quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Pop Art

Às vezes é muito difícil explicar o tipo de música de que eu gosto. As pessoas tendem a achar que eu sou roqueira. Ou que só escuto música erudita.

Na verdade, não tenho paciência para gente que pinta o olho e se veste de preto para dizer que é “rebelde”. Também não simpatizo com os músicos das bandas de rock, que, ou pregam a rebeldia sem causa e fazem coisas estúpidas no palco como forma de auto-afirmação (mesmo que indiretamente façam parte da mesma engrenagem da indústria fonográfica que o Justin Bieber), ou são rebeldes de pelúcia, pregando a paz e amor, apesar de toda a pose de bad boy. Ademais, acima de tudo, não suporto todos aqueles gritos guturais em cima de qualquer acorde sujo de guitarra.

Da mesma forma, não tenho paciência para aqueles álbuns com músicas lentas de dar sono, nem com o público, em sua maioria, apático nos shows, que só sabe cantar uma das canções.

E eu sei que é difícil de acreditar, mas eu gosto de música pop. Tenho certa predileção por canções que grudam no ouvido, ficam na cabeça o dia todo e fazem todo mundo cantar junto (e alto). Gosto do pop justamente por ser tão despretensioso, aberto e assumidamente “vendável”.

I don't know why you say goodbye, I say hello, hello hello

Não me importa se é comercial, porque tenho a consciência de que o comércio é que move o mercado. E, mais do que isso, me enxergo dentro desse contexto como consumidora. O pop comercial, aliás, é aquele que financia os projetos não tão comerciais assim. Faz parte do jogo. Essa é uma das razões, inclusive para o Pop do Brasil andar tão pobre de coisas novas e de qualidade. Porque a indústria fonográfica quebrou e não tem mais dinheiro pra aplicar na divulgação de gente legal também, direcionando todo o orçamento para os Restarts da vida. Mas acho que isso é assunto para um outro dia...

No entanto, não gosto de qualquer pop. Também não tenho lá muita simpatia para esse pop pré-fabricado, vazio e sem talento das rádios. Me cansa quando alguns desses fantoches insistem em nos convencer que não são de plástico (que assumam logo que só querem a fama e o nosso dinheiro!!!), ou quando querem conquistar seu espaço com um marketing que “choca” a sociedade.

All we hear is Radio Ga Ga, Radio Goo Goo, Radio Ga Ga

Gosto de pop melódico, swingado, com alma, letras bacanas e se possível com uma pitada de poesia (sim, dá pra fazer).

Muito me irritam também os artistas que acham que só porque fazem música – ou arte – não precisam cumprir suas obrigações como qualquer outra pessoa e só querem lançar um disco novo a cada década, com só 5 músicas, do jeito que bem entenderem... E tudo bem que a inspiração é importante e tudo, mas acontece que aquilo lá é o TRABALHO dele!!! Fico bem do lado da gravadora quando esta começa a ameaçar com chicote se os músicos não entrarem em estúdio ou reclama do conteúdo do disco, porque, né, eles estão ganhando pra isso. Escritores também dependem da inspiração e dão o seu jeito pra cumprirem seus prazos. Na verdade, em qualquer profissão a gente tem que dar o nosso jeito e leva bronca do patrão. Por que com eles seria diferente?
[Edit: Acho que vale a indicação de um post do Zeca Camargo sobre a música pop perfeita e como isso requer muito mais transpiração do que inspiração. O texto é tão bacana que eu fiquei com vontade de ter escrito. Acho que no fundo é porque é o texto que eu tentei fazer aqui, mas não tinha o nível de conhecimento sobre o assunto que ele tem. Porque, se você não sabe, Seu Zeca, mais do que o apresentador do Fantástico, é um poço sem fundo de cultura pop. E já que estamos falando dele, queria deixar registrado que entendo quando vocês se cansam dos textos demasiadamente longos deste blog. Eu também me sinto assim no blog do Zeca. ;)]

Também muito me irritam os artistas autistas que acham que fazem música para eles mesmos. Não cantam as músicas que o povo espera, agem como se a platéia não existisse, lançam discos meia boca... Até parece que não somos nós, o público, que garantimos o leitinho das crianças deles. Eles têm mais é que nos paparicar muito! E ainda tem de fazer isso com verdade e paixão, porque, caso contrário, não adianta muita coisa.

Aliás, se tem uma coisa que eu detesto é aquele papinho de: "Nesse disco a gente mostrou realmente quem a gente é, agora sim estamos fazendo música com a nossa cara". Primeiro porque dá a entender que antes eles estavam "nos enganando" e fazendo algo de que não gostavam, quando diziam adorar aquilo tudo (no mínimo anti-ético isso) e depois porque esse discurso costuma se repetir disco após disco, tirando toda a credibilidade da declaração.

E é aí que mora o perigo porque nem sempre o que os músicos querem é o que a gente quer. Até porque o “a gente” é dividido em um monte de facções. Cada um tem um gosto e uma mentalidade diferente. Tem a galera que prefere qualidade ao invés de quantidade. Tem a galera que prefere as superproduções. Tem a galera que acha tudo o que o cara faz lindo e maravilhoso...

Como consumidora, eu quero o “pacote completo”. Quero CDs que sejam legais por inteiro e não apenas 3 músicas boas. Quero clipes bacanas, shows bem feitos e artistas que gostam do que fazem. E nem acho que seja muito exigente, mas se querer um trabalho de qualidade é ser exigente, bom, então eu sou mesmo.

Mas fazer aquilo que se gosta e ainda por cima agradar ao público é algo difícil de se conseguir.

Por causa disso eu fico extasiada quando encontro um artista que tem suas metas alinhadas com as minhas expectativas. Quando vejo que tudo o que ele quer é tocar, se divertir e que as pessoas se divirtam com o seu trabalho, eu já fico feliz. Simples assim. E quando eu consigo me incluir nesse grupo de “as pessoas”, eu já fico mais feliz ainda. E se o trabalho tiver um toque de originalidade e sofisticação, aí eu fico é fã. Porque é praticamente uma combinação cósmica achar música pop grudenta de qualidade e feita com paixão ainda por cima.

