sábado, 3 de outubro de 2009

Hipocrisia FM

Nesse ano, a carreira de Wanessa Camargo deu uma virada. Depois de deixá-la sob o comando do empresário e marido Marcus Buaiz, Wanessa deixou para trás o penteado Branca de Neve que vinha usando e o sobrenome da família, que, além de exaltar a relação que tem com o gênero sertanejo, rendia abreviações maldosas como Waca e WC.

Antes

Agora a neta de Francisco é só Wanessa, adota um visual meio rebelde com os cabelos loiros e ondulados e faz dueto com o rapper Ja Rule.

Segundo Buaiz, a carreira da esposa era mal-gerenciada, e a mudança se deu porque, depois de algumas reuniões, ele e a mulher chegaram à conclusão de que, apesar de quase 10 anos na estrada, Wanessa não conseguia tocar em rádios pop e por isso não fazia o sucesso esperado. O marido ainda acrescentou que não gostava da música que Wanessa fazia antes e que o trabalho era mal-feito (engraçado que quando eles se casaram ele era só elogios à cantora e dizia que adorava seus shows :-S).

Deixando de lado essa última parte, não vou entrar no mérito se a música de Wanessa é boa ou ruim, ou se ela casou mesmo com o cara certo. Concentremo-nos na estratégia de marketing brilhante traçada pelo genro de Zezé (é verdade que eles não estão se falando mais? Okay, Okay, Veeejam!).

- Novo nome artístico. Confere.
Normal querer se afastar da imagem do pai que usa calças apertadinhas. Apesar de achar que todo mundo ainda vai continuar chamando-a de Wanessa Camargo.
- Visual ousado. Confere
Também super-normal. Junto com o disco novo, o artista geralmente renova o guarda-roupa e repagina o look para ajudar na construção do conceito do álbum. Não é nenhum pecado.
- Música em inglês e Dueto com rapper
Opa! Opa! Opa! Desde quando Wanessa faz a linha Fergalicious? E por que ela tem que cantar em outro idioma?

Depois

A resposta é simples e está ali no 3º parágrafo. Porque ela quer fazer sucesso.

Eu poderia dar uma de chata e crucificar a menina porque ela vendeu a alma e o que importa é você fazer o tipo de música sincera com você mesmo, porque eu realmente penso isso, mas a questão que eu quero abordar aqui é outra.

Wanessinha quer fazer sucesso. Normal. Todo mundo quer. Agora, para fazer sucesso e tocar nas rádios pop do Brasil, ela se viu praticamente obrigada a apelar para a fórmula música-em-inglês + dueto-com-rapper porque É SÓ ISSO QUE TOCA NAS RÁDIOS DA MODA DO BRASIL!!!!! *
* Por rádios da moda, leia-se: Transamérica, Mix, Jovem Pan e afins. 98, Nativa e FM O Dia não é rádio pop. É rádio pobre. Nessas daí toca de tudo: funk, pagode, calypso, forró... Não é à toa que Wanessa quer deixar de ter sua imagem veiculada a esse tipo de rádio. Para efeitos de leitura, chamarei as rádios POP de Hipocrisia FM, e já, já, você vai entender porque.

Se você for um artista pop brasileiro que canta em português e não tiver jabá, não adianta o seu pai ligar para a rádio 100 vezes por dia para pedir a sua música. NÃO VAI TOCAR!

O próprio dono da Jovem Pan já admitiu em entrevista que aceita jabá para tocar a música de muita gente e que na rádio dele tem certas coisas que nem com jabá tocam.

Mas eu tenho lá minhas dúvidas se ele barra as músicas com base na sua opinião musical descolada ou puramente pelo idioma no qual a canção é executada.

Só na tecla SAP

Wanessa ex-Camargo é só o exemplo mais recente. Em seu idioma materno, só era ouvida nas rádios ‘pobre’. Bastou fazer parceria com Ja Rule, pronto! 1º lugar na Hipocrisia FM e 1 milhão de acessos no YouTube! E olha que esse Ja Rule nem é tão referência assim! Emplacou uma ou duas músicas naquela trilha sonora da Malhação que tinha o Cabeção na capa e só, praticamente.

E se a desculpa aqui poderia ser a de que a Wanessa agora está mais moderninha, é só olhar os próximos exemplos para ver que o problema é o idioma.

Na última década, Shakira tem lançado duas versões de seus discos. Um espanhol para a América Latina e um com praticamente as mesmas músicas, só que em inglês para o mercado americano. Adivinha só qual das versões é a que toca no Brasil? Sim, aqui só tocam as músicas em inglês.

Sandy e Junior e RBD, que são, quer dizer, que eram artistas de dar vergonha alheia aos ouvintes descolados da Hipocrisia FM, também alcançaram o topo das paradas com Love Never Fails - a música mais tocada de 2002, e 1º lugar no Clipemania naquele ano (ô, saudades do Clipemania!) e Tu Amor - que também é em ingrish, apesar do título hispânico. Ambas as canções eram destinadas a carreira internacional dos então ídolos adolescentes.

E você olha só como as coisas são engraçadas: se fosse por afinidade na hora da pronúncia, a versão que deveria tocar era a em espanhol. Mas não! Esse pessoal está tão ‘the book is on the table’ que prefere enrolar a língua e não entender bulhufas do que está cantando.

