segunda-feira, 17 de junho de 2013

Você está ouvindo o povo cantar?

Na época do colégio, História era uma das minhas matérias preferidas. “A História é a ciência que estuda o passado com o objetivo de entender o presente e tentar analisar o futuro”. Essa foi a definição da matéria na minha primeira aula, com o professor André Batalha (“aquele que quase nunca falha”) e da qual eu nunca mais me esqueci. Com uma boa aula de história é possível formar cidadãos com senso crítico e com maior capacidade de análise e consciência política. 

De todos os assuntos estudados, sem dúvida, a Revolução Francesa sempre foi o meu favorito. Porque a Revolução Francesa é o povo na rua, tomando as armas, cortando a cabeça do rei!


É a mudança de todo um sistema absolutista, a retirada da nobreza do poder, a prova de que quando as pessoas se juntam, as coisas acontecem! São conspirações e revoluções e reviravoltas (ugh!) constantes que alteraram a sociedade ocidental para sempre!

Não à toa, a Revolução Francesa é usada como marco para a transição da Idade Moderna para Idade Contemporânea, essa que a gente vive até hoje.

E isso é maneiro demais não só pra qualquer aluno do ginásio, mas para qualquer um que ainda tenha um pouco de esperança de que o futuro pode ser diferente daquele dito “impossível”.

Mas...depois da Rev. Francesa, a verdade é que a matéria de História fica muito chata. Não sei se porque aquele tempo do fim do séc. XVIII tem uma aura romântica que torna a história mais...hmmmm, atraente. Ou se é porque a partir daí que tudo fica muito mais parecido com aquilo que vivenciamos até hoje e desde então não aconteceu mais nada tão grandioso que colocasse as coisas em outro eixo.

No fim do livro, tinha até um quadrinho comentando sobre como alguns historiadores consideram que, após a queda do muro de Berlim, a História acabou. A humanidade teria atingido sua plenitude na conquista de direitos, o neoliberalismo havia vencido, nada mais iria mudar, ninguém precisaria lutar por nada, tudo ficaria estagnado para sempre. Uma visão bem deprimente, se você quer saber a minha opinião.

Mas, pessoalmente, de uns tempos pra cá, estava quase entrando na teoria desses caras. Parei de acreditar nas passeatas. É muita gente sem saber o real motivo de por que está lá e outras que só o fazem para ganhar visibilidade política para então fazer as mesmas coisas quando alcançarem o poder. Essas mesmas pessoas já não são exemplo pra ninguém como estudantes. Que dirá quando forem políticos? E elas estarem muitas vezes defendendo coisas com as quais eu não concordo não ajuda em nada (Marcha da Maconha, sério mesmo?). Trocando em miúdos, no jargão internáutico, essa galera “não me representa”.

Mas essa semana eu ouvi o povo cantar. E eu me arrepiei. Porque achava que a história tinha morrido.

Não vou porque não tenho coragem. Mas fico feliz que exista gente que tenha o bastante pra ir.

Não dá pra dizer que a causa não é justa. Não são só os 20 centavos. São outros muitos 20 centavos acumulados durante anos sem melhoria na qualidade do serviço. Você acha justo pagar quase 3 reais para andar num ônibus quente e lotado? Você acha certo pagar 5 reais pra pegar uma barca que todo dia dá problema?

Só aceita o discurso de que o aumento já foi inferior ao valor da inflação quem quer. O preço da passagem é caro porque os donos das concessionárias de transporte não querem diminuir suas margens de lucro, altíssimas por sinal. 

Obviamente é um negócio muito lucrativo. Por isso as empresas se estapeiam para ganhar as licitações pelo direito de operar uma linha de ônibus ou outro tipo de transporte. Num sistema de monopólio em que não se renova frota, não se faz manutenção nos equipamentos e em que o recebimento é praticamente todo em dinheiro!!!! Imagina só a liquidez dessas empresas! Na hora de embolsar o lucro do ano eles têm recursos. A SuperVia distribuiu mais de 6 milhões em bônus no ano passado. Mas pra investir no sistema de transporte querem ajuda do governo. Que contrato de concessão vagabundo é esse? Como já diriam nossos avós: “Só querem o ‘Venha Nós’, mas o ‘Vosso Reino’, nada, né!”?

Aí vem o prefeito e diz que o preço é justo desde que toda a frota tenha ar condicionado. E aí eu te pergunto: você acha realmente que esse ar vai funcionar? O do Metrô funciona?

O 003, que faz o percurso Nilópolis-Passeio, custa mais de 6 reais!!!! E por esse preço você assume que seja um transporte de luxo, com poltrona reclinável, e todo o conforto do mundo certo? Errado! É uma frota totalmente sucateada, com carros que não passam por manutenção, o ar condicionado não funciona direito e quando funciona fica pingando nos passageiros. O ônibus, claro, vive lotado, pois só passa a cada meia hora. E não bastasse isso tudo, ainda tem que dar sorte de conseguir fazer a viagem inteira.

Essa semana mesmo eu o peguei e o ônibus simplesmente QUEBROU no meio da Brasil. E eu bem queria dizer que é porque a gente está passando por uma maré de azar desgraçada aqui em casa, mas TODA A VEZ que eu pego esse ônibus, ele quebra no meio da Brasil. (Por isso que evito pegar até). E antes que algum engraçadinho venha dizer que o problema sou eu, outras pessoas, que o pegam com mais freqüência, também reclamam das constantes viagens interrompidas.

Fiquei com muita vontade de pegar um pedaço de pau e acabar de quebrar aquele bando de lata velha. É claro que não o fiz, porque sou covarde. Mas não tiro a razão de quem o faz.

Não são só 20 centavos. É a indignação de uma gente que cansou de ver tanta injustiça e não fazer nada. E agora já é a indignação de uma gente que quer sair para as ruas pelo simples direito que tem de sair às ruas.

Sinceramente, a essa altura do campeonato, fico muito chateada com a pequena minoria que ainda insiste em quebrar tudo, mas não dá pra criminalizar uma pichação num ônibus tendo um governo que gasta milhões na reforma no Maracanã para entregar nas mãos do Eike Batista. E você não vai nem ter a chance de assistir nenhum jogo da seleção lá porque os ingressos são caríssimos e o Brasil só entra no Maracá se for pra final.

Sei que é errado, mas parece que só assim seremos ouvidos.

Quis o destino que aumento da passagem se desse às vésperas do início da Copa das Confederações, evento em que o Brasil já ocuparia as páginas internacionais por causa do esporte, mas agora também começa a chamar atenção pelos conflitos do povo, que atendeu ao apelo não planejado de uma propaganda de automóveis, e foi pra rua.

A mídia quer calar os protestos, o governo tira os sites do ar, a polícia reprime com violência e gente vai presa por ter vinagre na bolsa. 

