Era uma vez uma menina que não gostava de livros de fantasia. Mas essa mesma menina era apaixonada por metalinguagem. Certo dia, ela assistiu um filme chamado Coração de Tinta e adorou aquela história de ver os personagens invadindo o mundo real e o escritor abobalhado encontrando suas criaturas.
Mas ela também achou muita inverosimilhança todo aquele estardalhaço atrás de um exemplar de livro lançado em 2003, quando o Brandan Fraser podia muito bem tê-lo encontrado digitalizado na Internet. Além do mais, a história parecia um pouco A História Sem Fim, o qual ela havia visto o filme há muito tempo e só se lembrava vagamente que tinha um dragão da sorte (mais conhecido como um cachorrão voador muito simpático), e que o terceiro filme da franquia tinha o menino de Free Willy com o cabelo arrepiado – ela adorava o garoto de Free Willy, e Free Willy também, obviamente. Mas essa é uma outra história e terá que ser contada em outra ocasião.
Trocando em miúdos, a menina não se lembrava da História Sem Fim, mas lembrava que tinha marcado a sua infância e que uma profª do colégio uma vez havia comentado que esse livro era uma aula de literatura. Naquele dia, a menina encontrou-o no Estante Virtual por apenas 16 pratas, não pensou duas vezes e o comprou.
Muitas vezes tem-se a impressão de que quem manda nas histórias são os autores. Não é. Quem realmente tem o poder sobre elas é o leitor. É ele quem escolhe largar o livro ou levá-lo até o final. É ele quem o imagina do jeito que quiser. E, principalmente, é ele quem o interpreta da maneira que lhe convir e dá o veredicto final se a tal história é boa ou ruim.
Em A História Sem Fim, o leitor (também conhecido como VOCÊ) é representado por um BBB: Bastian Baltasar Bux*. Bastian é um menino gordinho e imaginativo que sofre com o bullying no colégio. Certo dia, Bastian rouba um livro de capa de cobre com duas cobras em forma de círculo, cujo título é A História sem Fim - Pois é, A História sem Fim é livro que VOCÊ está lendo, que contém Bastian, que também o está lendo. Ficou confuso? É isso mesmo. Calma que a gente chega lá. – e como qualquer leitor viciado não consegue largá-lo.
* Atenção para o trocadilho, Bux, Books (livros), sacou?
E assim VOCÊ vai acompanhando as emoções que o livro causou em Bastian (em vermelho) e a história propriamente dita que Bastian está lendo (em verde) até mais ou menos metade do livro.
Em verde: O reino de Fantasia (Calor... Céu azul, verde mar! Vem comigo nesse dia lindo! – Hehe, Brincadeirinha) está sob ameaça. Uma vez que o mundo dos homens passa a não mais praticar a arte de inventar histórias, a cada dia que passa, o reino é tomado pelo Nada. E quem pode salvá-lo é ninguém menos que VOCÊ – o leitor – no caso Bastian – o BBB – que tem de adentrá-lo e impedir que ele o Nada invada toda Fantasia.
E tanto em vermelho quanto em verde, o destaque mesmo é a metalinguagem. É metáfora atrás de metáfora. E cada uma delas desperta um sorriso de canto de boca no leitor esperto. Há as brincadeiras mais simples como a tristeza de Bastian (em vermelho) quando os personagens ficavam tristes (em verde), as discussões que Bastian tinha com o próprio livro, a fome que ele enfrentava porque não conseguia largá-lo... E outras mais ocultas como quando leitor e personagem veem-se através de um espelho. Afinal, quando ocorre a identificação entre os dois não é como se VOCÊ se enxergasse dentro da história?
Apesar de a menina estar gostando do fator metalinguagem do livro, ela não conseguia avançar muito com a leitura (aquelas descrições dos livros de fantasia e a alternância de cores não estavam facilitando). Os dias para ela estavam difíceis e a menina sabia que, se continuasse com o livro, iria descontar seu desgosto nele. Logo chegou um outro livro mais divertido e menos reflexivo e ela largou A História Sem Fim por um tempo.