É, Michael, você faz falta, viu!

É difícil, mas não é impossível. Por isso, da próxima vez que você vir um post começando com UPP, fique tranqüilo, não é a polícia que apareceu por aqui para pacificar o blog, é só uma postagem de Um Pé no Pop. Uma coluna que tem como missão vez ou outra tirar alguns artistas legais das ondas obscuras do meu player e compartilhar com você, leitor, o sentimento de que existe música pop (ou com um pé no pop) muito boa por aí, embora muitas vezes não encontre espaço sob os holofotes do mercado brasileiro.
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

BBB, No Limite e a Guerra dos Cupcakes

Você deve ter acompanhado nas redes sociais a polêmica envolvendo comentários sobre o BBB. Uma galera defensora da inteligência iniciou uma campanha pelo fim dos comentários do BBB alegando que “é fútil, não acrescenta nada, é um programa aculturado, etc”, e ofendendo todos os seus espectadores mais fervorosos ao chamá-los de acerebrados e afins. Daí começou a briguinha do “Você não pode me proibir” e ainda “Gosto do BBB, mas isso não tem nada a ver. Também leio Marx, Kant, Nietzsche”. Zzzzzzzz

Realmente não gosto do BBB. Gostaria até de não encontrar minha TL cheia de comentários sobre. E também não consigo entender direito o que esse programa tem que deixa todo mundo louco de janeiro a abril. Mas é claro que não posso proibir você de comentar. E também não quer dizer que toda pessoa que goste do BBB tenha QI abaixo de 100. Blablablablá...

Mas se você tem o direito de comentar e adorar o BBB. Eu também tenho de dizer que odiar e dizer por quê.

Houve um tempo em que até assistia um pouco, por pura falta de opção. Mas depois que chegou a benção de TV paga aqui em casa e, graças a Deus, isso não se tornou mais necessário.

Eu podia engrossar o coro do pessoal que justifica a multiplicação dos realities como um fenômeno destrutivo que só serve para as TVs ganharem dinheiro fácil, uma vez que não precisam apostar em novas ideias de programas roteirizados legais, como bem falava a Tina Fey em um episódio de 30 Rock. Mas acontece que existem reality shows bons, e que realmente acrescentam alguma coisa mesmo. Vide SuperNanny, O Aprendiz, aquela série do Fantástico com lições de economia, etc.

Mas minha aversão ao BBB vai um pouco além do “é fútil, não acrescenta nada, é um programa aculturado, etc”.

Não gosto do Big Brother porque ele é big bobo. Trancam pouco mais de uma dezena de pessoas com corpos esculturais em uma casa para eles não fazerem absolutamente NADA!

Os caras têm tudo do bom e do melhor e passam o dia numa piscina deliciosa em pleno verão carioca! E depois o Bial ainda vem chamar essa galera de “heróis”!!! Herói é o brasileiro que acorda cedo, pega trem lotado, toma esporro no trabalho, volta pra casa cansado e ainda tem que assistir um programa desses.

E você aí na sua piscina 3000 litros tomando sol na laje...

Reality por reality, sou mais No Limite em que a gente pelo menos pode ver os outros em situações deploráveis, passando fome, comendo olho de cabra, e uma gordinha deixando pra trás as duas concorrentes magrelas, remando na canoa e depois tacando fogo numas toras com o nome do programa. Não quer 1 milhão? Vai ter que ralar!

É tipo uma supergincana no meio da selva em que os prêmios são mantimentos para a SOBREVIVÊNCIA!!!!! (Não à toa o nome do programa original se chama Survivor)

(Lost no início, aliás, antes de se tornar uma série muito louca com direito a viagens no tempo – que eu adoro –, laguinhos da Disney, realidades paralelas, e muita, muita luz, era praticamente um No Limite roteirizado com o Time da Praia, liderados pelo homem de fé, John Locke vs o Time da Caverna, liderados pelo homem da ciência, Jack Shepard)

Agora o que eles fazem o dia todo no BBB? NADA! Como já falei, ficam tomando sol na piscina o dia todo e ainda ganham uma festa toda semana para encher a cara e garantir algumas baixarias na TV. (Não consigo entender mesmo como tem gente que assina o PPV. Sério, gente, é muito chato!!!)

Tenho que dar os parabéns pros caras da edição (é Zeus, o nome agora, né?) porque transformar 24 horas de gente fazendo NADA em algo interessante no final do dia não deve ser fácil. Talvez seja esse o segredo do sucesso do BBB, e a razão pela qual A Fazenda não consegue decolar de jeito nenhum. A Record, por exemplo, não tem a manha de transformar um material superpobre em algo superdivertido. Aliás, a Record não sabe editar mesmo. Até o Ídolos deles é mais sem graça. (Mas tenho de tirar o chapéu para a edição ágil do Aprendiz – que em outras mãos podia ficar ruim à beça – e pro Troca de Família).

Na verdade, também acho que os realities em que o público participa são muito menos interessantes. Em No Limite, por exemplo, era bacana acompanhar aquele povo sedento por dinheiro (e por água também) traçando alianças e pensando se deviam votar para tirar o melhor da competição para safar a própria pele e arriscar perder as provas seguintes ou deixá-lo na equipe para garantir as vitórias, e, sem se preocupar se o público ia gostar ou não.

Adoro como os caras do No Limite têm que votar escrevendo com um carvãozinho nesse papel pseudovelho. 
No BBB nunca que ia acontecer uma pérola dessas...

Com o voto do público, o programa fica muito previsível também. Você descobre quem vai ganhar 10 semanas antes de acabar, só de conversar com os seus amigos. Concentrar as decisões nas mãos de alguém do próprio formato do programa dificulta isso. O espectador fica na apreensão de saber se o jurado vai fazer alguma bobagem e eliminar o melhor, o seu favorito, etc. E ainda dá pra xingá-lo sem culpa no dia seguinte. (No primeiro caso, se o cara que você torce sai, a culpa é sua porque não votou o suficiente).

