, mas não é genial. É o típico nerd de raiz com espinhas no rosto e que não faz a mínima noção de como se comportar socialmente. Fala demais. Mete os pés pelas mãos. Se deslumbra muito fácil com o ambiente onde está e com as pessoas com quem conversa e não percebe que elas não estão rindo com ele e sim da cara dele. Em certos momentos, a voz do personagem me lembrou muito um amigo que é tão Brian que tem carrega consigo até os dad issues. Só que um pouco menos mané.

(Eu não ia falar que o amigo era o Felipe, porque achei que ele ia ficar chateado, mas, enquanto escrevia, sem querer li uma que falava que era, e tenho certeza de que o Felipe seria sincero o suficiente para se enxergar no Brian quando lesse este livro. Então, agora já foi.)

Logo no primeiro dia de faculdade Brian se apaixona perdidamente por Alice. A garota mais linda da faculdade e que nunca, jamais daria bola para um cara como ele. E não dá. Só que calha de Alice se inscrever no tal Desafio Universitário, e por um acúmulo de circunstâncias regidas mais por educação do que qualquer outra coisa, ela acaba trocando mais do que duas palavras com ele, e Brian (sem noção como é) não entende os sinais que estão mais do que na cara.


Alice é uma vaca! E não quer nada com ele!

Tipo Brian e Alice

Pergunta: Starter for Ten é uma das rodadas do programa University Challenge e dá nome ao primeiro romance de David Nicholls. Como o quiz show não é muito conhecido nos EUA, lhe foi dado o título de...
Resposta: A Question of Atrraction.

Histórias com competições embutidas sempre rendem bons momentos. Quiz Shows então, nem se fala! Se bem aproveitados, levam até o Oscar para casa. Não é o caso aqui. Nicholls desperdiça o trunfo das histórias de quiz show e os personagens só chegam ao estúdio de TV praticamente no final, somente no clímax do livro, de modo que o título dos EUA se torna muito mais adequado para descrever a história que foca muito mais no desenvolvimento romântico do protagonista do que no tal programa de perguntas e respostas.

Porque no fundo, no fundo, Resposta Certa é um YA encorpado. Uma história com uma estrutura muito parecida com os roteiros de séries de TV ou filmes de comédia romântica, com direito a Rebecca aparecendo toda hora sem motivo aparente, o protagonista meio abobalhado que não enxerga o que está bem debaixo do seu nariz, tenta ser quem não é e briga com o melhor amigo. 

O livro cresce quando toca em assuntos como a saída de casa, a pseudo-independência e a preocupação com o futuro. Mas Nicholls se deixa levar pela fórmula do boy meets girl e perde a oportunidade de tocar verdadeiramente o leitor. E o problema maior é que ele não deve ser muito bom de matemática porque errou nos cálculos da fórmula mais manjada de todas.

Devo dizer que depois do incidente do ano novo, achei que aquilo seria a gota d’água na relação dos dois e por mais sem noção que fosse o protagonista, qualquer pessoa com um mínimo de dignidade não a procuraria nunca mais. Mas a gente ainda não tinha chegado nem na metade do livro e esse tipo de reviravolta geralmente só vê da metade pro final. E Alice foi lá e pediu desculpas. E aí a gente voltou exatamente onde estava antes. E essas 30 ou 40 páginas no meio fizeram falta no final, que foi abrupto demais.

Ficou faltando o ato final da comédia romântica em que o mocinho conserta tudo com um grande ato de heroísmo. Ficou faltando a parte em que Brian iria à forra e se vingaria de Alice. E ficou faltando ao livro dizer a que veio de verdade.

A predileção de Nicholls pela elipse, que é o charme de Um Dia, aqui até que dá um ar engraçadinho de dúvida no fim, mas também deixa um gosto agridoce na boca, num livro que não precisava desse tipo de artifício àquela altura do campeonato.

Talvez o tal Desafio Universitário do livro não seja o game show e sim a sobrevivência aos atrativos da vida universitária. Mas a impressão que dá mesmo é que Resposta Certa é o Um Dia que deu errado.

Pergunta: Qual o nome do jogo de tabuleiro em que dois ou mais jogadores procuram marcar pontos formando palavras interligadas, usando pedras com letras num quadro dividido em 225 casas?
Resposta: Scrabble.

Certa vez li em algum lugar que Um Dia era o romance definitivo enquanto Resposta Certa era o rascunho. Quem escreveu essa sentença não poderia ter sido mais feliz porque após ter lido Resposta Certa, também fiquei com a sensação de que, desde aquele tempo, Um Dia era o livro que Nicholls queria escrever. 