Acontece que o mundo não iria permitir que a menina desistisse da História Sem Fim assim tão fácil e começou a mandar indiretas para que ela retomasse a leitura. A última frase do livro divertido era justamente uma citação da História Sem Fim. Num outro dia, ela entrou no Twitter, e havia uma recomendação para que se assistisse A História Sem Fim. Ela decidiu obedecer o destino e voltar para o livro.
Como dito anteriormente, até que Bastian entre de vez na História Sem Fim, passam-se quase 200 páginas! E quando Atreiú, o personagem responsável por encontrar o Salvador de Fantasia, volta de mãos abanando encontrar com a Imperatriz Criança e esta diz que ele já o encontrou, e fica com o sentimento de “Mas que palhaçada é essa?”, posso dizer que a sensação foi mútua. A explicação para tal é de que “o leitor precisava de uma história cheia de aventuras para conduzi-lo até ali” e é aceitável. Mas se a Imperatriz Criança dependesse de mim, com essa estratégia aí, o reino de Fantasia teria o mesmo destino do Programa Fantasia do SBT – o limbo.
E mesmo com todas as pistas do que Bastian devia fazer e que era ele mesmo quem devia fazê-lo, o garoto ainda demorou mais um capítulo para tomar vergonha e dar um jeito naquela história. Mas isso aí, eu tenho que dar o braço a torcer, foi legal à beça de se ver. Porque foi justamente nessa parte em que fomos apresentadas ao Velho Sábio que escreve A História Sem Fim (a parte em vermelho e a em verde) e aí o negócio ficou tipo A Origem – a história dentro da história dentro da história... Num looping infinito que faria qualquer programador perder o emprego (ainda bem que era A História Sem Fim, e não Matrix).
E ali onde eu achei que a história ia começar a ficar boa, foi onde ela ficou menos interessante. Narrativamente, ela se tornou mais fácil de acompanhar, embora não tenha sido tão empolgante assim. E metaforicamente, o livro perdeu muito do seu brilho (ou continuou com ele, mas de um jeito diferente e mais sombrio, sem despertar mais o riso de canto de boca do início).
Sim, ainda há a parte em que o leitor, ao entrar na história, pode ser tudo o que quiser e imaginar tudo o que quiser e esquece do mundo real. Mas também fiquei com a impressão de que a metade final da História Sem Fim era mais uma caminhada errante, como muitos livros de fantasia (e eu não gosto dessas coisas de caminhadas errantes).
Aqui ainda pode-se até interpretar esse caminho sem rumo como uma metáfora para mostrar que o leitor não sabe o que fazer quando adquire tanto poder, mas também fica a sensação de que foi muita luta e muita caminhada quando tudo poderia ter sido resolvido umas 100 páginas antes. Faltou clímax e a lição final de que o amor é a chave de tudo, com direito a laguinho mágico passou do limite do piegas (foi mal, depois de Lost eu fiquei traumatizada).
Não é um livro sobre os personagens. É um livro sobre o poder de transformação da leitura, e o destaque, realmente é a metalinguagem. Mas, bom, metalinguagem por metalinguagem, prefiro Mais Estranho que a Ficção. E não é que eu não tenha gostado da leitura. Foi uma experiência interessante. Eu diria até mais, foi uma experiência MUITO interessante. Mas essa é uma outra história e terá de ser contada em outra ocasião...
Epílogo
Mas ela também achou muita inverosimilhança todo aquele estardalhaço atrás de um exemplar de livro lançado em 2003, quando o Brandan Fraser podia muito bem tê-lo encontrado digitalizado na Internet. Além do mais, a história parecia um pouco A História Sem Fim, o qual ela havia visto o filme há muito tempo e só se lembrava vagamente que tinha um dragão da sorte (mais conhecido como um cachorrão voador muito simpático), e que o terceiro filme da franquia tinha o menino de Free Willy com o cabelo arrepiado – ela adorava o garoto de Free Willy, e Free Willy também, obviamente. Mas essa é uma outra história e terá que ser contada em outra ocasião.