Sem contar que em No Limite, as pessoas queriam o prêmio. No BBB, como todos são lindos e loiros, o pessoal já entra pensando em como faturar mesmo sem levar a bolada principal, ao assombrar a mídia pelos próximos seis meses (taí outra coisa em que prefiro No Limite, depois de acabado o programa, seus participantes SOMEM da nossa vista!). Seja sendo capa da Playboy, da G Magazine, estrelando algum filme proibido (ou um quadro no Zorra Total), conseguindo participações especiais em programas da Lucina Gimenez ou cobrando para comparecer em eventos que vão desde festas de 15 anos a inaugurações de estabelecimentos.

Qual a graça de acompanhar uma competição em que os concorrentes não querem vencer?

É por causa da competição que é divertido acompanhar futebol. É por causa da competição que é divertido ver Ídolos toda temporada, mesmo sabendo que ganhar esses programas de calouros não significa porcaria nenhuma. É por causa da competição que Top Chef já está na, sei lá, décima temporada!!!! (Outro dia, lendo um infográfico sobre tipos de nerd, descobri que existe uma ramificação chamada “Nerd Culinário”. Talvez isso explique também)

E eu sempre me perguntei como um concurso de culinária fazia tanto sucesso. Aí, um dia, domingão, hora do almoço, aquele horário em que não tem NADA passando na TV, passamos pelo canal de viagens e lá estava um programa chamado A Guerra dos Cupcakes.

Cupcakes Nerds

A princípio pensei que fosse uma GUERRA mesmo em que os competidores atiravam cupcakes uns nos outros (uma ótima ideia de programa de TV, se você quer saber minha opinião). Infelizmente, era só uma competição tipo Top Chef, só que com cupcakes, cujo prêmio era fazer os bolinhos de algum evento especial a cada episódio.

Eu assistiria

Resolvemos assistir mesmo assim, só pra ver como era. Acontece que o negócio é tão absurdamente ruim, que acaba sendo bom. (Pois é, também como a Tina Fey, tem vezes que também não resisto a essas coisas indiscutivelmente ridículas.)

A dublagem totalmente fora de sincronia, o apresentador gritando: “Faltam 10 minutos! Vocês vão ter que se superar porque isso aqui é a Guerra dos Cupcakes!!!!!”, aquelas pessoas arrancando os cabelos por causa de um bolinho, os jurados fazendo cara de maus e dizendo coisas como “Você foi muito ousado com esse cupcake”, “Não consegui sentir o gosto do abricó porque ficou camuflado pela abóbora” e “Essa textura está divina, mas você não entendeu a proposta da prova” são coisas, no mínimo, engraçadas.

 "Achei essas borboletinhas muito MSN..."

Mas passados 15 minutos você começa a se interessar pela competição e fica realmente torcendo e fazendo comentários sérios, como quem entende do assunto: “Viu só? Eu sabia que esse bolinho de abricó com abóbora não ia dar certo”.

Uma delícia crocante de programa, como já diria o pessoal dos Seriadores.

Vista você também essa camisa!

Não precisa muita coisa pra entregar entretenimento de qualidade (nem que seja de qualidade duvidosa). Mas pra isso é preciso que as pessoas façam alguma coisa que não se bronzear. E que elas queiram ganhar também. Porque senão aí não tem graça.

PS Mas a principal razão pela qual eu odeio o BBB é porque ele é responsável pela Globo não passar metade da cerimônia do Oscar. Ainda bem que saí dessa vida de TVAberta...
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Fechado para Balanço

Geralmente no início ou no fim de ano, você já deve ter visto, as empresas anunciam que ficarão um ou dois dias "fechadas para balanço". Nesses dias elas não obrigam todo mundo a ajudar na contabilidade a fim de fechar o balanço a qualquer custo, nem instalam um balanço para que os funcionários se divirtam um pouco e muito menos colocam para tocar Betty, Balanço o dia todo. Na verdade, se você achava que a tarefa tinha a ver com a contabilidade, estava correto, mas o trabalho realizado nesse dia é menos contábil do que parece e se chama INVENTÁRIO.

Também não significa que os balanços não podem entrar na empresa nesse dia

Ao contrário do que a minha mãe achou, o inventário em questão também não tem nada a ver com a herança de alguém. Fazer inventário de um supermercado, por exemplo, consiste na árdua tarefa de contar cada item dentro e fora das prateleiras, a fim de validar o estoque registrado na contabilidade. Se houver divergência, a contagem é feita de novo, e persistindo ela, conta-se novamente para tirar a dúvida.

Por isso, nos dias de inventário, a empresa tem de fechar, porque aí o sistema é desativado e naquele dia, ninguém faz mais nada (não vende, nem compra) além de contar. Ou então fazem à noite. Ou no fim de semana. E podes crer, a auditoria tem de estar lá para verificar se os funcionários todos estão contando tudo mesmo, ou estão inventando os números da cabeça deles. Já deu pra perceber que não é dos trabalhos mais intelectuais e sim dos braçais, podendo durar dias e noites (literalmente) e nas datas mais ingratas, podendo ser no dia 24 ou 31 de Dezembro, inclusive. Então, você já imagina como as pessoas ficam felizes quando ficam sabendo que estão programadas para fazer inventário.

E eu dei essa volta toda para falar que esses dias fiz meu primeiro inventário, numa fábrica de torneiras aqui do Rio.

Foi uma experiência muito cansativa. Acordei cedinho e voltei pra casa nos dois dias morta, já sem pernas de tanto andar pelo parque fabril e acompanhar as contagens em pé. No entanto, também foi uma experiência diferente e de muito aprendizado.

Primeiro porque você vê todo o processo produtivo e se sente dentro do Castelo Rá-tim-bum quando eles cantavam aquela música do “Você vai ver, fazendo tudo com carinho vai acontecer”.