De certa forma, Resposta Certa pode ser lido como um prenúncio de Um Dia. Há diversas cenas que são verdadeiros deja vus para quem já leu este último antes. Ontem assisti ao filme novamente e notei até mais coisas do que já tinha notado durante a leitura. Estão lá: os amigos que viajam juntos e tentam dividir o quarto, a discussão política sempre citando os fascistas, a exaltação da nostalgia de tempos idos, o Scrabble, o encontro romântico hiper-desconfortável com uma visível preocupação com o valor da conta, a visita constrangedora à casa dos pais excêntricos e esnobes...

Sem contar algumas digressões, o subtexto sobre presente, passado e futuro que às vezes aparece e a óbvia personalidade dos personagens principais.

Também tipo Brian e Alice, só que direitos

Emma é uma mistura de Brian* (tímido, inteligente, humilde, amante das artes e da poesia, quer ser escritor no futuro) com Rebecca (reacionária, sarcástica, esperta, nunca deixa uma contestação sem resposta). Ambos alimentadores de paixões por pessoas que não lhe dão o devido valor. Já Dexter é exatamente como Alice. Baladeiro, com um passado sexual recheado, rico, egoísta e arrogante.
* Acho que vale dizer que as tentativas de Brian de ser engraçadinho também lembram Ian, o comediante frustrado de Um Dia.

Se não fosse Rebecca, eu diria que Um Dia era a história de Brian e Alice com gêneros trocados alguns anos mais tarde. Se vocês não considerassem sexista, eu diria até que os gêneros trocados é um dos motivos pelos quais Um Dia funciona e Resposta Certa não. Se eu tivesse gostado mais do livro, diria que Um Dia era um livro escrito por Brian, depois que acabou a faculdade. Mas não é o caso.

Se serve de consolo, como esse romance veio antes, talvez Nicholls ainda não soubesse como escrever a história que tanto queria.

Pergunta bônus: Qual o símbolo gráfico utilizado para marcar o início da fala de um personagem?
Resposta: Travessão.

Aqui um puxão de orelha na Intríseca, que podia ter atentado mais às revisões e deixou escapar vários travessões voadores no início de parágrafos que não eram diálogos. Geralmente não implico com esses erros de revisão, mas quando a coisa influencia na sua percepção de leitura, ou quando são muito graves e recorrentes como foi essa história do travessão, minha paciência diminui consideravelmente. Quando se trata de uma editora de grande porte e de um livro que já foi lançado há quase 10 anos e podia ter esperado mais dois meses para sair mais perfeitinho então...

Pergunta final: Qual a fórmula da satisfação?
Resposta: Satisfação é igual a Expectativa menos Percepção.


Resposta Certa erra na fórmula da comédia romântica e peca por não aproveitar mais o jogo de perguntas e respostas, o que não quer dizer que seja ruim. O estilo do escritor ainda está lá e sua narrativa continua deliciosa. O romance tem personagens para amar e odiar, diálogos adoráveis e momentos que deixam você com o coração na boca. Tenho certeza que se o livro fosse de outro autor teria gostado muito mais. Mas o negócio é que Um Dia é um dos meus livros favoritos de todos os tempos e eu esperava muito mais desse aqui. E quem já comeu caviar não quer saber de ovo frito.

PS. Tem um filme também e que Nicholls também roteirizou. Pode ser que o filme fique até melhor que o livro porque a película tem James McAvoy no elenco. E James MacAvoy é amor.


s2.
Só isso.


PS2. Assisti o filme, e infelizmente, a película padece dos mesmos problemas do livro. Parece uma história perdida, que não sabe aonde quer chegar. Algumas mudanças na ordem e nos autores dos acontecimentos até tornam a trama mais interessante, e Nicholls quase conserta a parte da ausência do ato final de redenção do mocinho. James MacAvoy faz um Brian adorável, mas, bom, é só isso.
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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Um tapa no tempo


Certa vez, há muito tempo, eu devia ter uns 15 anos, observava as crianças do primário descendo para o recreio. A gurizada corria, brincava de pique-pega, se esforçava para serem os primeiros na fila do totó e do pingue-pongue (para desespero das tias, que se descabelavam com a possibilidade de alguém se estrepar no chão e quebrar um dente). Os alunos também compartilhavam o lanchinho na mesa e o recreio acontecia como deveria acontecer. 

Prestei atenção especialmente nas meninas, que deviam ter entre 8 e 9 anos. Reparei como, ao contrário do que a mídia e o resto do mundo parecem tentar nos convencer, eram crianças que se comportavam como crianças, e também corriam pelo pátio como os garotos, sem nenhum tipo de frescura. E daí que eles são meninos? E daí que eu vou sujar a roupa? E daí se eu esbarrar nessa mesa que está no meio do caminho e derrubar tudo? A inocência daquelas crianças me surpreendeu. A infância não estava perdida afinal de contas e a hora do recreio ainda continuava exatamente do mesmo jeito.