Que democracia é essa? Democracia Chinesa? Pra que Comissão da Verdade se as ordens que vem de cima são exatamente as mesmas de 50 anos atrás? Vamos implantar uma pra investigar a ação da polícia nessa semana também, então!

A diferença é que naquela época as pessoas não tinham internet. E tendo um pouquinho de boa vontade dá pra acompanhar os outros muitos lados dessa mesma história. Aquilo que os grandes noticiários não publicam, aquilo que só quem estava lá sabe.

Não é de hoje que esse tipo de coisa acontece. Não é hoje que isso vai parar de acontecer. 

E ainda bem que não vai. Porque quando essas coisas acontecem é que eu restauro a minha fé na força do povo. E volto a acreditar que o futuro não precisa ser uma grande repetição de indignações vazias. A História está sendo escrita agora. E quem está com a caneta somos nós.

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E daí que enquanto via os manifestantes em várias de nossas capitais, cantando todos juntos, uma coisa linda demais de se ver, eu lembrei de Os Miseráveis. O filme tem muitos problemas de roteiro, a Cosette é chata pra caramba, são passagens de tempo demais (tipo novelas da Globo), não dá pra entender a motivação dos personagens na maior parte do tempo...

Mas se tem uma coisa que o filme consegue fazer é te emocionar. Os números musicais são de arrepiar! 

Em outro ano, acho até que tinha chances de levar o carequinha pra casa, mesmo com tudo isso aí. (Com tanta coisa ruim levando o Oscar nos últimos anos, por que não Os Miseráveis, que, se tem defeitos óbvios, também possui qualidades inquestionáveis?)

Mesmo sendo um musical, baseado na obra de Vitor Hugo, que já tem mais de 100 anos, Os Miseráveis é tudo isso que a gente está vendo pela televisão (e pelo Twitter, e pelo Thumblr e pelo Facebook, e pelo YouTube) hoje. A injustiça, a pobreza, o povo tomando as ruas, a repressão da polícia, Javert infiltrado ali no meio da multidão, o elefante branco ali no meio dos protestos...

E é impossível não ser arrebatado com o canto de um povo, que começa tímido, mas vai ganhando força, e toma as ruas e o som da orquestra sobe e você não tem outra reação senão levantar o braço e cantar junto!

Tenho certeza de que nosso protesto não é só por causa do aumento da passagem. Desconfio seriamente de que tem alguém com interesses escusos por trás de tudo isso. Sei que no final, mesmo após um eventual triunfo do movimento, os “heróis” da causa se tornarão os “vilões” que tanto criticaram e virarão as costas para o povo que os apoiaram. Como aconteceu no nosso passado recente. Como aconteceu na própria Revolução Francesa.

Mas hoje eu quero sonhar. Quero acreditar que a força de um povo tem o poder de mudar o nosso destino. E mesmo sendo covarde quero sentir a emoção de ouvir o povo cantar.

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E aí nessa de escutar a música do filme, fui olhar nos comentários, que a essa altura já tinha gente do Brasil se manifestando por ali, junto com uma galera apoiando os “companheiros” da Turquia. E nesses comentários da Turquia, achei esse vídeo deles cantando Do You Hear The People Sing? durante o seu próprio protesto, com a segunda metade em turco. Se na ficção já era de arrepiar, "quando a batida do coração ecoa a batida dos tambores" na vida real é impossível não se emocionar.

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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Jamie Cullum para as massas

Na mecânica clássica, Momentum é o produto da massa e da velocidade de um objeto. Por exemplo, um caminhão pesado se movendo rapidamente tem um momento maior - é preciso uma força maior e mais prolongada para levar o caminhão a esta velocidade, e também de uma força maior e mais prolongada pra fazê-lo parar depois. Se o caminhão fosse mais leve, ou se movesse mais devagar, então ele teria menos momento.

Já faz sete anos que eu não aprendi essa matéria na escola e Jamie Cullum virou trilha sonora da minha vida. O ano era 2006, a novela era Belíssima, o single era Mind Trick e Jamie Cullum entrou no meu player para nunca mais sair. 

Hoje o ano é 2013 e muita coisa mudou de lá pra cá. Eu já saí da escola, da faculdade e estou procurando uma pós. Ele já tem mais de 30 (quem diria?), casou e agora é pai de duas crianças*. Mas uma das coisas que continuam as mesmas é a capacidade de Mr. Cullum traduzir em música exatamente os dilemas que estou vivendo.

Jamie Cullum, 33 anos sem pentear o cabelo

O novo álbum de Jamie não tem nada a ver com física (graças a Deus!), mas seu significado passa sim pela definição acadêmica do termo. Momentum traz um repertório com muito mais movimento e com letras sobre essa fase da vida em que se tem um pé na vida adulta e outro na juventude (afinal, é do autor de TwentySomething que estamos falando!) e as coisas ganham pesos, importâncias diferentes. O que só comprova a minha teoria de que Jamie Cullum é trilha sonora PRA VIDA.

Dito tudo isso, é com muito prazer que eu venho aqui registrar que Momentum é tudo o que eu sempre quis num álbum de Jamie Cullum. Mais metais, mais pop, mais músicas originais, menos covers só pra agradar os velhos.

Pela primeira vez, me apaixonei à primeira ouvida por um álbum de Cullum. E olha que eu o amo de todo o coração. Mas nunca tinha gostado tanto de um CD dele assim. De querer ouvir a toda hora. De não se decepcionar com nenhuma música. De ser capaz de ouvir todas as faixas sem passar nenhuma.

Okay, eu não gostei de Love for $ale assim que saiu, mas superado aquele rapzinho safado no final – estou pra encontrar alguém que gostou de verdade daquilo - a versão é muito, muito boa, praticamente outra música e em nada lembra a gravação clássica que Jamie já havia feito lá no início de sua carreira.

Mas, sem dúvidas, é seu melhor trabalho já lançado.

E com um potencial radiofônico para conquistar as massas impressionante! O disco está mais palatável, menos experimental, mais pop. Praticamente todas as músicas poderiam tocar numa rádio eclética sem fazer muito esforço. Já me imaginei cantando várias das músicas ao vivo à toda.

Everything You Didn’t Do é o primeiro single e puxa o disco, dando a vontade de ser feliz e fazer tudo o que você sempre quis. Ainda prefiro a versão gravada para o Festival de São Miguel com versos em espanhol, participações especiais, um rapeado hispânico – aqui sim, muito bem colocado -, mas aprendi a gostar dessa versão solo também. O engraçado é que, apesar de, no fundo serem a mesma música, as duas versões têm diferentes significados e impactos sobre mim. Enquanto a primeira, com partes em espanhol, tem clima de festa, congregação de diferentes línguas, povos, culturas e parece um convite a conquistar o resto do mundo, a segunda, solo, soa como uma alerta de que o tempo passa rápido demais para ser desperdiçado, tendo tanta coisa para se aproveitar.