Ou será que é exatamente por isso que tem tanta música ruim tocando no idioma do Tio Sam em detrimento das línguas latinas? Porque as pessoas não entendem o que estão cantando, caso contrário perceberiam a bobajada que são a maioria das letras derivadas do idioma anglo-saxônico? É uma teoria...

Agora se liga só: Quando eu dei o exemplo da Shakira e dos outros ali em cima, a maioria deles só gravaram em outro idioma para divulgar seu trabalho em território internacional porque se eles cantassem em sua língua nativa por lá, os estadunidenses não iam dar nem bola. É, eles fazem questão de saber o que estão cantando, ao contrário de nós!

E eu até hoje não entendo como a Marina Elali tocava nessas rádios com aquele remix horrendo de One Last Cry. Ô musiquinha vagabunda! Duvido que se ela se chamasse Um último choro ia fazer aquele sucesso todo. (Aliás, a Marina Elali é um caso a ser estudado. Por que é que essa criatura insiste em gravar forró em inglês?).

No mínimo incoerente esses programadores de rádio.

A rádio e o gado musical

O pior é saber que essa incoerência não é só dos donos das rádios. É das pessoas que ouvem também. Porque bastou tocar na Hipocrisia FM para virar sucesso. Não importa se a música é ruim, se o artista é brega ou se a letra é idiota. Tocou lá, toda aquela galera que ouve vai achar que é maneeeeiiiro (by Newt). Também pudera. Com a aquela canção tocando 100 mil vezes ao dia, tem uma hora que mesmo que você ache ruim, vai começar a gostar.

Por isso eu não suporto essas rádios jovens. Eu não gosto de rap e 80% do que toca lá É rap. E toca a mesma música 100x por dia. Com trocentos comerciais. Definitivamente, eu não tenho paciência.

E a rádio aliena tão bem seu gado musical que não é difícil você encontrar seus ouvintes por aí dissertando sobre como RBD em inglês é legal, mas em espanhol é uma droga. Mesmo que seja o mesmo estilo, ou as mesmas músicas. Ou pior, alguns desses seres chegam mais longe ao dizerem que “só gostam de música em inglês”!

O que é isso minha gente? Tudo bem curtir a cultura de outros países, agora se limitar a dos outros, ou melhor, a de um único, não é globalização não. É subserviência! O tempo da colonização e da ditadura já acabou!

E eu digo isso como fã de Jamie Cullum, mas que também gosta do Jota Quest e torce muito pro Juanes, simplesmente o maior vencedor de Grammy’s Latino de todos os tempos, vir ao Brasil. (Sim, todos eles começam com J. E o legal é que o J tem uma pronúncia diferente para cada idioma). Deu pra entender aonde eu quero chegar?

Liberte-se

O que eu estou querendo dizer é o seguinte:

1. As rádios são hipócritas
Se a Marina Elali cantar “Xote das Meninas” em inglês e o Calypso lançar um single de Accelerated (e eles fizeram isso mesmo!), as rádios pop vão tocar, só porque está na língua do Obama. (Ok, eu exagerei um pouco aqui, mas o pensamento é por esse caminho).

2. As rádios fazem lavagem cerebral nos ouvintes
Como todo meio de comunicação de massa, elas têm um papel muito grande na hora de ditar qual é a banda da moda e qual não é. Além de influenciar o jeito das pessoas pensarem. Só que, muitas vezes, elas acabam contribuindo para aumentar esse complexo de vira-lata do brasileiro de achar que tudo o que é de fora, inclusive as palavras, são melhores.

Eu, particularmente, acho as línguas latinas muito mais bonitas. As rimas em inglês são sempre as mesmas.
Vamos fazer uma brincadeira com as rimas mais comuns. Encontre a palavra estranha:
- you, do, too, blue, flu, new, true…
- by, bye, my, fly, eye, cry, shy, fry…
- me, be, bee, see, free, sea…
- start, heart, fart.


Aí essa política importadora de palavras obriga artistas como a Wanessa (agora sem Camargo) a gravar com o mala do Ja Rule se quiserem um pouco de atenção da mídia.

Só que a era da ditadura já acabou! A globalização está aí e os iranianos usam o YouTube e o Twitter para fazer notícia, mesmo com a opressão do governo.

Escolha suas próprias músicas. A Internet esta aí pra isso!

Aliás, essa é uma das principais utilidades do MPx (está em que número agora?): libertar as pessoas das prisões auditivas da Hipocrisia FM.


Vem aí o novo método de tortura chinesa:

Suuuuucesso!

Chega! Viva la revolución!

Edit: Imagina só se a moda pega e todos os artistas do Brasil resolvem fazer seus discos em inglês agora?

3 comentários:

  1. Perfeito esse post.
    Exatamente tuuuuudo que eu penso das rádios! Lavagem cerebral total!
    Beijos.

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  2. huahuahuahuhuahuauha
    Mto bom esse post! Tava com saudade de ler algo não relacionado à meg cabot e suas criações no inútil nostalgia. :p
    Ri mto com o video do calypso!
    bjos :*

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