Trocando em miúdos, a menina não se lembrava da História Sem Fim, mas lembrava que tinha marcado a sua infância e que uma profª do colégio uma vez havia comentado que esse livro era uma aula de literatura. Naquele dia, a menina encontrou-o no Estante Virtual por apenas 16 pratas, não pensou duas vezes e o comprou.
Muitas vezes tem-se a impressão de que quem manda nas histórias são os autores. Não é. Quem realmente tem o poder sobre elas é o leitor. É ele quem escolhe largar o livro ou levá-lo até o final. É ele quem o imagina do jeito que quiser. E, principalmente, é ele quem o interpreta da maneira que lhe convir e dá o veredicto final se a tal história é boa ou ruim.
Em A História Sem Fim, o leitor (também conhecido como VOCÊ) é representado por um BBB: Bastian Baltasar Bux*. Bastian é um menino gordinho e imaginativo que sofre com o bullying no colégio. Certo dia, Bastian rouba um livro de capa de cobre com duas cobras em forma de círculo, cujo título é A História sem Fim - Pois é, A História sem Fim é livro que VOCÊ está lendo, que contém Bastian, que também o está lendo. Ficou confuso? É isso mesmo. Calma que a gente chega lá. – e como qualquer leitor viciado não consegue largá-lo.
* Atenção para o trocadilho, Bux, Books (livros), sacou?
E assim VOCÊ vai acompanhando as emoções que o livro causou em Bastian (em vermelho) e a história propriamente dita que Bastian está lendo (em verde) até mais ou menos metade do livro.Em verde: O reino de Fantasia (Calor... Céu azul, verde mar! Vem comigo nesse dia lindo! – Hehe, Brincadeirinha) está sob ameaça. Uma vez que o mundo dos homens passa a não mais praticar a arte de inventar histórias, a cada dia que passa, o reino é tomado pelo Nada. E quem pode salvá-lo é ninguém menos que VOCÊ – o leitor – no caso Bastian – o BBB – que tem de adentrá-lo e impedir que ele o Nada invada toda Fantasia.
E tanto em vermelho quanto em verde, o destaque mesmo é a metalinguagem. É metáfora atrás de metáfora. E cada uma delas desperta um sorriso de canto de boca no leitor esperto. Há as brincadeiras mais simples como a tristeza de Bastian (em vermelho) quando os personagens ficavam tristes (em verde), as discussões que Bastian tinha com o próprio livro, a fome que ele enfrentava porque não conseguia largá-lo... E outras mais ocultas como quando leitor e personagem veem-se através de um espelho. Afinal, quando ocorre a identificação entre os dois não é como se VOCÊ se enxergasse dentro da história?
Apesar de a menina estar gostando do fator metalinguagem do livro, ela não conseguia avançar muito com a leitura (aquelas descrições dos livros de fantasia e a alternância de cores não estavam facilitando). Os dias para ela estavam difíceis e a menina sabia que, se continuasse com o livro, iria descontar seu desgosto nele. Logo chegou um outro livro mais divertido e menos reflexivo e ela largou A História Sem Fim por um tempo.
Acontece que o mundo não iria permitir que a menina desistisse da História Sem Fim assim tão fácil e começou a mandar indiretas para que ela retomasse a leitura. A última frase do livro divertido era justamente uma citação da História Sem Fim. Num outro dia, ela entrou no Twitter, e havia uma recomendação para que se assistisse A História Sem Fim. Ela decidiu obedecer o destino e voltar para o livro.