Save Your Soul, Sad, Sad World e You’re Not the Only One simplesmente me conquistaram de um jeito que até eu me surpreendo às vezes. Talvez sejam as letras tão diretas que falam exatamente aquilo que eu precisava ouvir. Talvez seja o piano ritmado e tão bem casado com o resto da melodia. Talvez sejam os “Oooooooh” libertadores posicionados ali em pleno refrão. A questão é que eu não consigo não cantar sem fechar os olhos bem forte e entoar os versos como se fossem o hino nacional, com a mão no peito e tudo. Pra mim são a trinca coração do disco.

When I Get Famous é puro Jamie, daquelas pra cantar com um sorriso maroto nos lábios, rindo dos outros, rindo de si mesmo, de preferência com uma dancinha improvisada bem ridícula. A falsa introdução dramática, a letra sacana (no bom sentido), o ritmo impossível de ficar parado, o solo de piano moderninho no meio... Se há alguns anos ele anunciava que queria mesmo era ser uma estrela do pop, essa é a hora de jogar na cara de quem um dia o desdenhou! E o que dizer da ironia dos últimos versos “Cause when I'm looking from the top/ You'll all seem smaller/Ain't that what all us humans want?/To stand that little bit taller” vindo de alguém com só 1,64 metros?

Anyway é a delícia de pop escondida na metade do álbum em que absolutamente tudo funciona. Cool na medida certa, com um refrão que vai se infiltrar na sua mente, a música podia até estar num CD no Bruno Mars (esse novo pelo menos), não fosse a letra esperta que não só fala sobre o tempo como reflete um pouco da própria trajetória de Cullum, sempre à procura da batida perfeita, fazendo letras com piadas (vide When I Get Famous) para o terror dos puristas de plantão. Verso matador: “Always remember that the terrorists of time, well they ain't friendly” (e não só porque tem “terroristas” no meio).

Pure Imagination, música do Willy Wonka, composta pelo sogrão do Jamie (veja só, o mesmo de If I ruled the World!), podia ter entrado somente nas bônus e deixado espaço para Momentum (que, afinal de contas, dá nome ao disco. Jamie Cullum é desses...), mas ficou tão legal, que eu nem me esquento.

Completam o time: The Same Things (jazz moderno, Jamie e sua filosofia de bar), Edge of Something com toda a sua pinta de tema de James Bond (profético!), grandiosa a la Skyfall, a animada Take me Out (falando sério, a essa altura da vida, a gente não precisava de uma letra como Take me Out, mas a música é boa) e tão tranquila que parece canção de ninar Get a Hold of Yourself (uma delícia!).

Nas bônus, além da já comentada Momentum (talvez o hino da fase thirtysomething do Jamie), temos  a sonífera Unison (originalmente da Bjork, tinha que ser!) em que Jamie canta sobre como nunca pensou em se comprometer e um cover bacanudo de Comes Love.

Uma das coisas que eu mais admiro em Jamie é a sua capacidade de não se repetir, sem nunca deixar sua verdadeira personalidade. Ele está sempre se desafiando. E nos desafiando. E acrescentando elementos à sua música. (Amo Bublé, mas acho um desperdício que ele se limite a interpretar clássicos e agradar a sua plateia mais idosa, já que eles é que compram os CDs).

Ao mesmo tempo em que está igual, também está diferente. Ao mesmo tempo em que está diferente, está melhor. A intensidade das letras lembram os tempos de TwentySomething, as melodias contagiantes aperfeiçoam o que Catching Tales tinha de melhor. Após The Pursuit, que não tinha exatamente um tema fixo, Momentum vem com um Jamie Cullum falando sobre tempo, idade, sonhos, escolhas e com tudo isso aí, colega, pelo menos, para essa ouvinte daqui, o jogo já estava ganho.

*A única coisa que eu acho que Jamie ficou devendo foi uma música especialmente feita para as filhotas, falei. Mas talvez Momentum seja uma homenagem disfarçada...


Keep going, Mr. Cullum! Keep going!

E já tem 7 anos que eu venho esperando pra ver esse cara ao vivo. E se Jamie Cullum não vem mais à montanha, talvez seja a hora da montanha ir à Jamie Cullum. Quero cantar Save Your Soul com os olhinhos fechados, fazendo air piano. Quero pular sem parar ao som de Mixtape. Quero fazer minha dancinha pra participar do Video Project em When I get famous. Quero ver a corridinha de TwentySomething. Já nem faço mais questão do Mind Trick no set list. Pra você ver como eu gostei desse novo disco.


Imagina eu lá! Sério, Jamie, vem pra cá, garoto!
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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Juventude em Preto e Branco


Sempre que tem feriado e todo mundo tá de folga, o destino de viagem é certo: a casa do vovô. É um lugar mais ou menos no meio do nada, com sabor de chocolate e cheiro de terra molhada, lá pra dentro de Juiz de Fora. Como habitante da cidade, não suportaria viver num lugar assim. Como já comentei em outra ocasião, gosto de estar no meio de onde as coisas acontecem. Mas pra passar só uns dias, a casa do vovô é ótima e sempre nos apresenta situações inusitadas. (Na última vez que fomos lá, no Carnaval, avistamos pela janela um ouriço se equilibrando no fio de luz e um par de filhotes de beija-flor escondidos embaixo da telha.)

A casa do vovô, além do cheiro de terra molhada, também tem um gosto muito peculiar de nostalgia. Parece um lugar meio parado no tempo, em que até tem TV a cabo e computador, mas o PC de lá é de 1999 e já nem entra na internet direito. Enquanto você vai andando pelos cômodos se depara com vitrolas, outras televisões de modelos da época em que não tinha controle remoto, os mesmo móveis de quando a gente era pequena, e retratos, muitos retratos de nós mesmos, tirados anos antes, espalhados por toda a casa.

Além da casa, ir à casa do vovô tem um significado muito especial por motivos de visitá-lo. E existe uma coisa engraçada de conversar com meu avô. E não é somente o fato de ele ser meio surdo e às vezes a gente ter que gritar para que nos escute. (Aliás, queria desenvolver sua habilidade, porque às vezes ele fica escutando tudo e fingindo que não está ouvindo, só pra não se dar ao trabalho de responder.) Mas além disso, é engraçado conversar com meu avô porque o conflito entre gerações fica muito evidente e ele tem um monte de histórias para contar.

É legal escutá-lo comentar sobre o governo do Getúlio ou da campanha do Jânio Quadros, já que ele viveu naquele tempo, e comparar com o que nos foi ensinado pelos livros e professores de História na época do colégio. È inspirador ouvi-lo contar com orgulho algumas de suas histórias de como ele chegou aqui ao Brasil e seus ensinamentos sobre a arte de como encarar um Japeri lotado.