Depois porque você percebe na prática que aquele filme do Chaplin em que ele fica maluco de tanto repetir os mesmos movimentos não é ficção, como já tinha dito aquele seu professor de história quando foi explicar Revolução Industrial. Coloque aqui nesta lição também conceitos das aulas de geografia, administração, contabilidade de custos e até matemática, como fordismo, linha de produção, a importância de uma política de recursos humanos, o rateio dos custos por área e problemas simples de regrinha de três, por exemplo.

E por último, porque você começa a dar muito mais valor àquilo que você tem.

Hoje o tempo voa, amor... Escorre pelas mãos...

A gente do setor de serviços está acostumado com ar condicionado, cadeirinha, computador. Mas no segundo setor, o negócio é trabalho braçal, uniforme, sinal marcando hora do almoço, comida igual pra todo mundo (e nem todo dia é das melhores), os caras trabalhando num calor infernal, perto de máquinas de carvão, com um barulho desgraçado, e muito óleo no chão. E tudo bem, eles até devem ganhar algum percentual de insalubridade, mas a gente fica pensando se este acréscimo na folha de pagamento compensa o tempo de vida encurtado... E tendo em vista a base em que será calculado esse acréscimo, a "mais valia" aí é grande.

Inventário é o único dia em que a nossa empresa permite usar traje casual: calça jeans, tênis, camiseta, afinal você vai passar o dia todo em pé. E nem pode usar roupa social mesmo. Nesse dia a gente vai ficar em contato com os operários, os caras que põe a mão na massa, usam uniforme, carregam o pesado! Se às vezes, vestidos assim “à paisana”, alguns deles não entendem o sentido do que estão fazendo nem nosso papel ali, trajar uma roupinha chique pode aumentar ainda mais a distância e a resistência ao nosso trabalho.

Alguns são legais, puxam papo, e são felizes com o que fazem, o que dá gosto de ver, tendo em vista a ralação que é. Mas dá pra ver a insatisfação de outros só de olhar. Ao imaginar aquelas condições de trabalho todo dia, você começa a entender o porquê das reivindicações. Dá pra perceber um clima de revolta no ar. E você fica só esperando o momento de alguém gritar e anunciar a volta do ludismo e quebrar todas as máquinas. Ou alguma coisa pior, sei lá.

De um certo modo, os muros da fábrica pareciam lembrar uma prisão, com os uniformes e os sinais, marcando o horário de tudo (ou uma escola extremamente disciplinada, se você quiser viajar um pouco mais*). Na verdade, existe uma teoria de administração que compara as empresas a prisões mesmo. Interessante mesmo era ver as mulheres que, mesmo cercadas de graxa, eram vaidosas e passavam batom na hora do almoço e pareciam ser outras pessoas na hora da saída, sem a roupa cheia de óleo.
* O que me lembrou daquela aula da Talita em que a gente foi debater O Alienista/Bicho de 7 Cabeças e acabou chegando à conclusão de que a hora do recreio – falo recreio até hoje, e daí? – não era nada muito diferente do banho de sol das penitenciárias.

E aí você dá graças a Deus que pôde estudar, porque sabe-se lá o que acontece com esses caras que ralam pra caramba se a empresa resolver colocá-los no olho da rua, ou se machucam durante o expediente. A competição entre os funcionários em alguns setores é ferrenha. Que empresa vai querer contratar um senhor de meia idade para esse tipo de serviço quando se pode ter um jovem de vinte com muito mais disposição?

Você sai da fábrica morto de cansado, mas admirado com a força de vontade e da força laboral mesmo (se eu fiquei assim com um dia, imagina eles em encaram essa rotina direto) da classe trabalhadora do Brasil. E o aprendizado que eu tirei do inventário, esse daí não deu pra ser contado no fim do dia, não.

PS Então, acabei de voltar de um inventário de 3 DIAS(!!!!) de uma fábrica de cosméticos, e dessa vez aprendi inclusive que se deve responder "Sim" para a pergunta "Você tem namorado?", mesmo que não tenha, a fim de cortar logo o assunto com funcionários, digamos, mais saidinhos.
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sábado, 31 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011

Sempre tive uma teoria de que os anos ímpares são mais legais que os anos pares. Os anos ímpares são aqueles em que acontecem as coisas inesquecíveis, que são bons do início ao fim, que dão vontade de pedir bis no dia 31/12. Os pares geralmente são aqueles bacanas, mas que fazem a gente sofrer um bocado, talvez como compensação pela incribilidade (existe essa palavra?) do ano anterior.

Mas, depois de 2006 (o ano mais legal do Ensino Médio, e um dos mais legais da VIDA!), eu andava deixando de lado a minha teoria altamente científica.

Contudo, 2011 veio para retomar a minha teoria com força total!!!!

Uau! Que ano, meus amigos! Que ano! 2011 vai deixar saudades, viu!

Um dos anos mais importantes da minha vida, com certeza. Pode não ter sido um ano de tantas descobertas como 2010, mas também foi um ano de conclusões, recomeços e algumas loucuras.

Muita coisa boa aconteceu em 2011 (e eu nem comprei nenhuma Ioguteira Top Therm – pra falar a verdade, eu sempre tive uma. Sério). Não precisa nem forçar muito a vista pra perceber que eu comecei o ano de um jeito e termino hoje uma pessoa bem diferente. Muito mais segura do que quero e me sentindo muito mais valorizada também. Na verdade, acho até que sou uma pessoa muito próxima da que me imaginei quando chegasse a essa altura da vida.