Como dito anteriormente, até que Bastian entre de vez na História Sem Fim, passam-se quase 200 páginas! E quando Atreiú, o personagem responsável por encontrar o Salvador de Fantasia, volta de mãos abanando encontrar com a Imperatriz Criança e esta diz que ele já o encontrou, e fica com o sentimento de “Mas que palhaçada é essa?”, posso dizer que a sensação foi mútua. A explicação para tal é de que “o leitor precisava de uma história cheia de aventuras para conduzi-lo até ali” e é aceitável. Mas se a Imperatriz Criança dependesse de mim, com essa estratégia aí, o reino de Fantasia teria o mesmo destino do Programa Fantasia do SBT – o limbo.
E mesmo com todas as pistas do que Bastian devia fazer e que era ele mesmo quem devia fazê-lo, o garoto ainda demorou mais um capítulo para tomar vergonha e dar um jeito naquela história. Mas isso aí, eu tenho que dar o braço a torcer, foi legal à beça de se ver. Porque foi justamente nessa parte em que fomos apresentadas ao Velho Sábio que escreve A História Sem Fim (a parte em vermelho e a em verde) e aí o negócio ficou tipo A Origem – a história dentro da história dentro da história... Num looping infinito que faria qualquer programador perder o emprego (ainda bem que era A História Sem Fim, e não Matrix).
E ali onde eu achei que a história ia começar a ficar boa, foi onde ela ficou menos interessante. Narrativamente, ela se tornou mais fácil de acompanhar, embora não tenha sido tão empolgante assim. E metaforicamente, o livro perdeu muito do seu brilho (ou continuou com ele, mas de um jeito diferente e mais sombrio, sem despertar mais o riso de canto de boca do início).
Sim, ainda há a parte em que o leitor, ao entrar na história, pode ser tudo o que quiser e imaginar tudo o que quiser e esquece do mundo real. Mas também fiquei com a impressão de que a metade final da História Sem Fim era mais uma caminhada errante, como muitos livros de fantasia (e eu não gosto dessas coisas de caminhadas errantes).
Aqui ainda pode-se até interpretar esse caminho sem rumo como uma metáfora para mostrar que o leitor não sabe o que fazer quando adquire tanto poder, mas também fica a sensação de que foi muita luta e muita caminhada quando tudo poderia ter sido resolvido umas 100 páginas antes. Faltou clímax e a lição final de que o amor é a chave de tudo, com direito a laguinho mágico passou do limite do piegas (foi mal, depois de Lost eu fiquei traumatizada).
Não é um livro sobre os personagens. É um livro sobre o poder de transformação da leitura, e o destaque, realmente é a metalinguagem. Mas, bom, metalinguagem por metalinguagem, prefiro Mais Estranho que a Ficção. E não é que eu não tenha gostado da leitura. Foi uma experiência interessante. Eu diria até mais, foi uma experiência MUITO interessante. Mas essa é uma outra história e terá de ser contada em outra ocasião...Epílogo
Uma das coisas que a menina mais gostou na História sem Fim foi que, ironicamente, ela tem fim. Apesar de existirem 3 filmes (mais sobre isso depois), a História sem Fim, de 1979, é um livro só. E se ele fosse mais atual, ela tem CERTEZA de que ia ser uma série, porque ao final do livro não faltaram pontas soltas. E isso NÃO é um defeito. Foi de propósito. Quer dizer, o nome do negócio A História Sem Fim, não é? Ela só está comentando que dava pra virar série MOLE!
Sobre os filmes, não se baseiem nos mesmos, pois apenas o primeiro respeita o livro. E mesmo assim, só uma parte. De resto é tudo invenção hollywoodiana. (Hollywood não é boba e não ia deixar uma história promissora dessas ficar em um filme só. O chato foi descobrir que aquele filme com o menino de Free Willy não tem nada a ver...). Mas a menina acabou de saber que o Leonardo Di Caprio está pensando em fazer um remake nos próximos anos (ele gostou mesmo desse negócio da história dentro da história dentro da história, hein!). Vamos ver no dá.