Mas é ainda mais engraçado quando ele começa a contar histórias de quando era criança e fugia da missa, aparecendo só no final novamente para a avó dele achar que ele tinha ido, ou da vez em que chutou a bola para longe e saiu correndo porque o guarda queria roubá-la, ou vê-lo relembrar das aventuras do seu grupo de amigos (eles se auto-intitulavam Os Vingadores, muito antes dos quadrinhos da Marvel), do qual, pelas nossas contas, ele é o único sobrevivente.

Gente, esse velhinho de Up é muito parecido com o meu avô. Fisicamente, até.

Da última vez em que estivemos lá, além de conversar, jogar Perfil e fazer campeonato de sueca (tem que ficar de olho nele nesse jogo, porque ele rouba descaradamente!), ele pegou para uma caixa de madeira cheia de fotos antigas. Fotos em preto e branco, quase sépia, daquelas bem velhinhas mesmo. 

Havia fotos de nossos bisavós portugueses, primos e tios da terrinha, fotos dele mesmo quando criança e um pouco mais velho. Muitas das fotos o mostravam com aquele ar de pompa e circunstância que as fotografias tinham antigamente já que foto era coisa séria e rara e as pessoas tinham que se arrumar todas e faziam uma pose para que o fotógrafo viesse e capturasse os seu melhor ângulo.

Outras chamaram minha atenção pela anotações atrás com a data e o lugar de onde elas foram tiradas. Essas últimas, em sua maioria, eram de uma época em que, se ele não fosse adolescente, devia ter mais ou menos a minha idade.

E é curioso ver retratos de seus avós quando crianças, afinal, antes mesmo de nos entendermos por gente, sabemos que avós são criaturas que nasceram de cabelos grisalhos. Mais curioso ainda foi ver registros de um avô jovem, alegre, rodeado de amigos, no fim de um dia feliz, com um sorriso maroto nos lábios de quem tinha aprontado todas.

Cada uma daquelas fotos carregava consigo histórias de uma época bem remota, ainda em preto e branco. Mas abrir a caixa de retratos foi como trazer cor e vida a todas essas histórias novamente.

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Fiquei chocada quando ele contou que, no tempo dele, existia uma parte do cinema chamada “galinheiro”, onde o ingresso era mais barato e lá eles atiravam pipoca nas pessoas que ficavam em baixo, gritavam coisas para a tela, brigavam, etc. E ele contou isso com saudosismo do tipo: “Vocês, jovens de hoje em dia, não fazem mais essas coisas”.

(Coitado, ele não sabe o que diz. A única diferença é que hoje a gente tem celulares. De resto, está a mesma coisa. Vou trazer ele aqui no Nilópolis Square pra assistir o próximo filme de super-heróis às 15h de uma quarta-feira pra ele ver!

Ah, sim! Outra lição, importante: vocês que ficam tirando onda com aqueles discursos de “Esses jovens de hoje em dia são terríveis! Antigamente não era assim!”, não são os jovens de hoje em dia que são terríveis! Os jovens sempre foram idiotas. Só que eles agora têm celular.)

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E então, eu percebi que, por mais diferentes que nós fôssemos, lá no fundo, éramos muito mais parecidos do que se pode imaginar. 

Tem um episódio de Friends, logo na primeira temporada, em que, no final, os amigos ficam vendo retratos de uma avó da Mônica quando novinha. E então encontram uma foto dela com sua turma na época e ficam ali contemplando aquela fotografia durante um bom tempo: “É, parece uma bela turma essa dela”, com a câmera fazendo um enquadramento incrível para que nós, espectadores, percebêssemos como aquela frase também podia se aplicar aos Friends que já conhecemos.

Foi mais ou menos assim que eu me senti quando vi aquelas fotos do meu avô. Me vi ali com meus amigos, posando para uma foto depois de um dia inesquecível. Como no episódio de Friends.

Sim, as roupas e a coloração das fotos eram diferentes. E eles não postavam as fotos nas redes sociais. Mas no fundo, meu avô era igualzinho a mim, há 50 anos.

A irreverência, a vontade de ser feliz, as histórias que se você contar ninguém acredita... Estava tudo ali registrado. Numa caixa de madeira. Em fotografias em preto e branco.


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Só que aí não demorou muito para eu completar meu momento de epifania. Porque que se as fotos dele há 50 anos lembram muito as minhas atuais, não é preciso ser gênio para se ter uma ideia de como serão as nossas fotografias daqui a meio século.

E eu percebi algo algo curioso a respeito das fotografias. Se você parar para analisar, à medida em que as fotos vão ficando mais coloridas e mais nítidas, a vida vai ficando cada vez mais sem cor.

E é por isso mesmo que há algo de... mágico nelas. Porque as fotografias congelam o tempo. Capturam um instante que nunca mais vai voltar. Capturam sentimentos e pessoas e lugares e sensações que o tempo insiste em levar. Elas podem até não se mover como em Harry Potter, mas se uma coisa tem o poder de enganar o tempo, um pouco de magia ela deve ter.
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sexta-feira, 3 de maio de 2013

O que você quer ser quando crescer?


“O que você quer ser quando crescer” talvez seja a pergunta campeã durante os encontros familiares. Ela começa a pipocar tão logo nosso nascimento, bem antes da também clássica “E os namorados?”. Mas é na adolescência, fim do ensino médio, que a questão ganha contornos de seriedade e gera crises de incerteza, indecisão e identidade.

Respondê-la na época da alfabetização é moleza e dá pra encarar numa boa baseando-se apenas nas profissões da Barbie. Eu mesma já quis ser médica, artista plástica e veterinária. Cheguei a levar a última um pouco a sério até ser mordida por um cachorro e desistir da ideia. Ainda bem porque seria péssima médica, não tenho tanto talento assim para as artes e bom, não estou nem um pouco a fim de ser mordida novamente.

Barbie Engenheira da Computação
O que eu quero saber é o seguinte: por que ninguém nunca fez a Barbie Contadora?

Felizmente, acho que acertei logo de primeira (ou talvez não tão de primeira assim). Mas infelizmente não é todo mundo que tem essa sorte e, quando não ficam desesperados, acabam desistindo de acertar.

“O que você quer ser quando crescer?” envolve uma jornada de auto-descobrimento, de olhar pra dentro e perceber no que se é bom, ou no que se pode ser realmente bom. E é difícil, muito difícil descobrir que você é e quem você quer ser.

Talvez por isso eu (e um monte de gente) se identifique com as histórias adolescentes (até hoje). Essa fase da vida projetada especialmente para fazer seus próprios amigos, começar a traçar o seu próprio caminho e desenhar a própria personalidade. Quase como um estágio para a vida adulta, é uma época muito rica, de descobertas a cada minuto (e eu que jurei que nunca escreveria uma coisa dessas!), de experimentar novas experiências, de poder ser o que você quiser e, por conseqüência, um processo de auto-descoberta muito mais complexo do que aparenta. 