Segue a listinha fora da ordem cronológica:
  • Comecei no estágio novo (num dos primeiros dias do ano, de verdade).
  • Fui à premiere de Rio, fiquei do lado de fora e fui enganada pelos seguranças do evento
  • Prometi a mim mesma que não iria perder minha dignidade indo para porta de hotel, porque isso aí era coisa de gente desocupada.
  • Perdi toda a minha dignidade indo pra porta de hotel
  • Mas ganhei a felicidade total quando fui convidada pra entrar no Fasano pela própria Anne Hathaway (de que vale a sua dignidade quando a possibilidade de encontrar com sua atriz favorita está em jogo?)
  • Abracei, conversei, autografei e tirei foto com a Anne (sério, fui pro céu e voltei nesse dia, HISTÓRICO!!!! MELHOR DIA DO ANO!!! Você não tem noção do quanto eu fiquei feliz em 25/03!!! Uma dica: MUITO, MUITO, MUITO, MUITOOOO!)
  • Joguei boliche com os amigos.
  • Fiquei boquiaberta com as descobertas das minhas pulguinhas do CEFET.
  • Matei a saudade do pessoal no primeiro encontro da INFO 2007, geração de prata.
  • Consegui meu primeiro emprego, em outra empresa que não a do estágio.
  • Achei que o emprego ia estragar tudo e atrapalhar meu penúltimo semestre da faculdade
  • Trabalhei fim de semana e
  • Trabalhei até às 3 da manhã!!!!!!
  • Mas não atrapalhou, deu tudo certo, e estou muito feliz!
  • Andei mais de táxi do que a Angélica
  • Já conheço o Centro como a palma da mão e agora pego ônibus de olho fechado e
  • Viajei pra São Paulo (à trabalho)
  • Fiz progressiva no cabelo
  • Fiquei feliz da vida quando soube que o Jamie vinha pro Brasil
  • Fiquei revoltada quando soube que o show era só em São Paulo, num festival no meio do nada (ah se ele ainda estivesse com a Isabella...)
  • Fui ao show da Sandy, aquela Devassa, mas infelizmente ela não cantou Conga Conga
  • Conheci muita gente nova e legal!
  • Entrei no Copacabana Palace (dessa vez num evento da empresa, não fui correr atrás de ninguém)
  • E perdi meu Riocard no mesmo dia (alegria de pobre dura pouco!)
  • Não fui ao Rock in Rio.
  • Mas fui a dois eventos literários no Rio e à Bienal, encontrei gente de internet e aproveitei o desconto progressivo da Record
  • Comprando no cartão de crédito (esse negócio é um perigo)
  • Me senti a própria Becky Bloom quando achei ter encontrado uma edição raridade de DP a 10 reais
  • Descobri que não era edição raridade coisíssima nenhuma 10 minutos depois
  • Minha irmã conseguiu publicar seu livro. (Aproveite e faça a última compra de 2012, vai que o mundo acaba!!!
  • Fui reclamar taxa no banco e esfreguei a resolução do BACEN na cara da atendente que queria não queria me dar isenção de tarifa
  • Quase que fico reprovada em Cont. Pública porque o professor tinha lançado a nota errada (ufa!)
  • Mas fiquei de prova final em Auditoria, trabalhando com Auditoria, porque as provas que o cara fazia eram super nada a ver.
  • Passei com 10 na prova final (toma!)
  • Descobri que o CR não adianta de porcaria nenhuma quando você está tentando vaga com o professor mais disputado do TCC
  • Fiz meu último SAID pra entrar, escrevi Chuck Norris no formulário (sacanagem, escrevi Concluinte) e nem assim consegui vaga nele
  • Ao invés disso, me alocaram em outro professor que parecia muito rígido pelo email e a gente nunca sabia se quem respondia era ele ou a mulher e não deixou eu usar o tema que eu queria
  • Mas descobri que ele E a mulher eram ótimas pessoas pessoalmente
  • Fiz o TCC, entreguei e nem doeu.
  • Passei com 10 no TCC (Yeah!)
  • Terminei a faculdade.
  • Fiquei com saudade da faculdade.
  • Tirei foto de formatura.
  • Não consegui tirar o meu diploma do técnico até hoje (!!!)
  • Fiz inventário (relato só no ano que vem, rs!)
  • Assisti filme na Sala De Lux.

Eu não sou muito de estabelecer metas pro ano seguinte porque eu nunca cumpro e tal. Mas, acho que agora, com o fim da faculdade, é bom começar a traçar algumas para não ficar vivendo errante e vendo a vida passar por você. Ainda vou pensar nelas direitinho, mas estão mais ou menos esboçadas na minha cabeça já.

No mais, espero que 2012 também não seja um ano “totalmente par” e que o mundo não acabe, porque ainda tem muita coisa pra eu fazer nessa vida.

Feliz 2012 pra vc!
Lisa
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Fim de Ano e o Jogo das Associações

No Cefet, quando a gente não tinha mais nada pra fazer e estava no meio de uma viagem entediante, puxava o Jogo das Associações. Era uma brincadeira bem bobilda que consistia em falar a primeira palavra que lhe viesse a mente de acordo com a que o seu colega acabara de ter dito. Desse jeito, o jogo que começava com uma simples “Pipoca” rumava por palavras pra lá de absurdas que nada tinham a ver com a guloseima saída do milho, principalmente porque no meio do jogo, o Jonas, um dos mais bobildos do grupo, tratava de desvirtuar totalmente as associações imagináveis. Era mais ou menos assim:

- Pipoca
- Cinema
- Filme
- Meninas Malvadas
-Lindsay Lohan
- Sexo
-Rock’n’Roll
- Rock in Rio
- Drogas
- Sexo
- Padrinhos Mágicos

Hã?????

E eu não sei você, mas nessa época do ano sempre acho que os dias nascem diferentes (talvez seja o horário de verão), com um ar mais leve, as pessoas querendo ser felizes, mesmo com todos os problemas, o tempo passando mais devagar (apesar do horário de verão) uma sensação de alívio porque mais um ano se passou... Às vezes tenho a sensação até de que vai nevar no calor de 40º do Rio. É, podem me internar.

Esse ano cheguei a conclusão de que a razão disso tudo talvez seja porque todo fim de ano eu brinco inconscientemente de “O Jogo das Associações”. Acho que associo o fim de ano atual com as coisas legais que acontecem/aconteceram no fim de ano, tipo:

Férias – Aquela sensação de alivio, de pegar o último boletim, de não ter mais provas pra fazer e de não precisar mais acordar cedo pra ir pro colégio. Tem mais de um ano que eu não tiro férias de verdade, mas senti a mesma coisa esse ano. Sério.