No entanto, ao mesmo tempo em fiquei feliz com a constatação, invejei aquelas crianças por não fazerem ideia de que aquele tipo de comportamento não seria mais possível nos anos que se seguiriam. E não porque correr no pátio seria proibido. Isso aí sempre foi e elas continuavam correndo mesmo assim! Mas sim porque dentro de 3 a 5 anos tudo ia mudar, a começar por elas mesmas. 

E aí fiquei triste por perceber que passado esse tempo, as meninas se tornariam patricinhas incorrigíveis que nem de longe lembravam as “levadas da breca” que eu via ali no recreio do primário. Elas iam parar de correr atrás dos meninos (ou melhor, iam começar a correr atrás no sentido figurado), e iam ficar frescas e não iam mais querer sujar o uniforme na hora do recreio, e iam ficar chatas e começar a desprezar as outras coleguinhas por motivos diversos, e se esquecer que um dia foram melhores amigas com quem compartilhavam o lanche trazido de casa (porque nessa época as meninas também não querem trazer o lanche de casa e comprar na cantina parece muito mais descolado). 

Não é exatamente culpa delas. Simplesmente acontece. É culpa do tempo que muda tudo sem pedir permissão. Inclusive a gente. 

Mesmo assim, não pude deixar de ficar chateada com a visão do futuro que tive de meninas legais virando pré-adolescentes chatas.

Atualmente, vira e mexe eu observo situações parecidas na hora do almoço. Só que ao invés de invejar crianças de 8 anos, fico prestando atenção aos adolescentes uniformizados andando pela rua (ou pelo shopping) e almoçando em bando. Observo seus visuais, hm, diferentes, e principalmente presto atenção em como eles escolhem os lugares mais baratos para comer, como trabalham em grupo para conseguirem mesa, como reclamam dos professores, como se comunicam ao telefone (“Porque se ela ficasse com o Jake ia ser, tipo, muito idiota!”), como riem alto sem vergonha nenhuma de ser feliz, etc.


Também os observo na hora de pegar o ônibus para ir para casa, torcendo para o motorista parar. E se pego o mesmo ônibus que eles, sinto como se tivesse ajudado aquele povo todo na volta pra casa (afinal, talvez sem um pagante no ponto, o motorista não parasse). E depois que eles entram, presto atenção em como continuam as conversas num volume de alto a normal como se não houvesse mais ninguém dentro do transporte.

Gosto de ver como são cheios de sonhos e como sua feições são desprovidas de preocupação. Gosto de reparar que aquilo que lhes aflige é se vão conseguir passar na prova de matemática ou se a Tati terminou com o Bruno mesmo ou se a Bella devia ficar com o Edward ou com Jacob.

E me vejo ali na pele daqueles estudantes, do mesmo jeito que me vi nas meninas de 8 anos correndo pelo pátio. E os invejo por poderem usar aquele uniforme azul com tênis All Star. E tenho vontade de me meter nas conversas e avisar: “Vocês não têm noção de como o tempo passa rápido e como são privilegiados! Aproveitem bem porque um dia vocês também vão sentir falta disso tudo aí”. Ao invés disso, só rio com paixão dos “tipos” encaixados nas frases.

Porque percebo que dali a alguns anos eles também vão mudar. Vão deixar de ser jovens descolados e despreocupados para serem profissionais que usam roupa social e olheiras debaixo dos olhos por causa das noites mal-dormidas e dos prazos de entrega. Vão se tornar pessoas que só pensam em dinheiro e que se acabam de beber no fim de semana como forma de aliviar as mágoas. Não vão mais ter tempo para encontrar com os amigos e nem vão ficar sabendo que a Tati e Beto eles estão morando junto há mais de um ano. Se ainda gostar de ler, estará com um volume de Cinqüenta Tons de Cinza, tentando entender o que todo mundo viu nesse livro, só pra ter o que comentar com gente de quem nem gosta de verdade.


E aí aconteceu de esses dias uma de nossas amigas se casar. E esse tipo de ocasião é legal porque junta todo mundo de novo. E a gente percebe que embora o tempo tenha passado, no fundo, ainda somos as mesmas pessoas. Sim, agora muitos de nós têm carteira de motorista (tá legal, não tantos assim). Sim, agora temos nosso próprio dinheiro e não precisamos mais necessariamente escolher o lugar mais barato para comer. Sim, estamos com roupas diferentes. Alguns de nós até filhos já têm. Mas ao mesmo tempo nos reconhecemos naqueles adolescentes de uniforme que sofriam para pegar ônibus, e rimos das mesmas piadas e conversamos como se nenhum tempo algum tivesse passado. 

Conversamos sobre o primeiro casamento do grupo (e como foi preciso alguém CASAR pra conseguir reunir todo mundo de novo - e ainda ficou faltando gente!) e sobre quem seriam os próximos a subirem ao altar e como seriam nossos próprios casamentos se/quando eles acontecessem.