(Ok, acho que não fui muito clara nessa parte. Eu realmente sou fascinada por essas histórias adolescentes em que, todo aquele universo de patricinhas, atletas e nerds, no fundo, escondem um conflito de identidade e de descobrir o seu lugar no mundo do qual é impossível não se apaixonar.)

Acho incrível o sentimento dessa fase da vida em que o futuro ainda é incerto, as possibilidades são infinitas, as opções são tão amplas quanto o horizonte e todos têm a certeza de que nada dará errado. Acho lindo mesmo todos aqueles futuros seja-lá-quais-forem-suas-profissões ali juntos passando pela mesma experiência e tentando encontrar o seu próprio caminho.


Mas... e se mesmo depois de ter passado por essa fase especialmente desenhada para se decidir o que você que ser, você não conseguir tomar essa decisão? E se mesmo depois de ter tomado essa decisão, você descobrir que afinal de contas não se conhecia tão bem assim e que...putz, escolheu errado? E se a sua cabeça te diz uma coisa, mas o coração diz outra completamente diferente? (É brega, mas é verdade) 

E se ao final desse processo você não conseguir descobrir aquilo que realmente faz bem, aquilo que te fará feliz? E se aquilo que te faz feliz não dá dinheiro? Porque é muito bom ser apaixonado pela profissão, mas o que adianta se não paga as contas?

Muitas vezes bate um desespero. O fulano se sente um fracassado. Quer dizer, se a escola é o lugar onde deveria acontecer todo esse processo que no final nos faria identificar aquilo em que somos bons, obviamente ele cometeu algum erro nesse “estágio para a vida adulta”. Alguns chegam a pensar que não são bons em nada. Que talvez seja impossível encontrar seu talento especial, porque talvez ele não esteja só oculto e simplesmente não exista. Desistem dos seus sonhos ainda ocultos até mesmo para ele. E aí surgem aqueles profissionais amargurados, que fazem tudo de qualquer jeito e nos fazem questionar erroneamente a integridade de toda uma classe, às vezes. Mais do que isso, se tornam pessoas amarguradas por se arrependerem de um futuro brilhante que poderia ter sido.

Mas e se eu dissesse pra você que mesmo depois de ter se encontrado, descoberto aquilo que te faz feliz, ter alcançado a auto-realização, a tal pergunta que não quer calar ainda vai ecoar na sua cabeça e você ainda vai continuar se perguntando “O que eu quero ser quando crescer”?

Que mesmo depois de formado e realizado, você continua se inspirando em um monte de gente e tentando encontrar seu próprio caminho? Que de tempos em tempos é preciso encarar todo aquele processo de olhar pra dentro, descobrir novamente quem se é, onde está e o que pretende ser.

Ao contrário do que nossos parentes sempre insinuaram, essa experiência de crescimento nunca acaba. Você muda o tempo todo. E é preciso se redescobrir novamente ao longo do tempo. E fazer novas escolhas que podem afetar toda a sua vida pra sempre, tal qual na época do vestibular. 

Às vezes a vida toma essa decisão pra gente e mesmo sem saber, acaba seguindo pelo caminho certo. Às vezes ela não dá dica nenhuma e você tem que quebrar a cabeça, analisar muito bem e tomar a decisão você mesmo. E aí é que a porca torce o rabo, porque tomar decisões é difícil. É assustador. Mas... quem disse que crescer seria fácil?

Mas se a indecisão bater à sua porta, não se desespere! Isso na verdade é motivo para se orgulhar! Porque quer dizer que você tem milhões de opções para explorar. E que quem está no comando da sua própria vida é você.

Seja quem você quiser

PS. Enquanto procurava fotos para o post, encontrei uma dessas de meme do Face que questionava por que a Barbie não parava em emprego nenhum. Fica a dúvida: Barbie: multi-talentosa ou infeliz na vida profissional?
PS2. Eles lançaram a Barbie Engenheira da Computação, mas, aparentemente, as engenheiras da computação não ficaram muito felizes com o visual da Barbie. Tem uns links legais aqui e aqui mostrando como deveria ser a Barbie que trabalhasse com informática mesmo.
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domingo, 28 de abril de 2013

200 posts e...Imagina na Copa!


Bem Amigos da Rede Internética!

Está entrando em campo o Inútil Nostalgia, há 4 anos no ar e completando a marca histórica de 200 posts.

Para comemorar, o blog veste hoje sua camisa especial, uma versão personalizada do manto sagrado, trazendo o número 200 nas costas.


E para aqueles que dizem que os jogadores de hoje em dia não sentem mais o peso da camisa (até porque as camisas de hoje são feitas de um material muito mais leve do que o algodão da década de 50), devo lhes confessar que vinha adiando esse post há algum tempo. Talvez eu tenha sentido o peso da camisa mesmo.

Depois de passada a temporada de decisões em que tive de ficar concentrada com o resto da equipe, passo agora por um momento pessoal de repensar um monte de coisas. Talvez esteja na hora de mudar de clube e a todo momento me pego tentando traçar outras estratégias e esquemas táticos que possam trazer a vitória a médio ou a longo prazo.

E pensar nessas coisas sérias às vezes me deixou meio desanimada, sem vontade de grandes comemorações. Escrevi alguns outros posts, queria ter escrito até mais, mas a sombra do ducentésimo post (sim, eu pesquisei) continuava pairando a cabeça da blogueira junto com esse monte de problemas que insistem em se acumular e a promessa que ela tinha feito de promover uma coisa diferente para celebrar a conquista.

No meio de tudo isso, o país inteiro parece suspirar futebol com a proximidade da Copa das Confederações e a inauguração dos estádios e as finais dos estaduais e o chocolate levado por Barca e Real Madrid na Champions.

E ao mesmo tempo em que eu dizia para mim mesma que não valia a pena fazer o que eu havia planejado fazer e que ninguém ia ligar, o mundo todo mandava sinais para deixar de ser besta (além dos motivos já explicitados, ainda recebi um comentário inesperado e inspirador e assisti um filme bem mais ou menos, mas que tinha futebol, e futebol faz tudo ficar melhor) e com essa exposição do futebol na mídia o momento é mais do que propício à primeira promoção do Inútil, que não tem a menor vergonha de se apropriar de um dos memes mais do que batidos da internet, para criar suas regras. Mas tudo bem, porque nossos governantes também não têm vergonha de inaugurar o Maracanã inacabado, então, estamos quites.

PROMOÇÃO INÚTIL NOSTALGIA:
IMAGINA NA COPA!

Bom, ainda sou nova nessas coisas de promoção, então tudo é muito simples. Só que a execução não é tão simples assim.

O desafio é o seguinte: Criar uma anedota, historinha - coisa curta, de uma página no máximo (ou um pouco mais, sei como esse negócio de limites é difícil, rs) - que tenha como tema o bordão “Imagina na Copa”, ou apenas “Copa” no meio. A mais legal (ou conhecendo o entusiasmo dos leitores do Inútil, talvez a única!) vence.