Rodízio de pizza/Passeio com os amigos – E a comemoração de encontrar os amigos no fim do ano? Rodízio de Pizza com “Parabéns pra você” aleatórios para qualquer um na pizzaria, ir a um Sítio no meio do nada, fazer excursão pro Rio Water Planet... Também tem tempo que eu não faço mais nada disso. Mas dá vontade de fazer de novo. Dá vontade de ser feliz, sabe?

Animação, gente! Bora, "A Patrícia roubou pão na casa do João..."

Presentes – Ha! Taí uma coisa engraçada. Depois que a gente cresce esse negócio de presentes perde bastante o sentido. A gente compra tudo o que quer logo no meio do ano, geralmente com o próprio dinheiro, até. Não tem razão pra ficar aguardando a data, mas que dá saudade desse tipo de coisa, ah, dá!

Hoje em dia, eu mesma compro meus presente...

CD de Sandy & Junior – Mês de Dezembro chegando e era batata! Lá estava o novo CD da duplinha desembarcando nas prateleiras para servir de presente de Natal de sempre. E virava trilha sonora de fim de ano e das festas com os amigas aqui em casa também. Agora não tem mais CD novo, mas aí chega essa época do ano, eu fico com vontade de ouvir novamente só pra relembrar.

Tocou demaaaaaiis no fim de ano de 1999

DP – Fim de Ano era época de comprar o novo volume de DP. E de fazer contas pra quantos livros faltavam, e discutir o que viria depois e aguardar ansiosamente o próximo volume. E de pensar no que a gente ia fazer depois que acabasse... Pois é, acabou. Mas só de lembrar em como era legal tudo isso, dá uma saudade danada, e às vezes eu acho que ano que vem ainda tem mais. Vai entender!

Aiiii, que saudadeeee!!!!

Blockbusters da Disney – A Disney é sinistra. Todo fim de ano (ou começo de Janeiro) ela lança aquele filme família que arrasta multidões aos cinemas e conquistam um lugar nos nossos corações. Encantada, Enrolados, Muppets. Lá em 2002, há 10 anos, estreava um tal de Diário da Princesa também... Ano que vem tem A Bela e a Fera em 3D. OBA!

Anota aí na agenda! Fevereiro de 2012! Uhuuu!

Comédias Românticas com Natal no meio – Escrito nas Estrelas, Enquanto Você Dormia, O Amor não tira Férias, Bridget Jones, Simplesmente Amor... Na verdade eu gosto MESMO só dos dois primeiros, mas não dá pra negar que os outros são uma gracinha. Dá vontade de assistir de novo sempre no mês de dezembro. Dá vontade de ser feliz depois que a gente assiste. E eu sempre termino achando que a neve é o ingrediente que faz a vida ser mais bonita.

O único defeito do filme é o cabelo-palha da Kate Beckinsale.

E você? Tem alguma associação absurda que faz em época de fim de ano? Ou em outra época do ano? Não vale aquelas clássicas que entram nas listas de todo mundo, tem que ser desse nível ali do Jogo das Associações.

Abs
Lisa
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Becky Bloom em tempos de crise

Outro dia escrevi aqui como se deu o início do meu relacionamento com Becky Bloom e sua trupe 10 anos depois de seu lançamento, por conta da divertida adaptação do livro para as telonas. Pois é, o filme ficou 10 ANOS (!!!!) em negociação até conseguir se tornar realidade. E ironicamente, acabou sendo produzido numa época de crise na economia. Aproveitando a deixa, a película, inclusive, até citava a recessão.

Desde então, o bicho parece estar ficando cada vez mais feio com a crise se espalhando pela Europa e os EUA tendo sido rebaixados no índice de liquidez da dívida e passando a tesoura no orçamento destinado à educação. Ainda bem que aqui no Brasil foi só “uma marolinha”...

O engraçado é que, lá em 2009, quando me apaixonei por Becky Bloom e seus delírios de consumo, eu me peguei imaginando como seria a Becky na crise. Sempre achei que ela ia gastar mais pra manter a economia girando e no final ia livrar o mundo da crise financeira com sua filosofia de vida. Aí, não demorou muito, tia Kinsella anunciou esse livro que, entre outras coisas, mostra, adivinha só, Becky Bloom em meio a uma crise econômica.

Esse “entre outras coisas” inclui a filhinha de dois anos mais sapeca do que nunca (mas ainda bem longe do padrão Becky de aprontar), a volta de Elinor, a insatisfação dos pais para com sua estadia prolongada na casa deles (seria isso uma mensagem subliminar da “crise imobiliária” que deu início a essa onda de desaceleração e desemprego?) e uma superfesta SURPRESA para o Luke*.
* Falando em Luke, nunca na história desse país se viu ele tão humano como neste volume. Se você terminar o livro ainda achando que ele é um executivo amargo, sinto informar, mas você é que está precisando de um transplante de coração.

E, ao contrário do que eu imaginei, na verdade, a Becky ECONOMIZOU nesse livro!!!!! Sim, ela ainda teve uns ataques compulsivos, mas quase nada. A real é que, mesmo inconscientemente, ela fez outras pessoas girarem a economia, mas aí você vai ter que ler pra descobrir como conseguiu essa proeza. :)

Impressionante mesmo é como a série continua nova depois de 6 livros (para entender sua dinâmica de continuação, leia este outro post) e como Tia Kinsella, assim como Papai Noel (aliás, HILÁRIA a cena do Papai Noel, logo no começo), não se esquece de ninguém e habilmente dá um jeito de inserir todos os personagens dos volumes anteriores, como Suze, Jess e Danny, e ao mesmo tempo trazer outros novos, como a secretária Bonnie. O que é ótimo, já que a sensação que se tem ao ler Becky é realmente a de encontrar velhos amigos.