E brincamos de apertar o botão do The Voice na hora em que um cara cantava em homenagem ao casal e fizemos comentários a la Dança dos Famosos no meio da primeira dança dos noivos, entre outras bobildices.

(Porque somos esse tipo de gente que não consegue ficar sem fazer piada nem nos momentos mais sérios. E se estivermos quietos, respeitando o momento, tenha certeza que estamos rindo por dentro de alguma coisa. E a gente não precisa fingir ou ficar pensando no que os outros vão pensar antes de falar. Aliás, a gente não precisa nem falar nada. Porque antes de falar, a gente já sabe o que o outro está pensando. Uma técnica de pensamento via Bluetooth, digamos assim)

A gente se completa e vai complementando os comentários uns dos outros de um jeito que nenhuma gracinha fica sem réplica. Tudo parecia um pouco como um episódio de Friends, com direito a pérolas espontâneas da nossa querida Carol-Phoebe como “Peguei Sprite, mas era água”. (Hahahahahahahaha!), entre muitos outros momentos inesquecíveis que só a Carol consegue proporcionar.

E de repente nossas maiores preocupações eram somente as de aproveitar ao máximo aquele momento, como tivéssemos 17 outra vez. Não queríamos saber da hora mesmo sabendo que passava da meia-noite e talvez nossos ônibus já tivessem virado abóboras (o que nos lembra A Fatídica Piada da Cinderela!). 

Apenas as pessoas mais legais do mundo

E eu me senti como se tivéssemos dado um tapa no tempo. Esse mesmo tempo que simplesmente acontece e muda tudo sem pedir permissão, inclusive a gente.

Porque naquela noite a única urgência que tínhamos era a de aproveitar que somos jovens. Nada mais.
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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Babás e babacas


- Fulano, não pega esse telefone. A atendente não vai resolver o seu problema. Ela também não sabe a resposta.
- Não levanta a mão pra pedir a folha do professor! Se ele te der a dele, como é que você acha que ele vai dar aula? As pessoas vão rir de você.
- Mas você vai tomar energético? Você não tem problema de pressão alta? Você quer morrer?
- Você não tinha gastrite? Como é que fica tomando refrigerante, se entupindo de doce, comendo besteira no Mc Donalds?
- Vai tomar café na hora de dormir, depois reclama que fica com insônia!

- Como assim você não tomou o seu remédio? Sério, Fulano, você precisa se cuidar!

Outro dia comentava aqui sobre as vantagens e desvantagens de ser “de maior”. Como em certos momentos sentia como se nada disso tivesse efeito e a independência fosse apenas um falso status conquistado pelo simples fato de o tempo passar. Eu até posso ter minha dose de comportamento infantil (como assistir desenho, adorar os filmes da Disney, cantarolar as músicas no dia-a-dia como se fosse o hit número 1 das rádios), mas acho que já tem um tempinho que não me considero mais criança. Não preciso que segurem mais a minha mão para atravessar a rua e acho que resolvo meus próprios problemas sozinha na medida do possível. Até porque já aprendi que resolver sozinho dá menos trabalho e menos estresse do que envolver outras pessoas.

Mas, de vez em quando, encontro gente mais velha que eu que parece que não amadureceu nada e ainda se comporta como criança. E me obriga a ser chata, ficar bancando a responsável, fazendo papel de babá. Essas pessoas não entendem que elas também já entraram no mundo dos adultos e que ele é cruel, muito cruel. E se você não ficar ligado, o mundo vai te engolir, te bater, te pisotear, te ridicularizar, sem dó nem piedade. Elas não entendem que se elas não cuidarem de si mesmas, ninguém mais vai cuidar! Abusam da boa vontade alheia até se estreparem feio. E por mais que sejam elas que passem vergonha, quem se sente uma babaca sou eu.

Detesto ser a pessoa mais responsável do recinto. E acho que não tenho a menor vocação para ser babá. Principalmente de quem já está bem grandinho pra tomar conta do próprio nariz. Mas também detesto ver pessoas com as quais me importo sofrerem nas mãos do mundo. Aí fico sendo chata por me importar demais. E aí tenho que ouvir aquela mesma resposta de criança mimada: "Você não manda em mim!".

Dá vontade de você mesmo dar uns tabefes e impedir que ela faça besteira. Mas esse é um direito que só é reservado às mães, não às babás. Então só me resta falar. Falar inutilmente, já que a pessoa só aprende a lição da pior forma possível.

E quando isso acontece, tudo o que eu posso dizer é o famoso: “Eu te disse”. A frase é a síntese do orgulho contido por todos os conselhos não escutados. Mas a verdade é que eu preferia não ter de dizer nada disso. Queria pedir demissão desse cargo ingrato e arrumar uma babá pra mim.
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