Ah, sim, claro, esqueci da parte mais legal do concurso. Não vale usar “Copa” como sinônimo de “torneio, campeonato”. Vamos pegar o dicionário e redescobrir (ou inventar) os outros significados para a palavra. Sem fazer muito esforço, me vêm à cabeça umas 2 ou 3 definições.

Para participar, mande sua inscrição para o formulário de contato ali do lado. E só. A promoção dura até quando eu achar que vale a pena aguardar novas inscrições.

Ainda estou decidindo o prêmio. (Vou fazer como a Ju e estabelecer premiações surpresas pra ver se animo vocês!)

Além das inscrições tradicionais, também estamos aceitando desenhos, montagens e qualquer outra coisa que sua criatividade bolar (juro que o trocadilho foi sem querer). Caso você queira realmente mandar sua inscrição via canal audiovisual, hospede em algum site e cadastre o link ali no formulário.

Sejam criativos e não tenham vergonha de qualquer bobagem que lhes vierem à mente. Garanto que qualquer ideia será melhor do que as três sugestões para nome do mascote que nos foram apresentadas.


E é isso. Sei que a promoção é meio fuleca, mas, aproveite, porque a concorrência será baixa (mandando a sua história, é bem capaz de você ganhar por W.O.) e talvez seja o único concurso de Copa que você tem chances reais de ganhar!!!
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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Defina: Azar


Semana passada, mais uma tragédia tomou conta dos noticiários do Rio de Janeiro: um ônibus capotou de um viaduto, voou e caiu em plena Avenida Brasil. Sei que o ônibus caiu por causa da briga entre o motorista um passageiro, que o acidente matou 7 pessoas e só porque nessa semana que passou não tive tempo de assistir nenhum jornal, já que estava lá, no meio da rua, sofrendo com o resto do povo, tentando chegar em casa.

O acidente aconteceu na última terça-feira, dia 2 de abril, e como tinha saído no meio da tarde pra buscar o resultado de um exame, deixei o trabalho, por volta das 19h30. Peguei o metrô numa boa, desci na Central, e na maior tranqüilidade, entrei no meu Japera, sem problemas. Chovia um pouco e o trem logo saiu da estação. Uma mulher chegou até a elogiar:

- Hoje o trem tá rapidinho. Chega um, sai o outro, chega um sai o outro. Não podia ser assim sempre? Eles devem estar com um esquema de segurança por causa do acidente na Brasil. Você vê só como eles têm trens sobrando, né? Por que não colocam pra rodar? É uma safadeza essa Supervia.

Parecia que ela tinha premeditado, porque o trem andou uns 10 minutos, e na altura do Méier, no meio do caminho, ele parou. E lá continuou parado por mais 50 minutos!!!!

Pensei: “Não bastava ter o acidente na Brasil, tem que dar problema no trem também!”!

Ficamos todo esse tempo sem nenhum aviso por parte do maquinista (alguns achavam que ele tinha morrido), e eu só fui descobrir o motivo da paralisação porque entrei no Twitter da SuperVia (@SuperVia_trens) e vi eles respondendo os questionamentos dos passageiros em tempo real. Segundo eles, havia ocorrido uma queda de energia em Deodoro, o que paralisou praticamente todos os ramais. Parabéns, SuperVia! Nota Dez em interatividade na internet. Nota Zero em prestação de serviço e comunicação pelo alto-falante.

Quando o trem finalmente conseguiu estacionar em Eng. Dentro, percebi que daquele mato, não ia sair cachorro. Desci da estação. Isso já eram 21h da noite. E chovendo. Peguei um ônibus pra Cascadura, já com os pés todos molhados. Quando eu chegasse lá (coisa de 15 minutos), pegava um ônibus pra N. Iguaçu e se desse tudo certo, eu logo estaria em casa.

Não deu. Ao chegar ali na rodoviária de Cascadura, logo percebi que não tinha nenhum N. Iguaçu no ponto. E que tinha uma fila enorme ali esperando por ele. Saquei logo que aquilo não ia dar certo. A solução foi ir andando até Madureira, pra ver se pegava um ônibus por lá, já que mais à frente passam outros N. Iguaçus saídos de outros lugares.

Pensei: “Não bastava ter o acidente na Brasil, tem que dar problema no trem, estar chovendo e não ter ônibus pra pegar”!

E lá fui eu, andando, na chuva, na lama (só pra lembrar tem uma obra infinita por ali, o que torna tudo mais sujo e mais difícil), no meio da rua. Nisso já deviam ser umas 22h. Pensei em pegar um táxi, mas nesse tempo de chuva, com esse caos no trânsito, com todo mundo sofrendo pra chegar em casa, cadê que passava um vazio?

Passou um N. Iguaçu lotado (possivelmente saído de Cascadura) e ouvi um homem reclamar: “Mas não vai parar de passar N. Iguaçu lotado, não?”. É, a coisa estava pior do que eu pensava.

Vários ônibus escrito GARAGEM passavam. Algumas pessoas se questionavam: “A essa hora ainda tem trem?” Ao passo que eu tinha que responder: “Não vai contando com o trem, não! Saí de lá porque está tudo parado!”. E todos compartilhavam aquele olhar condescendente de “Classe Média Sofre, hein!”.

Milagrosamente, parou um ônibus saído da Praça Seca vazio, e pegou todo mundo que estava no ponto. Todo mundo mesmo. Ele ficou uns 15 minutos parado, e catou todo mundo. Nessa eu entrei. Fui em pé. Mas tenho de dar graças a Deus porque consegui entrar. E nem posso reclamar muito porque nem estava entupido de gente igual ao outro ônibus que tinha passado há pouco. E lá fomos nós.

Quando estávamos chegando a Marechal, um engarrafamento enorme. Os veículos virando numa rua que não está no itinerário do ônibus para fugir do trânsito. Um pouco mais à frente, a explicação: TUDO ALAGADO!

Pensei: “FERROU! Não bastava ter o acidente na Brasil, tem que dar problema no trem, estar chovendo, não ter ônibus pra pegar e ficar preso no meio da rua! Não vou chegar em casa hoje! E eu já estou super-cansada porque fiquei em pé durante 1 hora e andei mais um bocado depois”!

Lembrei de um outro episódio, pelo qual passei por situação parecida, há uns 3 anos. Planejei o post para o blog. Porque a maratona estava longa e estava mais do que evidente que eu tinha material suficiente para um post.

Até que o motorista foi esperto e cortou caminho por Guadalupe. Entrou em umas ruas que eu nunca vi, mas foi rápido e felizmente, fugidos daquele pedaço de Marechal, mais à frente, encontramos pista seca. Se o alagamento persistisse até Deodoro, Anchieta, seria o fim.

Por volta de 23h30 eu consigo soltar perto de casa. (Isso aí! 4 horas pra chegar em casa!!!!!) Planejei o que iria fazer quando entrasse pelo meu portão.