No mais, Mini Becky Bloom é aquela fofura de sempre, com situações constrangedoras e absurdas que fazem rir até a morte e por isso são desaconselháveis de serem lidas em público (acho que a cena da igreja foi a campeã deste daqui, uma coisa quase gilmorística*), e a trama amarradinha e cheia de reviravoltas de Kinsella que faz a gente apertar o coração e terminar o livro com um sorrisão de orelha a orelha.
* Como você pode comprovar pela imagem ao lado (a capa especial de Natal da Inglaterra), o subtítulo da edição brasileira já vem de fábrica e não foi inventado como fez o pessoal do marketing do SBT com Gilmore Girls.

A cada livro que passa, aliás, eu fico mais fã dessa mulher, pois sua capacidade de preencher 500 páginas sem perder o ritmo e mantendo o suspense até o fim não é coisa fácil de se fazer. O final deste daqui, inclusive, deu vontade de narrar o livro tipo Galvão Bueno: “Olha o que ela fez! Olha o que ela fez!”, uma vez que a tal festa surpresa não foi surpresa só para o Luke, mas para os leitores também, mesmo a gente já sabendo da festa desde o início. Genial!

Como disse, cada livro da Becky desperta o mesmo tipo de sensação boa que se tem ao encontrar os amigos. E quando chega a despedida, nas últimas páginas, dá uma saudade danada dessa consumista tresloucada!!! Mas também como já expliquei, de tempos em tempos, a escritora  "tira férias" (tenho pra mim que com as outras personagens Sophie trabalha, com a Becky ela se diverte) e revisita nossa personagem favorita e quando o faz, ataca sempre em dose dupla, com alguma coisa do seu passado recente. Ops, acho que estraguei uma das surpresas... Mas só se você for muito esperto para descobri-la inteira. Vida longa à Becky Bloom!!!!!

PS. Este livro foi adquirido na Bienal 2011 com a filosofia Becky Bloom de que "comprar é um investimento" e de que descontos progressivos são sinônimo de economia.
PS2. Quero Becky Bloom 7 com Becky aprontando todas nas compras coletivas agora.
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um Dia - O filme

ATENÇÃO: Esse post contém spoilers do livro e do filme Um Dia. Se você ainda não o leu, SAIA deste blog imediatamente, tome vergonha na cara e só volte aqui quando tiver lido, estamos entendidos??? Se só não viu o filme, continue por sua conta e risco e... CORRA PARA OS CINEMAS antes que ele saia de cartaz!!!!!

Quando escrevi sobre Um Dia (o livro), comentei o fato de ele ser, na verdade, uma história sobre o tempo. E, ironicamente, aquilo que atrapalhou Um Dia (o filme) foi justamente a FALTA de tempo. Porque enxugar 20 anos de duas pessoas em 1h40 de filme era uma tarefa ingrata, quase impossível de cumprir. No entanto, até que a película se vira razoavelmente bem e consegue captar a essência do livro, mesmo que não completamente.

O que faltou ser

Muita coisa ficou na mesa de edição e passagens importantes (principalmente da Emma) ficaram de fora, o que no final tira um pouco do paralelismo proposto na obra original e daquela cola narrativa que unia elementos de um ano ao outro. Algumas piadas ficaram sem final (como a aposta do celular), outras sem início (como a da colega de quarto da Emma), e principalmente, o desenvolvimento dos personagens ficou prejudicado.

Se o livro conseguia equilibrar bem a discussão sobre as mudanças que o tempo faz na gente, sem se esquecer da outra sobre o que a gente faz com o tempo, o filme foca muito mais na segunda e dá a impressão de que faltou “uma perna”. Perna essa que pode interferir na sua interpretação sobre o filme até (ou não) e determinar sua opinião sobre o final (ou não), depende de quem vê.

Engraçado que antes de entrar no cinema, fiquei namorando a capa nova (e linda) na livraria, mas depois de vê-lo, ela já não me parece tão atraente, porque o filme é bom, mas parece uma versão incompleta da obra original. A capa nova parece errada agora. Para mim, a antiga é que corresponde à história verdadeira.

Câmera, close; microfone, please

Das pernas do Dexter, uma das que mais senti falta foi aquela da carta em que ele escreve para Emma, se declarando e dizendo para ela seguir logo o seu sonho, o que serviria para ratificar a influência do destino na história, assim como a correspondência (sem trocadilhos) de seus sentimentos. Cena que, infelizmente, deve ter ficado de fora puramente pelo limitado tempo de fita.

Mas quem sofreu com a mutilação foi mesmo Emma. Quando ela começa a se encontrar e Dexter a se desencontrar, o filme praticamente se esquece da parte feminina do casal, e esta tem sua participação limitada aos anos em que os dois aparecem juntos, mesmo que a personagem ainda tivesse alguns dramas individuais a desenvolver (tem anos que ela só nada e anda de bicicleta!!!!), dando a impressão de que só a vida do Dexter é que não andava como o esperado. As pernas “amputadas” da Emma são as que fazem mais falta e as que eu acho que seriam as mais difíceis de serem mantidas também.

Crepúsculo

Seu perfil revolucionário não nos é apresentado, porém penso que permanece implícito durante todo o longa, só fazendo falta realmente na cena da briga de sua última manhã, que remetia àquela discussão sobre o tempo que tanto gosto de ressaltar.

Outra parte que acrescentaria muito à trama seria o deslocamento de Emma em meio aos casais com filhos e sua ironia quanto aos papos de bebê. Este não só faria contraponto à recém-paternidade de Dexter, como justificaria ela não atender o telefone (ela não atende de propósito mesmo?) quando este liga pedindo ajuda com a criança e sua ida para Paris no ano seguinte. No entanto, além do óbvio problema do tempo, a dificuldade encontrada em encaixá-la pode ter sido a deselegância em utilizar o recurso da narração em off, sem contar a possível falta de coerência na película com as cenas seguintes em que Emma demonstra seu terno instinto maternal com a filha de Dexter e revela o desejo de ela própria ser mãe. (Alguma coisa do tipo: Se ela odeia tanto essas crianças, por que diabos quer ter filho?)