Ufa! Cheguei! Vou jantar uma comida bem gostosa (estava com desejo de lasanha de microondas e muita, muita FOME), tomar um banho, me esparramar no sofá, (nem vou entrar na internet hoje que estou muito cansada), colocar o DVD de 30 Rock, dar umas risadas com Liz Lemon e dormir.

Mas ao chegar perto da minha rua, logo percebi que alguma coisa estava errada. O Habbibs estava aceso, mas logo à frente, as quadras estavam num breu sem fim.

Não pode ter faltado luz! Não pode ter faltado luz! Não pode ter faltado luz! Hoje, não! Por favor!

É. Estávamos sem luz.

Não bastava ter o acidente na Brasil, tem que dar problema no trem, estar chovendo, eu ter que ir andando até Madureira, enfrentar um pedaço do caminho alagado, estar cansada e com fome, quando eu finalmente chegar, a casa tem que estar sem luz!!!!!!!!

É isso aí! Quando a gente está com sorte, não tem jeito! E sabe o que é pior? É que só estavam sem luz umas 3 ou 4 quadras próximas à nossa. O resto da cidade, parecia normal.

Lá se foram meus planos de comer lasanha e ver 30 Rock

Minha mãe disse que a luz tinha caído lá pela hora do Jornal Nacional. Já eram mais de 23h. Legal, não ia voltar tão cedo.

Jantei fora naquela noite – no quintal. Um jantar à luz de lanterna, que ilumina mais. Minha irmã nem estava em casa pra eu desabafar com ela (não agüentei e liguei pra ela!) e contar da minha maratona.

Mas que isso sirva de lição pra vocês que quando você acha que nada mais pode dar errado, ah, colega, podes crer que ela é possível, sim!

Tanto é que nos outros dois dias seguintes, o trem deu problema de novo e descarrilou 2x no mesmo lugar. A minha sorte (uma hora ela ia ter que aparecer!) foi que quando descia do metrô na quarta, encontrei um amigo do trabalho, voltando do trem, me contando da bagunça que estava a estação (mesmo assim, bota aí mais 1 hora de metrô até a Pavuna, mais chuva e meia hora de ônibus na conta) e no outro meu pai me avisou e eu fui de bus do Centro mesmo.

Acho que acabou, mas essa semana foi dureza, viu!
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terça-feira, 2 de abril de 2013

Caos no Bob’s


Quando eu era pequena, sair pra rua era sinônimo de permissão para comer besteira. Pizza Hut, Bob’s, Mc Donalds, Habbibs... Acho que o negócio não era nem os brinquedinhos do kit infantil, porque meus pais nunca foram de comprar o kit que vinha com os brindes mesmo, mas o simples prazer não precisar comer comida de verdade na janta.

Depois que minha irmã ficou doente (há exatos 10 anos) e entrou numa dieta especial que meio que, senão proibiu, restringiu algumas comidas, isso nos afastou do mundo dos fast-foods. Se eu vou ao Mc Donalds duas vezes no ano é muito. E devo confessar que não senti a menor falta.

Nos últimos anos, até que eu tenho ido até um pouco mais por causa desses dias que quando dá 18:00 é só o início do segundo turno da jornada de trabalho. E ao contrário do que eu pensava quando era pequena, hoje eu dou tudo por um prato de arroz com feijão.

Desde pequena sempre preferi o Bob’s ao Mc Donalds, mesmo que o Mc Donalds tivesse brindes melhores. O sanduíche do Mc é muito seco, sem graça. Ao passo que o Big Bob tem aquele molho saindo pelas beiradas, sujando aquela caixinha azul e vermelha. E você sempre pode pedir pra customizar o seu sanduba, tipo "sem cebola ou com mais queijo", que eles não ficam cheios de calafrio como no Mc. E tem um milk shake mais gostoso também.

No entanto, o Mc Donalds tem a melhor batata. Não sei quantos milhões de conservantes eles colocam ali (por favor, vai dizer que vocês acreditam nessas propagandas do Mc que ficam mostrando aquelas plantações maravilhosas?), mas o negócio é que a batata deles não tem comparação. Nunca comi do Burger King (ainda), mas dizem que lá é onde tem o melhor hambúrger.

Então, para um lanche supimpa, a combinação seria: Hambúrger do Burger King, a batata do Mc Donalds e o milk shake do Bob’s.

Mas se você levar em conta a fila das três redes de fast-food, logo você desiste dessa ideia idiota, porque até você conseguir juntar tudo, a batata ou o sanduba já estariam frios.

O atendimento no Bob’s sozinho já desafia o conceito de fast-food. Ele pode até ter o melhor milk shake, mas é só isso mesmo. Não importa a filial, as mesas têm sempre aquele aspecto sujo e os funcionários nunca vão conseguir atender você rápido ou bem.

Não foram poucas as vezes em que me estressei com a falta de pró-atividade de seus funcionários. Pra falar a verdade, o Bob’s é conhecido por esse seu problema operacional de não fazer jus ao rótulo de fast-food, já que nada por lá é rápido.


Mas acontece que teve um dia em eu estava com fome. Desculpe, eu me expressei mal. Eu estava MORRENDO DE FOME!!!! Tinha tido um dia MEGA estressante, ia fazer serão, às 18:00 saí do cliente pra encontrar com a sênior no escritório, e sabia que se eu não comesse alguma coisa, não ia conseguir fazer mais nada e ia acabar jogando alguém pela janela.

Ultimamente tenho até preferido comer no Subway, porque o sanduba é mais gostosinho, mais saudável, a gente se estressa menos, os funcionários são mais atenciosos, mas nesse dia eu estava com um pouco de pressa não queria perder 20 minutos subindo as escadas do shopping e pedindo um Subway. 

Então, espertamente, por já saber desse probleminha operacional do Bob’s, quando desci em frente ao escritório, que tem um Bob’s do lado, pedi o número do telefone, pra pedir Delivery lá em cima. Quando estivesse pronto, depois eu descia e pegava as coisas na portaria, mas não ia ter que encarar a fila, o caixa, os funcionários perdidos, todas essas coisas já conhecidas do Bob’s.

Quando chego lá em cima, ligo pro Bob’s (só lembrando mais uma vez, eu estava MORRENDO DE FOME!):
- Alô, eu gostaria de fazer um pedido, por favor.
- Pedido? Pedido é só pela internet agora.
- Mas eu acabei de pegar o panfleto aí com vocês agorinha.
- Desculpe, senhora, só pela internet.

Eu podia ter pedido pela internet, mas estava com muita fome, e achei um desaforo ter que fazer o pedido pela internet, tendo a parada ali embaixo. Sem contar que, vai saber como essa central de pedidos online funciona, e vai que ele manda pra uma filial lá no fim do mundo e eu fico mais de uma hora esperando um hambúrguer. Quer dizer, não é impossível, é do Bob’s que estamos falando!