"Até que é bonitinho esse seu cafofo"

Mas, engraçada mesmo foi a sensação causada pela ausência do caso de Emma com o diretor da escola, pois, no livro, achei a parte esquisita, errada, não gostei de vê-la cometendo adultério, principalmente, porque era o tipo de coisa que a personagem, romântica e idealista, não faria!!!! Principalmente com aquele diretor nojento. Pensei que não fosse querer vê-la na tela, mas acabou que me peguei perguntando: “Cadê aquele diretor safado?”...

Tal trama revelou-se extremamente importante porque através dela é que se completava a aposta do celular, dava-se o estopim para o começo do seu próprio livro e percebíamos que a Emma também era mais complicada e menos perfeitinha, também capaz de fazer besteira, como o Dexter. Entretanto, entendo que ela foi retirada para proteger a personagem, uma vez que talvez pudesse sofrer com maus julgamentos dos espectadores, a exemplo da cena dos bebês.

Muito provavelmente esse era o diretor e a gente vai vê-lo só no DVD

Outras pequenas alterações são feitas e não fazem a menor diferença, como o local da viagem dos dois logo no início (gostei da inserção da praia de nudismo, haha!), ou o casamento da colega de quarto (que o tema era Maria Antonieta e tinha um labirinto no meio, mas que ganhou uma sequência ótima com a música do Robbie Williams), ou ainda o esperado acerto dos dois, que no livro era na casa dela (jurava que tinha visto essa cena no trailer!!!) e foi transferido para o meio da rua.

Dos meus preciosismos, gostava da cena do trailer que NÃO tinha no livro em que a mãe do Dexter mostrava simpatia pela Emma (que também ficou de fora no filme) e da cena da caixa de lembranças e da foto já no final. Mas sei que isso não fez a menor falta.

O final
E já que estamos falando do final, bom, sou defensora dele até a morte (a minha, quero dizer). Todas as outras conclusões imagináveis não fariam jus à densidade da história. Podia ter tido um final feliz com eles juntos ali em Paris, mas seria simplista demais. Podia terminar com eles morrendo velhinhos, mas ia ser Nicholas Sparks demais. E podia terminar com eles descobrindo que afinal de contas não davam certo juntos, mas seria injusto demais depois de tanto tempo. Ela podia até ter engravido e morrido no parto, mas seria brega demais.

O que aconteceu foi uma fatalidade. Todo mundo está sujeito a elas. Num dia, tudo pode acontecer. Da mesma forma que o relacionamento deles começou meio por acaso, ele terminou. Se a história era um pouco sobre a vida em geral, nada mais justo do que retratar a morte também. Sem contar que, como já dizia aquela frase famosa do Clube dos Cinco, "quando você cresce, o seu coração morre", o acidente só terminou o serviço. Gosto daquele sentimento de o que faltou ser do final e, principalmente, adoro a pegadinha que o autor prega na gente quando volta no tempo e entrega um final feliz através de flashback (se ferrou quem foi ler a última frase do livro achando que ia descobrir o final antes. Conheço uma pessoa que fez isso, mas não vou contar quem fui...)
* E se você quiser discutir porque gostou, ou porque desgostou, coloque a boca nos comentários que a gente abre um debate bem bacana por aqui (o importante não é provar quem está certo ou errado, é colocar seus argumentos e fazer o outro refletir por uma segunda vez, tirar o colega da zona de conforto... Por isso que eu sou forumzeira de carteirinha)

Ninguém pode reclamar que não teve beijo no final...

O filme assim, sem a segunda perna, pode dar margem a algumas interpretações maliciosas. Mas só se você estiver muito de mau humor e não tiver amor no seu coração. Ele emociona. Não como no livro. Mas emociona. A tomada da Emma deitada no chão foi mais A Hora da Estrela do que nunca e quando o caminhão bateu, doeu até em mim.

Roteiros à parte
Mas, se dramática e narrativamente, o filme tem seus percalços (culpa do próprio Nicholls, já que ele mesmo assina o roteiro*), em termos de caracterização o pessoal caprichou.
* Me pergunto se ele não fez de propósito só pra ficar ganhando elogios sozinho sobre como o livro é melhor que o filme...

Peraí, a diretora está usando saia E calça ao mesmo tempo???

A fotografia está sensacional, locações de encher os olhos, trilha sonora* bacana (com direito a música nova do Elvis Costello – é aquele de She, em Notting Hill), figurinos, maquiagem e penteados que remetem aos anos retratados em cena... Dá pra ver que o filme foi feito com muito esmero e carinho. Repare, por exemplo, na passagem de tempo, já quase no fim, enquanto Dex e Emma tentam ter um filho, como a máquina de escrever está posicionada bem ao lado do laptop de última geração, ilustrando o avanço tecnológico nos anos que se passaram.
* Decepção de não ouvir a bacanuda Good Life, que eu acabei viciando no trailer só.

E, claro, como não podia deixar de ser, a Anne super-arrebenta na atuação. O filme todo. Como não sou inglesa, nem americana, achei o sotaque lindo (hahaha!). Sério, gente, isso é que atriz! Ela não precisa fazer careta. A menina passa a emoção só com o olhar. Anne traz a inteligência e simpatia (e as botas do Diário, hehe) que a personagem precisa. Só ela já valia o ingresso (aliás, só ela valia esse ingresso caríssimo mesmo). Uma pena o roteiro não dar mais espaço à personagem.

Anne, sua linda, vai atuar bem assim lá em casa, vai!

Jim Sturgess não fica atrás e faz um Dexter perfeito, sendo detestavelmente adorável na medida certa. E o resto dos coadjuvantes também entrega boas atuações, embora não tenha muito tempo em tela.

Se o livro é melhor que o filme, isso já estava sacramentado desde antes da produção. Mas não ligue para o que dizem os críticos, o filme não deixa de ser ótimo e consegue captar, sim, a alma do livro. Ou pelo menos, parte dela. Se ao menos ele tivesse mais uns 20 minutinhos...
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