Por que, Senhor, a moça não me disse que eles não atendiam pelo telefone quando eu pedi o papelzinho pra ela????

Mito!

Decidi abreviar o sofrimento. Desci pra fazer o pedido pessoalmente mesmo.

E, vou te contar, já tive experiências ruins no Bob’s. Mas sem dúvidas essa foi a pior. (Acho que talvez porque eu estivesse com mais fome).

Quando desci, não tinha praticamente fila nenhuma e fui logo atendida, muito embora desse pra perceber que dos 3 caixas só 1 estava funcionando e esse ainda parecia estar com o sistema travando. Pedi um trio Big Bog. O mais simples possível, já pra não dar problema.

Tinham uns 10 funcionários ali. Mas dos 10 só 3 pareciam estar trabalhando mesmo. Alguns estavam limpando as coisas, outros olhavam para o nada. A gerente não demonstrava nenhum sinal de preocupação. A mulher do caixa brigava com a máquina.

A fila começou a crescer e chegou uma mulher pedindo só o sanduíche. (Nessa hora o caos já se instalava no local, porque já tinha um atraso considerável e ninguém, NINGUÉM, conseguia ser atendido.) A mulher percebeu o caos e reclamou com o marido: 
- É por isso que eu não gosto de vir no Bob’s. Você percebe a diferença do Bob’s pro Mc Donald’s. No Mc Donalds as coisas funcionam. No Bob’s não. Em qualquer unidade, NADA funciona.

Ela reclamou também da falta de higiene dos funcionários que não estavam usando luvas (o marido falou que as luvas tinham sido abolidas porque elas acumulavam mais bactérias do que se eles estivessem sem), e da ausência de um álcool em gel pra eles desinfectarem as mãos então...

E aí eu, que estava cheia de fome, tinha tido um dia horrível, e ainda ia trabalhar até mais tarde, resolvi abstrair. Quer dizer, gente, é o Bob’s! Ao invés de ficar com raiva, comecei foi a rir da situação. Ri da mulher revoltada e mostrei pra ela que na verdade tinha um negócio de álcool em gel sim, escondido ali do lado da máquina do milk shake, ao passo que nem isso a convenceu de que alguém ia usá-lo porque estava muito distante da cozinha. Ri de novo, um sorriso do tipo: “Ah, colega, aí você também já está querendo demais”. Uma coisa é ter a parada, outra coisa é usar. E ela estava reclamando que não tinha... E isso era mentira!

Queria saber quem tem coragem de comer o sanduba com o papel

A mulher já estava arrependida de ter pedido o Big Bob.

E eu logo percebi que devia ter pedido só o sanduíche também, porque tinha uma menina limpando o negócio das batatas e tirando várias queimadas cheias de óleo dali de dentro. E sem a menor pressa. E de um jeito meio nojento mesmo.

E tudo bem que eu tinha pedido o trio, e a batata não ia sair tão cedo, mas não tinham nem se dignado a separar a minha bandeja, pegado o refrigerante, botado o sanduba lá, essas coisas... Eu já tinha pedido tinha uns 10 minutos e os caras nem se coçaram pra COMEÇAR a me atender!!!!!!

Minha irmã falou que na faculdade ela aprendeu sobre uma doença chamada Crise de Ausência, em que a pessoa fica olhando para o nada, vendo a vida passar, sem dar sinal de estar conectada com o universo. Talvez os funcionários do Bob’s tenham Crise de Ausência. Talvez o Bob’s só contrate pessoas com Crise de Ausência. Deve ser alguma exigência, ou coisa assim. Ou talvez essa seja a explicação.

Depois de mais uns 5 minutos, eles montaram minha bandeja e eu tive que avisar que era pra viagem de novo. Mas no fim, consegui levar meu lanche infectado, eu comi e fiquei feliz. O sanduíche já estava meio frio. E a batata, sabe-se lá Deus como tinha sido frita (resolvi ignorar todo o caos que também afetava a cozinha naquela hora e comi assim mesmo). Mas, como dizem, o melhor tempero é a fome, e eu achei tudo muito gostoso, matou minha fome e eu voltei a trabalhar feliz.

É claro que se eu tivesse pedido um podrão da esquina sairia mais satisfeita. Seria mais rápido, mais gostoso, seria mais bem atendida, o sanduíche viria com bem mais coisas, mas eu precisava de um cupom fiscal pra pedir reembolso depois e isso, infelizmente, o podrão (ainda) não dá.

Fico me perguntando como é que o pessoal do marketing deixa a empresa ser alvo desse tipo de piada? Como a marca registrada da cia pode ser o caos que é o seu atendimento? Como é que pode uma empresa desse porte se manter no mercado com essa fama horrorosa há mais de 50 anos?

Depois eles ficam reclamando, se perguntando por que o Subway está crescendo tanto. Hello, no Subway, eles não têm funcionários do mês. Eles têm Artistas do Sanduíche! No Starbucks, você é atendido pelo nome! (E é por isso que no Starbucks você encontra notas de DÓLAR na caixinha da gorjeta!)

Os sanduíches do Subway não vem assim, mas bem que poderiam vir

Costumava dizer que gostava do Bob’s porque ele é mas humano, porque é nacional e até tentei defendê-lo quando a moça o acusou de não ter o negocinho com álcool em gel - coisa que nenhum funcionário o fez na hora, aliás, o que significa 1) que eles sabem que o Bob’s é uma bagunça mesmo, e 2) eles não faziam a mínima ideia de que a parada existia mesmo, hahahaha -, mas depois dessa não dá mais. Não vou dizer que nunca mais como por lá porque “nunca” é uma palavra muito forte e provavelmente vou comer. E se você freqüentar essas redes de fast-food com mais assiduidade, começa a perceber que nenhuma delas atende ao conceito de “comida rápida” mesmo (é claro que nenhuma consegue atingir o grau de incompetência do Bob’s, mas tem algumas que se esforçam!).

Mas agora, analisando friamente a situação, eu lanço outro questionamento: Será que na verdade a junk food não faz mal e o que causa os problemas de saúde é o estresse até ser atendido? Quer dizer, olhe pra mim, comi o negócio provavelmente supercontaminado, contendo tudo o que há de ruim no universo e passei muito bem. O que realmente estava me tirando do sério era a demora pra comer. E nem isso me fez mal, porque eu resolvi ser uma pessoa zen e encarar a situação toda com bom humor, levando em conta o meu dia e tal.

O que nos leva à conclusão que o problema todo não é o Bob’s. São esses clientes exigentes e estressados que eles têm e não entendem que lá as coisas funcionam num ritmo próprio. Eu, hein! Relaxem, gente.

Adorava essa propaganda! Uma vez minha irmã tirou uma foto igual a essa, porque ela é carente, e me agarra igual o milk shake do comercial.
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